
(Foto: Lula Marques/ Agência Brasil)
Um jovem parlamentar de 31 anos está apto para exercer a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa? Com o compromisso de “apoiar a dignidade dos idosos”, em março de 2024 o deputado federal Pedro Aihara (PRD-MG) assumiu o cargo da comissão que trata das questões relativas a cerca de 33 milhões de brasileiros e brasileiras acima de 60 anos, segundo estimativa do IBGE, o que representa 16% a 17% da população. Por mais que se vasculhe, não há registros na mídia questionando a sua experiência e conhecimento de causa para lidar com temas como etarismo, artrose, hipertensão, incontinência urinária e sarcopenia. Aliás, preocupações aparentemente distantes do dia a dia do jovem deputado, nascido em 1993, cuja principal ocupação até então havia sido a profissão de bombeiro militar. Apenas em junho do mesmo ano, o jovem deputado virou notícia, ocasião em que o jornal O Estado de S.Paulo revelou gastos de R$ 9.750 em reembolsos de extravagâncias alimentares e etílicas cometidas em “tour gastronômico” com itens muitas vezes proibidos nas mesas dos idosos, como vinhos e peixes gordurosos.
Na mesma linha, nada estranho no front foi observado quando o deputado federal Pastor Joziel (Patriotas-RJ), foi eleito, em 2022, para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência sem ser portador de necessidades especiais. Ou ainda, quando o economista Zé Vitor (PL-MG) foi escolhido para presidir a Comissão de Saúde. A rigor, o único caso digno de protestos ocorreu em 2013, quando o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), conhecido por bandeiras como a da “cura gay” assumiu o mais alto cargo da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial.
Dada a postura condescendente da mídia quanto ao chamado “lugar de fala” em outras oportunidades, causou certa surpresa a célere indignação de jornalistas e colunistas quando da escolha da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência da Comissão dos Direitos da Mulher. Movidos pelo ódio e pelo preconceito, os comentários variaram entre “ela é biologicamente um homem” (Demetrio Magnolli, da Globo News), “os preconceitos, as barreiras e a violência que mulheres enfrentam ao longo da vida, desde a infância, decorrem da realidade material do sexo feminino…… Erika Hilton é uma pessoa autoritária.” (Lygia Maria, colunista da Folha de S.Paulo) e “mulher para ser mulher tem que ter útero… tem que menstruar, tem que ter útero… tem que fazer o negócio de Papanicolau… mamografia” (Ratinho, apresentador do SBT). A veemência e a agressividade das declarações resultaram em uma troca de tiros entre representantes da direita e da linha progressista e o tema foi para topo dos ‘trending topics” das redes sociais.
Por incrível que pareça, a opinião mais sensata veio do articulista da FSP, Joel Pinheiro da Fonseca, ao colocar a questão no âmbito político, na coluna “Pode Uma mulher trans representar todas as mulheres?”. Historicamente associado ao pensamento de direita, o economista e filósofo deixou as idiossincrasias de lado e tratou da escolha pelo ponto de vista político:
“E isso nos traz ao segundo nível do debate. A insistência de que apenas um membro de uma identidade coletiva possa representá-la politicamente é um dogma identitário inviável. Para ficar no exemplo acima: uma mulher rica não sofre com a falta de creche pública ou de absorventes gratuitos nas escolas. No entanto, nada impede que ela lidere essas reivindicações. Ou, fora das pautas femininas: a maior liderança dos sem-teto em nosso país é Guilherme Boulos, que nunca foi sem-teto… Em vez de ficar na discussão filosófica de se Erika Hilton é uma mulher “de verdade”, o debate mais produtivo seria indagar: ela tem contribuição relevante para a pauta das mulheres? Ela tem o perfil adequado para esse cargo de liderança?”.
Mas, o estrago perante a opinião pública já havia sido feito. Levantamento do instituto Real Time Big Data junto a 1,2 mil eleitores apontou que 84% das pessoas eram contrárias à escolha da deputada para o cargo. Como era de se esperar, sem surpresa alguma, a pesquisa teve amplo espaço em veículos assumidamente de direita, como nos portais Metrópoles, O Antagonista e R7 e a revista Oeste. A Folha de S.Paulo ficou em cima do muro, com a reportagem “Erika Hilton na Comissão da Mulher expõe divisão na esquerda sobre pauta trans”, assinado pela repórter Anna Virginia Balloussier, na tentativa de criar uma polêmica entre as alas progressistas. Por sinal a jornalista fez parte da bancada do programa “Roda Viva”, na última segunda-feira (30), quando questionou a deputada a respeito dos efeitos políticos de sua eleição, acusando-a de indiretamente favorecer a candidatura da direita. Já a defesa da parlamentar foi encampada apenas por veículos associados ao pensamento mais amplo e arejado, como Brasil de Fato, DCM e Carta Capital, no caso do artigo “Quem pode ser mulher? Discurso baseado no sexo biológico une feministas radicais e bolsonaristas”, da médica ginecologista Daniela Menezes.
O que ficou explícito é um alinhamento e uma dependência da mídia com relação ao perfil médio do brasileiro. Segundo pesquisa do instituto Ipsos-Ipec, realizada no 2º semestre de 2025, 49% da população se considera altamente conservadora, em especial homens, moradores de capitais, pessoas com ensino superior completo e cidadãos com renda acima de cinco salários-mínimos. Este alinhamento, ao que tudo indica, está diretamente em sintonia com o perfil cada vez menos tolerante em questões como casamento entre pessoas do mesmo sexo e legalização do aborto. Em outras palavras, vamos falar o que a maioria quer ouvir. E o que temos é uma indignação seletiva da mídia quanto ao chamado “lugar de fala”, em especial em temas identitários e comportamentais quando estão envolvidos mulheres e direitos das minorias. Um jovem pode representar um idoso, mas uma mulher trans é incapaz biologicamente de entender as dores das mulheres. Em ano eleitoral movido pela Inteligência Artificial e pelas redes sociais, este episódio deve servir como referência para o que vem por aí. É a faísca no barril de pólvora da campanha eleitoral. Que a grande mídia acenda o próximo fósforo.
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Guilherme Meirelles é formado e pós-graduado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e em Economia pela PUC-SP. Trabalhou na Folha de S.Paulo e Agência Estado, entre outros veículos, e hoje é colaborador do “Valor Econômico” e da revista “Problemas Brasileiros”.
