Saturday, 13 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1283

Uma opção estratégia errada

O anúncio oficial de que o jornal britânico The Independent encerrará, em março, sua edição em papel foi uma má notícia para o negócio do jornal impresso no mundo. A empresa editora justifica sua decisão mostrando a queda na aquisição avulsa dos exemplares nos pontos de venda. E mostra o grande fluxo de leitores – 58 milhões/mês – na sua página na internet. Parece, aqui, não haver o solilóquio de Hamlet – ser ou não ser: a decisão está tomada e a imprensa inglesa perderá um dos melhores jornais, talvez o melhor, rivalizando em qualidade com o jornal Financial Times.

Perderá um jornal porque a tese da empresa editora de que o jornal continua na internet é mero ilusionismo. Na verdade, o The Independent na versão em papel, morrerá agora em março, e não, como quer a empresa, “continuará na internet”. O fato é que na internet ele já está, com enorme tráfego. Mas a internet é outra estética, é outra linguagem, é uma outra relação sensorial agora não mediada pela tangibilidade do papel. Será que a perda da referência tangível do jornal assegurará esse tráfego crescente na internet? Por enquanto, a resposta é não.

Além de perder prestígio local e em sua área metropolitana (o jornal desaparecerá das bancas onde a sua exposição assegura uma venda simbólica consistente) , ele tende a ver aumentar, na internet, a alta volatilidade – ou infidelidade – no tráfego de leitores. A infidelidade, determinada pela ansiedade do usuário da internet, só tende a aumentar agora, também, no caso do The Independent.

Continuo achando que a referência tangível, no negócio jornal, é variável essencial para consolidar a credibilidade. Dizer que o jornal continua web é tergiversação. Na verdade, o jornal, como tradição, acabará na sua última edição impressa. Web é outra coisa, é outra natureza, é outra estética, é outra relação com o leitor que, agora, tem sua fidelidade ao Indie – como é chamado na intimidade – totalmente liberada. O jornal morreu no papel? Não renascerá na web. Na web, a natureza é outra. Além disso, ali não se podemos confundir tráfego, quantidade de clicks, ou de likes, com credibilidade ou de influência.

Um erro estratégico

O maior fiasco a confirmar esta tendência foi o fechamento do jornal The Daily, lançado em fevereiro de 2011, em Nova York, exclusivamente para o iPad. Não durou um ano. Mesmo a onipresente News Corporation, do multimilionário australiano Rupert Murdoch, cheia de pesquisas e consultores, pisou na bola e perdeu bastante dinheiro com o projeto. Enquanto isso, um outro jornal do grupo, impresso, o The Wall Street Journal, vê sua credibilidade crescer e resolve o problema das tiragens estagnadas criando extensão de linha e abrindo versões do WSJ para a Europa.

Outro atestado da força da mídia impressa está confirmado no percurso inverso que fez Jeff Bezos, que nasceu no comércio digital, a partir da Amazon.com, e comprou o legendário The Washington Post. Bezos reconhece a força simbólica do jornal.

A imprensa mundial perde um dos jornais de design inovador de sua história. É um jornal feito com um enorme carinho, layout no limite do minimalismo, mas cheio de detalhes sutis que fazem uma enorme diferença. E a internet ganha mais um competidor do líquido The Huffington Post. É uma pena. E, certamente, um erro estratégico.

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Luís Sérgio Santos é professor de Jornalismo na Universidade Federal do Ceará