Tuesday, 21 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Os números do Brasil

 

A Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios, que o IBGE realiza continuamente desde 1967, atraiu maior interesse apenas do Estado de S.Paulo, que dedicou ao assunto um caderno especial no sábado (22/9) e seguiu analisando alguns dados nos dias seguintes. Os demais jornais e as revistas semanais de informação ignoraram o tema, com exceção de umas poucas referências. No entanto, trata-se de documento essencial até mesmo para o futuro dos negócios, entre eles o das próprias empresas de comunicação.

Uma das informações que mais chamam atenção nas análises econômicas e demográficas referentes ao ano passado, que acabam de ser consolidadas na pesquisa, indica, por exemplo, a necessidade de refinar os estudos sobre o desenvolvimento.

Habituados a pontuar o estado do país apenas por referências econômicas isoladas, como os dados de produção de riqueza, inflação, oferta de crédito e produção industrial, os jornais têm deixado de observar aspectos que, na consolidação da PNAD, compõem um retrato diferente daquele que costumam apresentar aos leitores no dia a dia.

Oferta de emprego

Não foi apenas o Brasil que mudou com o fenômeno da mobilidade social e o crescimento da economia interna: as metodologias para avaliação do desenvolvimento também precisam mudar.

Uma dessas observações, que virou manchete do caderno especial do Estadão no sábado, índica que “economia lenta não freia avanço social; saneamento e educação destoam”.

Para quem vive lendo nos jornais e revistas reportagens e artigos sobre o baixo crescimento do Produto Interno Bruto há dois anos, pode ser uma surpresa descobrir que a sociedade brasileira continua melhorando nos níveis de trabalho, renda e desigualdade social.

Além disso, a continuação da tendência de redução nos movimentos migratórios entre as regiões brasileiras mostra que a situação melhora nos estados mais pobres, diminuindo a necessidade de os trabalhadores do Norte e Nordeste deixarem suas famílias para tentar a sorte no Sul-Sudeste.

São Paulo já não atrai migrantes também por outras razões: em uma década, a situação da cidade piorou em muitos aspectos, tornando-se a capital com o menor crescimento entre todas, e problemas crônicos como a falta de moradia, o favelamento, a violência e o custo de vida continuaram estagnados e, em alguns casos, até pioraram nesse período.

A melhoria das oportunidades nos Estados mais pobres faz com que os brasileiros prefiram ficar onde estão, o que também produz novos modelos regionais de desenvolvimento, com grande predominância de pequenos negócios. Assim, quando se pensa que as pessoas buscam sempre melhores condições de vida, progressivamente a capital paulista vai perdendo seu valor como referência de desenvolvimento regional.

A melhoria das condições na maior parte do país tem deixado os analistas surpresos, considerando-se que, desde a crise financeira de 2008, o Produto Interno Bruto vem caindo, fato que levou a imprensa a cunhar a expressão “pibinho” para criticar a política econômica e contestar os dados oficiais de desenvolvimento.

No entanto, a PNAD revela que a oferta de emprego e a renda média vêm aumentando de maneira consistente, enquanto a taxa de desemprego caía a níveis nunca antes observados: apenas 6,7% dos brasileiros em idade produtiva estão sem trabalho remunerado e a formalização do emprego, com carteira assinada, apresentou um salto de 11,8% entre 2009 e 2011.

Alguma coisa acontece

O relatório atual mostra a diferença de dois anos porque, como em 2010 foi realizado o censo, a coleta de dados para a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio não foi realizada. Nesse período, o aumento da renda e a queda da desigualdade tiraram da miséria 5,6 milhões de brasileiros, dos quais 2,5 milhões saíram da pobreza extrema, aquele estágio em que os ganhos são insuficientes para uma alimentação adequada.

A proporção de brasileiros pobres em relação ao total da população caiu de 23,9% para 20,6%, ou seja, de 45,9 milhões para 40,3 milhões de pessoas.

Os extremamente pobres eram 16,1 milhões em 2009 e em 2011 passaram a compor um contingente de 13,6 milhões, o que representa uma redução de 8,4% para 6,9% da população em estado de miséria.

Se forem considerados os dados desde 2003, pode-se observar que o Brasil vem combatendo a pobreza com eficiência há quase uma década. Naquele ano, 39,4% dos brasileiros eram considerados pobres e a miséria absoluta atingia 17,5% da população.

Esses números deveriam fazer a imprensa reconhecer que alguma coisa acontece por aí e não sai nos jornais.