Wednesday, 29 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

PT não mata a cobra e esconde o pau

O Partido dos Trabalhadores divulgou no final da semana passada uma ‘declaração política’ aprovada por sua Executiva nacional (leia a íntegra do manifesto petista na rubrica Entre Aspas) em que defende o seu ‘patrimônio ético’ e responsabiliza ‘setores da oposição e da mídia’ por uma campanha sistemática e orquestrada, ‘visando desconstituir o capital ético e político do PT e enfraquecer o governo’ a partir do episódio do ex-assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, flagrado em uma gravação enviada à revista Época negociando a cobrança de propina com o empresário Carlos Ramos, o ‘Carlinhos Cachoeira’.

De acordo com o documento do PT, ‘essa campanha se traduz através de uma onda de denúncias vazias, de boatos infundados e de insinuações incomprovadas, por isso inaceitável. O principal objetivo destes setores da oposição, ao atacarem o governo e o PT, é encontrar atalhos fáceis para o êxito eleitoral nas próximas eleições’.

Há várias maneiras de interpretar o manifesto petista, o que necessariamente acontece com qualquer documento de cunho político. Vamos nos ater aqui ao que diz respeito à relação entre o partido e a imprensa. É fato notório que a agremiação nunca contou com a simpatia da mídia brasileira durante o período em que esteve na oposição.

Com origens no movimento sindical combativo que ressurgiu na década de 1970, pouco antes do ocaso da ditadura militar, o PT iniciou sua vitoriosa trajetória na política brasileira reunindo setores da Igreja Católica progressista, intelectuais desencantados com o partido de oposição consentido pelo regime – o MDB – e uma série de ativistas de extrema-esquerda que estavam desarticulados em função da ferocidade da repressão. Em seus primeiros tempos, o PT adotou um programa que visava a implantação do ‘socialismo democrático’ no Brasil – tese que foi sendo paulatinamente abandonada ao longo dos anos, até ser totalmente suprimida pouco antes da chegada ao governo federal. Por todas essas características – agremiação socialista, com origens sindicais e abrigo de radicais que lutavam contra a ordem estabelecida –, a totalidade dos empresários do setor de comunicação do país tratou, nos primeiros anos da redemocratização, de convencer a opinião pública da inconveniência de o PT vir a governar o Brasil.

Os exemplos dessa postura da mídia são inúmeros e o famoso episódio da edição pela TV Globo do debate entre os então candidatos Fernando Collor e Lula, em 1989, apenas o mais conhecido. De modo geral, pode-se dizer que aos empresários do setor de comunicação, capitalistas que são, incomodavam sobretudo as idéias de Lula e seus companheiros sobre a forma de gerenciar a economia. Até a campanha de 2002, predominava no PT um discurso profundamente nacionalista – favorável, por exemplo, ao rompimento das relações do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI) – e de enorme ênfase ao papel do Estado na regulamentação da atividade econômica.

Ao mesmo tempo em que não gozava de nenhuma simpatia da grande imprensa nacional, o PT fracassou em suas tentativas de criar uma mídia própria, ao estilo do de alguns partidos de esquerda europeus.

Mudanças no PT, mudanças na mídia

A partir da derrota de Lula em 1998, porém, o PT aprofundou uma mudança de rumo que já vinha sendo gestada desde o pleito anterior, em 1994. Em quatro anos, de 1998 a 2002, a agremiação reviu seu programa e realizou uma guinada à direita, aproximando-se de teses social-democratas. O ápice desta mudança está na famosa ‘Carta aos Brasileiros’, lançada durante a campanha presidencial de 2002, na qual o então candidato e hoje presidente Lula assegura – não aos brasileiros, mas ao ‘mercado’ – que não realizaria mudanças radicais e respeitaria os contratos firmados na gestão anterior.

Já durante a campanha eleitoral, a mudança no discurso petista surtiu efeito e a grande imprensa, ainda que mais simpática à candidatura oficial de José Serra (PSDB), poupou Lula de críticas mais duras e deu à candidatura petista um tratamento completamente diferente do que o dos três pleitos presidenciais anteriores.

Com a vitória de Lula nas urnas e o início do governo petista, veio a confirmação de que o candidato não estava blefando para chegar ao poder. A política econômica adotada condizia com a ‘Carta aos Brasileiros’ e até aumentava a dose amarga do remédio prescrito pelo FMI – como se viu no episódio do aumento do superávit primário de 3,75% para 4,25%, obra da nova equipe que assumiu o ministério da Fazenda.

Em 2003, exceções à parte, a verdade é que a imprensa ofereceu um ano de trégua ao novo governo. Críticas pontuais, nenhuma denúncia de vulto e elogios pela ‘coerência’ do presidente foi o que mais se pôde ler e ouvir na mídia brasileira.

Inconsistências petistas

O ano eleitoral de 2004 chegou e, com ele, a primeira grande denúncia contra a gestão petista, publicada na revista semanal da Editora Globo. O governo e o PT sentiram o golpe e reagiram muito mal, atabalhoadamente. O documento aprovado pela Executiva do partido e divulgado na semana passada é um retrato acabado da confusão instalada tanto no governo como na agremiação, sobretudo porque se o texto acerta em alguns pontos, omite os mais relevantes e acaba tendo o efeito de um tiro saído pela culatra. Senão vejamos:

** Os petistas falam em ‘campanha sistemática e orquestrada’ da mídia. Nitidamente, não é disso que se trata. Nem de longe o Brasil vive uma situação similar, por exemplo, à da Venezuela, onde, lá sim, o presidente Hugo Chávez é vítima de uma campanha sistemática da imprensa, favorável a sua deposição.

** Se o PT vê indícios de uma campanha deveria ser mais claro e explicar como ela se dá. Poderia, por exemplo, relatar que o ‘Caso Waldomiro’ eclodiu justamente na fase final de ajustes no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) de um programa para reestruturar o setor de comunicação do país, uma espécie de ‘Pró-Press’, em analogia ao Proer que Fernando Henrique ofereceu ao sistema financeiro. Poderia, por exemplo, relacionar a publicação de uma fita de dois anos atrás, que já estava em poder da oposição durante a campanha de 2002, conforme relato do ministro José Dirceu, com o pleito até agora não atendido da Rede Globo, cujo grupo controlador tem dívidas de cerca de 6 bilhões de reais, de refinanciamento a juros camaradas de 1 bilhão de reais.

** Teria também, como oportunamente lembrou Janio de Freitas na Folha de S. Paulo (leia o seu texto na rubrica Entre Aspas desta edição), que explicar por que motivo Dirceu foi almoçar com a cúpula da Globo na mesma sexta-feira em que Época chegava às bancas com a primeira reportagem sobre seu ex-assessor.

O problema, ao que parece, é que os petistas quiseram matar a cobra, mas esconder o pau. Não conseguiram fazer nem um nem outro com competência: a acusação ficou ridícula e acabou expondo uma negociação delicadíssima para o governo.

Dia e noite

A bem da verdade, o que ocorreu a partir da eclosão do ‘caso Waldomiro’ não foi nem de longe uma campanha orquestrada da mídia contra o governo Lula. O documento petista acerta quando diz que a oposição está usando o episódio para ganhar terreno nas eleições municipais de outubro – e seria absurdamente incompetente se não o fizesse. A balbúrdia oposicionista, aliás, foi até tímida perto do que faria o PT se tivesse um episódio desses em mãos.

O que de fato ocorreu na imprensa brasileira a partir da denúncia de Época é um processo muito natural quando surge um escândalo político: a concorrência trata de correr atrás do veículo que deu o furo, até para não perder credibilidade. Neste ínterim, obviamente, podem entrar no jogo interesses escusos (afinal, o ‘Pró-Press’ está a caminho…) e a histeria de colunistas que sempre combateram o PT e aproveitam o ensejo para sair da incomodada hibernação a que se submeteram desde que o partido chegou ao poder.

Desde o surgimento do ‘caso Waldomiro’, três semanas atrás, o noticiário sobre o episódio vem ‘amornando’ – as três revistas semanais já não o trouxeram para a capa na semana passada e apenas uma, Veja, o fez na semana corrente (e oferecendo a versão do ministro José Dirceu). Dos grandes jornais, apenas a Folha de S. Paulo vem se comportando com mais agressividade em seus editoriais e reportagens, tendo até tomado um ‘pito’ de seu ombudsman na crítica interna, disponível na internet (leia as críticas internas do ombudsman da Folha na seção Voz dos Ouvidores).

Do ponto de vista do Partido dos Trabalhadores, por fim, o documento apresentado na semana passada não condiz com sua história de transparência e ética no trato de matérias de interesse público. O que mais importa para o cidadão brasileiro, neste momento, é que o ‘caso Waldomiro’ seja devidamente elucidado – e, vale reconhecer, a parte que coube ao Executivo foi feita imediatamente, como a demissão do assessor –, e também que os interesses em jogo venham à tona, para o bem e para o mal de todos os interessados, inclusive do próprio governo. Até para evitar que alguém venha a inferir que o PT acusa a mídia de dia e negocia com os empresários do setor, à noite.