Saturday, 18 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Quem se importa com a inflação?

A inflação chegará 4,5%, meta oficial, até o fim de 2012, prometia o Banco Central (BC) até recentemente. Esqueça. A promessa nem é mencionada na última ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada na quinta-feira (28/7). A meta poderá ser alcançada em 2013, talvez no primeiro semestre, segundo o documento. E aí: o BC jogou a toalha? Quem se importa com os preços ao consumidor, além do próprio consumidor?

Pode parecer estranho, mas só um dos grandes jornais paulistas e cariocas, O Globo, destacou esse dado. Chamada na primeira página: “BC admite que inflação só ficará perto do centro da meta em 2013”. Na abertura do caderno de Economia o título foi mais forte: “BC admite que alvo agora é 2013”.

O foco noticioso dos outros grandes jornais foi muito diferente. “Desaceleração faz BC acenar com fim da alta dos juros”, informou em manchete de primeira página o Estado de S.Paulo. A Folha de S.Paulo, em matéria de página interna, foi na mesma direção: “BC indica que ciclo de alta de juros está perto do fim. O Valor deixou o assunto para a segunda página do caderno de Finanças: "BC prevê deterioração na Europa e aperto pode ter chegado ao fim".

Argumentos tolerantes

No Estadão, o colunista Celso Ming também destoou, como o pessoal do Globo, e chamou a atenção para a ambigüidade da ata. O documento mencionava sinais favoráveis no cenário dos preços, mas também apontava riscos importantes e acentuava, finalmente, a hipótese de uma inflação próxima de 4,5% só em 2013.

A ênfase nos juros coincide com o interesse do pessoal do mercado financeiro e de uma boa parte dos empresários – aqueles industriais e comerciantes favoráveis a uma política de maior tolerância à alta de preços. Para a maioria dos brasileiros, inflação superior a 4,5% por mais dois anos significa erosão do salário real e redução dos níveis de consumo.

Para muitos economistas, adiar de novo o alcance da meta de inflação envolve riscos importantes. Para o analista com visão política, a aparente renúncia à meta do próximo ano pode indicar um BC mais submisso ao Ministério da Fazenda e ao Palácio do Planalto.

Pode-se complicar a discussão com mais uma pergunta: o risco de maiores enrascadas na União Européia e nos Estados Unidos justifica, de fato, a renúncia à meta de 4,5% em 2012? O Brasil ficaria mais vulnerável com uma política mais firme de combate à inflação? Ou o contrário será verdadeiro?

A maior parte da cobertura fez mais do que reproduzir os argumentos a favor da maior tolerância à inflação. Aceitou-os, implicitamente, ao dar menor importância – ou nenhuma – ao aparente abandono do compromisso com o resultado de 2012.

Novas regras

O desarranjo cambial no Brasil, a crise da dívida pública na Europa e nos Estados Unidos e o primeiro balanço do PAC-2 (o Programa de Aceleração do Crescimento em nova etapa) foram outros grandes temas econômicos da última semana de julho.

O leitor encontrou bom material sobre os três assuntos em todos os grandes jornais, com pequenas diferenças de ênfase e de detalhes. Os efeitos da nova intervenção no câmbio duraram dois dias. Na sexta-feira (29), o dólar voltou a cair no mercado cambial brasileiro. Só o Estadão vinculou em manchete, no sábado (30), o impasse americano e a reversão do câmbio: “Crise nos EUA reduz efeito de medidas cambiais e dólar cai”. A Folha concentrou o foco na situação interna dos Estados Unidos: “PIB cresce pouco, apoio cai e Obama faz ‘tuitaço’”.

Todos noticiaram, mas só o Globo deu na primeira página, um dos detalhes mais interessantes do dia anterior: a caixa da Apple, com US$ 76,156 bilhões, estava mais cheia que a do Tesouro americano, com US$ 73,768 bilhões.

A cobertura do balanço do PAC-2 foi bem menos passiva, na maior parte dos grandes jornais, do que a da ata do Copom. Além de cumprir a obrigação mínima de registrar as informações divulgadas pela ministra do Planejamento Miriam Belchior, todos analisaram os dados e ofereceram ao leitor uma segunda interpretação, menos otimista que a oficial, dos números do programa.

Todos deram destaque, igualmente, à principal novidade política (ou político-gerencial) anunciada pela ministra: todas as licitações passarão a ser baseadas em projetos executivos. Muitas obras haviam sido licitadas, nos últimos quatro anos ou mais, com base em projetos muito menos detalhados. O objetivo da mudança, segundo o governo, é limitar ou pelo menos disciplinar os aditivos de preços, prazos e alcance das obras. A inovação foi um desdobramento da limpeza no Ministério dos Transportes.

***

[Rolf Kuntz é jornalista]