Friday, 12 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1283

Morre o transformador do Los Angeles Times

Morreu na Califórnia, na segunda-feira (27/2), o ex-publisher do Los Angeles Times Otis Chandler, aos 78 anos. Chandler, que herdou o LATimes de seus pais, foi o responsável pela transformação do jornal em um dos mais lidos, respeitados e lucrativos veículos de comunicação dos EUA.


O empresário encerrou um ciclo de quatro gerações de uma mesma família no comando do jornal, que teve início em 1882, quando o veterano de guerra Harrison Gray Otis comprou parte dele. Quando assumiu o controle, na década de 1960, Chandler fez amplas modificações no LATimes. Com fama de ruim e parcial até demais quando se tratava de política, o jornal contratou jornalistas talentosos, abriu dezenas de sucursais em diferentes países e acabou por ganhar diversos prêmios, incluindo nove Pulitzer.


Chandler enfureceu membros da família e republicanos locais quando transformou a parcialidade direitista do jornal em uma visão mais centrista. O empresário também revelou talento na expansão dos negócios. Foi sob sua direção que a Times Mirror Company, companhia proprietária do LATimes, comprou o Newsday, o Baltimore Sun, o Hartford Courant, diversas estações de televisão a cabo e duas editoras literárias.


Preparação intensa


Chandler nasceu em 1927, em Los Angeles, filho único do casal Norman Chandler e Dorothy Buffum Chandler. Ele era publisher do LATimes; ela, envolvida em arrecadação de fundos, ajudou a transformar Los Angeles em um grande centro cultural.


O jovem, apaixonado pelo surfe, por aventuras e esportes radicais, foi treinado pelo pai para um dia assumir o jornal. Norman Chandler preparou para o filho um programa de treinamento com duração de sete anos. Ele começou como aprendiz na redação no turno da noite, foi repórter, executivo-júnior na área de circulação e administrador do tablóide Los Angeles Mirror News, também de propriedade da família. Em 1960, Norman convidou centenas dos mais poderosos executivos, políticos e profissionais de mídia da Califórnia para um banquete, onde fez um anúncio surpresa: ele estava indicando seu filho Otis para o cargo de publisher do LATimes.


Declínio


Chandler jamais livrou-se da suspeita de que não era levado a sério pelos seus pares do New York Times, Washington Post e outros integrantes do establishment da mídia noticiosa da Costa Leste. Seus críticos nunca entenderam seu entusiasmo pelo surfe, por caçadas, motocicletas e carros esportivos – obsessões que por muitas vezes quase lhe custaram a vida.


Mesmo os seus mais próximos auxiliares surpreenderam-se quando ele decidiu deixar o jornal em 1980, aos 52 anos de idade, indicando Tom Johnson, ex-editor e publisher do Dallas Times Herald, como seu sucessor. Foi a primeira vez em quase um século que alguém de fora da família assumia o posto. Chandler se tornou presidente do conselho do jornal, mas renunciou alguns anos depois por pressão de outros membros do board.


‘Otis foi surfar e não voltará mais’, disse na ocasião Noel Greenwood, editor metropolitando do LA Times, definindo corretamente inesperada aposentadoria do seu patrão – de acordo com Dennis McDougal, o autor de Filho privilegiado, uma elogiada biografia de Chandler publicada em 2001.


McDougal, um ex-repórter do LAT, disse na segunda-feira (27) que Otis Chandler ‘foi certamente o último dos grandes publishers do século 20′, aquele que deu ‘estatura nacional e internacional ao seu jornal’ e que não poupou nenhuma despesa para correr atrás da notícia.


O empresário e jornalista morreu em conseqüência de uma doença degenerativa cerebral. Ele deixa sua segunda mulher, Bettina Whitaker, quatro filhos e 15 netos. Informações de Jonathan Kandell [The New York Times, 28/2/06].