Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Informações hackeadas do STJ valem mais que o dinheiro roubado no assalto ao Banco Central

(Imagem: Agência Brasil)

A cobertura da disputa pela presidência dos Estados Unidos entre Donald Trump (republicano) e Joe Biden (democrata) tomou conta de todos os espaços nobres dos noticiários e jogou para o pé da página as demais notícias que circularam ao redor do mundo nestes últimos dias. Para quem não é do ramo, “pé da página” é uma expressão dos tempos que só existiam os jornais impressos em papel. No Brasil não foi diferente e nem poderia ser. E nos meios locais de comunicação uma das notícias que foi varrida para o pé da página foi o ataque de hackers ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que aconteceu no início do mês (na terça-feira, 03/11). Os hackers criptografaram o acervo de processos do tribunal e o acesso à caixa de e-mails dos ministros. Ou seja: cortaram o acesso aos processos e aos e-mails. Só eles têm a chave para liberar o acesso. O STJ tirou o seu site do ar. O ataque deixou em alerta o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Como a invasão foi feita, quem são os hackers e quais processos foram mexidos são respostas que a investigação da Polícia Federal (PF), auxiliada por outras agências de informação da União, vai responder. O protocolo para esse tipo de investigação determina que primeiro sejam identificados todos que têm acesso ao sistema de computadores do STJ, incluindo as empresas terceirizadas que prestam serviços. Vai ser uma investigação longa. Qual é a nossa parte, como repórteres, nessa história? Simples. Explicar para o nosso leitor o que está acontecendo. Por quê? Nos dias atuais a moeda mais valorizada ao redor do mundo não o dólar americano, muito menos o ouro e o diamante. É a informação. Não é por outro motivo que uma das carreiras mais lucrativas no mundo da bandidagem nos dias atuais é a de hacker. No caso do STJ. Ali há desde processos envolvendo ladrões de galinha até crimes do colarinho branco. São informações de todos os calibres que podem ser usadas para uma variedade enorme de crimes, como chantagem. Ou seja: os hackers escolheram atacar o STJ pelo valor das informações contidas nos processos que lá estão. Assim como em 2005, quando bandidos escolheram assaltar o Banco Central em Fortaleza (CE) pelo volume de dinheiro que havia nos cofres. Durante três meses, algumas dezenas de homens cavaram um túnel que deu acesso ao cofre do banco, de onde furtaram R$ 164 milhões (equivalentes, na época, a 69,8 milhões de dólares).

A história virou um filme que foi lançado em 2011. Imaginem a logística necessária para cavar o túnel e transportar o dinheiro, que pesava 3,5 toneladas. Um hacker com um laptop, sentado em uma sala e tomando enérgico, é capaz de ganhar bilhões ilegalmente. Como já disse. A investigação policial é complicada e demorada. Mesmo que identifique os hackers, ainda restará um longo caminho a percorrer até chegar a todos os envolvidos, porque esse tipo de crime geralmente tem um mandante. O caso do STJ é uma oportunidade de ouro que nós jornalistas temos para conversar com os nossos leitores sobre esse tipo de crime, que é novo e tende a aumentar, porque o consumo de informações é crescente no mundo inteiro, principalmente as sigilosas, como as contidas nos processos do STJ. As informações sigilosas são as mais valorizadas nesse mercado, principalmente em anos eleitorais. Na época em que não existiam hackers, os dossiês comprometedores sobre políticos que circulavam nos períodos das disputas eleitorais eram feitos a partir de informações já publicadas nos jornais. Hoje eles têm maior consistência, porque usam dados hackeados. Para arrematar a nossa conversa. Escassas matérias jornalísticas têm sido publicadas sobre como é feita a segurança das nossas informações pelos órgãos do governo (federal, estadual e municipal) e tribunais de justiça (estaduais e federais de todas as instâncias). Pelo que aconteceu com o STJ, o sistema que estão usando tem falhas. Vejam bem. Os bancos usam cofres, guardas armados até os dentes e uma parafernália eletrônica para manter seguro o dinheiro e outros valores nos seus cofres. É mesmo assim são assaltados, como aconteceu com o Banco Central. Temos que insistir mais nesse tipo de assunto para o bem do nosso leitor. É por aí, colegas.

Publicado originalmente no blog Histórias Mal Contadas.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como País Bandido. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.