Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Movimento: 50 anos de resistência e jornalismo comprometido

(Foto: Bank Phrom/Unsplash)

Há meio século, em plena ditadura militar, nascia o jornal Movimento, uma das experiências mais marcantes da imprensa alternativa brasileira. Em tempos de censura e perseguição, o Movimento ousou romper o medo e colocar no papel o grito de um país que lutava por liberdade e sofria com profunda miséria. Escrever era arriscar-se; publicar, um ato político e de fé na transformação social.

Criado em 1975, o Movimento reuniu jornalistas, intelectuais e artistas que acreditavam no poder transformador da informação e da palavra escrita como força de mudança. Nomes como Raimundo Rodrigues Pereira, Elifas Andreatto, Tonico Ferreira, Perseu Abramo, Bernardo Kucinski e Hamilton Almeida Filho compuseram uma redação marcada pela ética e pela coragem. Ao redor do jornal, somaram-se vozes da cultura e da política como Chico Buarque de Holanda, Ferreira Gullar, Aldo Arantes e Fernando Henrique Cardoso, que viam no jornalismo um instrumento de libertação coletiva e consciência nacional.

O jornal fixou sede em São Paulo, cidade de origem da maioria dos jornalistas que compunham a redação. Mesmo enfrentando censura, vigilância e dificuldades financeiras, o semanário cresceu, com sucursais em várias capitais e quase 30 mil exemplares em 1978, sustentado por vendas avulsas e assinaturas.

O diferencial do Movimento esteve na origem: após a demissão de Raimundo Pereira do Opinião, a equipe se uniu a ele para criar um jornal independente, feito e mantido por jornalistas, livre de pressões econômicas de empresários. Algo raro até hoje. Em suas páginas, discutiam-se temas que o Estado tentava esconder: torturas, greves, censura, desigualdade racial, reforma agrária e direitos humanos.

A Bahia foi um dos estados que estiveram presentes: em 1981, o Movimento deu na capa o “quebra-quebra” de Salvador, quando o aumento das passagens de ônibus levou à revolta popular. Enquanto a grande imprensa classificou o fato como vandalismo, o Movimento noticiou como expressão legítima da força do povo nas ruas.

Cinquenta anos depois, o Brasil enfrenta outra batalha informacional. As fake news, o ódio nas redes e as tentativas de deslegitimar a imprensa desafiam novamente a democracia e o direito à verdade. É nesse contexto que a memória do Movimento se torna urgente: lembrar o jornal é reafirmar o valor da palavra livre, da apuração rigorosa e da ética como pilares do ofício de informar e servir ao povo.

O jornal Movimento encerrou suas atividades em 1981, mas seu legado permanece. Ele nos ensina que não há neutralidade possível diante da injustiça. Escolher informar é escolher o lado dos fatos, dos direitos humanos e da esperança. Celebrar o Movimento é reconhecer as novas gerações de comunicadores que seguem fazendo da palavra um território de resistência, coragem e compromisso com o Brasil. Porque calar nunca foi uma opção.

***

Flavia Vasconcelos de Oliveira é Jornalista, atua em Salvador (BA), é autora do livro Jornaleiros Militantes.