
(Foto Lula Marques/Agência Brasil)
Apesar de a indignação da opinião pública contra a impunidade ecoar pelos quatro cantos do país, O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo publicaram editoriais elogiosos à aprovação ao Projeto de Lei 2.162/23, cunhado como o PL da Dosimetria.
Ipsis litteris, títulos e subtítulos de ambos:
O Estado de S. Paulo: A Câmara fez a coisa certa
Câmara cumpre sua função de contrapeso ao corrigir distorções criadas pelo STF na fixação de penas aos golpistas. A punição aos ataques contra a democracia deve se pautar por justiça, não vingança.
Folha de S. Paulo: Vantagem do projeto da dosimetria é não ser anistia
Texto aprovado pela Câmara, em dia de enorme confusão, evita o suicídio institucional de deixar impunes Bolsonaro e demais golpistas, enquanto permite a correção de penas exageradas impostas pelo Supremo.
Não bastasse trafegar na contramão do consenso acerca da importância de não aliviar a pena imposta a Bolsonaro e a todos(as) os(as) demais que, de alguma maneira, participaram da tentativa de golpe de estado, Estadão e Folha (tão diferentes em suas linhas de redação) usam as mesmas palavras para concluir seus editoriais: “ao fim e ao cabo”.
Seria teoria da conspiração supor que, sentados à mesma mesa (no sentido metafórico ou não, alguém me explique, por favor), pessoas interessadas na aprovação do PL da Dosimetria e donos do Estadão e da Folha tenham encerrado o assunto com “ao fim e ao cabo”.
Por essa razão, a expressão verbalizada oralmente (quiçá, degustando pizza) fez parte das escritas de dois editoriais distintos em seus traços composicionais, mas – para além da semelhança semântica no que concerne a endossar os deputados federais – idênticos em seu uso linguístico no parágrafo derradeiro?
Ou seria uma dessas coincidências da vida – e eu é que estou pensando demais quando, como gente do povo, nem deveria estar pensando, mas, sim, somente ralando como CLT ou empreendedor sem questionar? Cada um no seu quadrado?
Parece-me, todavia, que não estou só. Nem os colaboradores da grande mídia, incluindo-se aí os dos próprios conglomerados midiáticos paulistanos, conseguiram digerir os restos de pizza – ops, de justificativa moral… Ainda bem!
Na mesma edição (mesmo dia, portanto) em que Estadão e Folha deram-se as mãos e, por conseguinte, as mãos à Câmara – literalmente, ninguém solta a mão de ninguém –, li gente séria se posicionando contra beneplácito pra quem atentou contra a democracia.
Três exemplos (dois dos jornais de Sampa, um do Rio – O Globo –, para compor o PIG – Partido da Imprensa Golpista) de gente que não compactua com o Congresso:
- No Estadão, William Waack, em sua coluna semanal sobre política, demonstrou seu repúdio: “se tem jeito de acordão, cor de acordão e cheiro de acordão, só pode ser acordão” (vale ressaltar que Waack, em seu texto, não se limitou ao PL da Dosimetria, mas à relação Congresso versus Supremo).
- Na Folha, Thiago Amparo, solta o verbo desde o título: “O crime compensa”! Em seu artigo, Thiago toca o dedo na ferida: “Ao aprovar com 291 votos o PL da Dosimetria, a Câmara mostrou que prefere livrar da cadeia os bandidos do seu lado a exercer um esperável sentimento de autopreservação institucional diante da depredação de seu próprio prédio por golpistas do 8 de janeiro.
- No Globo, Merval Pereira, também foi cirúrgico em sua crítica ao consentimento em favor de criminosos: “De que vale o Supremo Tribunal Federal (STF) ter sido guardião da democracia quando da tentativa de golpe, se os réus condenados nos julgamentos não terão a punição devida?”.
Não precisa ser especialista em política nem tampouco em legislação para compreender que algo muito – mas muito mesmo – errado aconteceu naquela madrugada em que os deputados aprovaram a Dosimetria. Desligar sinal da TV Câmara e expulsar jornalistas da sessão destinada ao PL da impunidade são ações repugnantes que deixaram bem explícito que seria vergonhoso o que correria ali, não?
“Quem não deve não teme”, ensina o ditado popular; ensinamento do mesmo povo, aliás, que os deputados deveriam representar, mas que, mais uma vez, foi ludibriado pelo legislativo federal (e, para não esquecer), com o aval do Estadão e da Folha.
“Ao fim e ao cabo”, Estadão e Folha “passaram o pano”. A sujeira, porém, continua impregnando pés, mãos e alma de muita gente imunda ainda!
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Fábio Roberto Ferreira Barreto é mestre em literatura pela USP e professor da rede municipal de ensino, é autor de textos em publicações acadêmicas e veículos da imprensa (Folha de S. Paulo, Revista CULT, Correio do Povo-RS, Jornal Visão Moçambique).
