Quinta-feira, 15 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1371

Esquerda rejeita revolução iraniana

(Foto: Akbar Nemati/Unsplash)

Vai haver um ataque dos EUA às instalações do governo iraniano e aos quartéis dos Guardiães da Revolução em represália à violenta repressão contra o povo, revoltado e pedindo o fim da ditadura teocrática islâmica, no poder desde 1979? 

Talvez não, pelo menos essa era a impressão nesta quinta-feira, dia 15/01. Trump teria se dado por satisfeito diante das notícias de que, segundo ele, “teria parado a matança no Irã e não seria executado nenhum preso”. Por sua pressão e ameaças ao Irã, é claro!

Mas, na verdade, Trump teria recuado depois de avaliar o risco da resposta iraniana afetar a segurança das bases norte-americanas na região e comprometer sua imagem dentro dos EUA. Acabaria se transformando numa repetição da guerra contra o Iraque.

Ninguém precisa se iludir com a imagem de um Trump preocupado com a vida dos iranianos anti-Khamenei! Quase ao mesmo tempo seus guardiães do ICE, a polícia contra imigrantes, está espalhando o terror, numa menor escala, na cidade de Mineápolis, a maior cidade de Minnesota, depois do assassinato (também com tiros na cabeça como no Irã) de Renée Nicole Good, norte-americana mãe de três crianças, acusada de ser dona de casa terrorista! Sem esquecermos da ameaça de invasão da Groenlândia!

Nem sempre funciona o refrão “o povo unido derruba a ditadura”, principalmente quando não se tem armas diante de ferozes inimigos.

É válida uma ajuda externa? Aqui entra o argumento de que a queda do Xá Reza Pahlevi teve apoios, embora indiretos, da França, do Iraque, da União Soviética e de intelectuais de esquerda como Sartre, Simone de Beauvoir e Michel Foucault que, na luta contra o capitalismo e os EUA, não imaginavam estar incentivando o surgimento de uma ditadura religiosa retrógrada, no lugar da monarquia também ditatorial, mas secular, modernista e pró-Ocidente.

A monarquia do Xá procurava acentuar o passado persa do país, anterior ao islamismo, retirou parte das terras dos religiosos e deu o direito de voto às mulheres, decisões malvistas pelos religiosos. Embora o país crescesse com o petróleo e o aço, o regime do Xá favorecia as elites, enquanto o povo pobre se apegava ao islamismo e iria, mais tarde, preferir o aiatolá Khomeini ao país secularizado e ocidentalizado do Xá.

A chegada dos religiosos ao poder acabou criando uma nova casta, a dos molás, e o fanatismo islâmico levou ao financiamento dos movimentos extremos pela expansão do Islã, contra o Ocidente e contra Israel.

De acordo com o sociólogo francês Gilles Kepel, autor de uma vintena de livros, o equilíbrio no Oriente Médio foi rompido com o atentado terrorista do 7 de outubro, cometido pelo Hamas, financiado pelo Irã, que também financiava o Hezbolah. A fuga do ditador sírio Bachar-al-Assad, mais o aniquilamento do Hamas e do Hezbolah isolaram e enfraqueceram o Irã, acentuando sua crise econômica com maior inflação, causada também por sanções ocidentais em represália ao financiamento do terrorismo. O povo, também descontente com o desvio do dinheiro do Irã para o financiamento de grupos terroristas, saiu às ruas.

A repressão tem sido sangrenta e violenta. Não se viu nenhuma tentativa de apaziguamento por parte da ditadura teocrática. Ao que se informa, os guardiães da revolução têm a ordem de balear os manifestantes na cabeça e o número de mortos, ainda incerto pela falta de Internet, varia de três mil a doze mil, enquanto se fala em 20 mil presos. Boa parte desses presos serão julgados rapidamente, sem advogado, e condenados, na maioria, à morte na forca, senão agora, dentro de alguns meses, como ocorreu com os manifestantes depois do assassinato da jovem curda Amina Mahsi.

O governo iraniano dirigido pelo aiatolá Khamenei cortou o acesso à internet em todo o país, diante da rebelião do povo contra a ditadura teocrática islâmica. Quase ao mesmo tempo, os chamados canais progressistas ou de esquerda, inclusive brasileiros, deixaram de fazer comentários sobre essa situação de revolta popular ou acusaram de ser uma revolta insuflada pelos EUA.

Sinto-me à vontade para fazer essa crítica porque sou de esquerda e não entendo por que companheiros de esquerda, que deram destaque à pirataria do ditador Trump, decidem fechar os olhos à ditadura teocrática islâmica iraniana, não criticam o ditador aiatolá Khamenei e não dão apoio à revolta popular iraniana.

Em 1979, eu era um dos exilados em Paris contra a ditadura militar brasileira. Vivia no Quartier Latin, mais precisamente na rue de la Sorbonne, e acompanhava os movimentos da esquerda em Paris contra o Xá Reza Pahlevi, movimentos liderados pelo aiatolá Khomeini, com o apoio de Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Michel Foucault.

A queda do Xá foi comemorada por todos, mas a alegria durou pouco porque o aiatolá, logo transformado em Guia Supremo, instaurou um regime religioso islâmico extremamente severo baseado na Charia.

As mulheres, consideradas cidadãs de segunda classe, se revoltaram e criaram recentemente o movimento Mulher Vida e Liberdade, depois de muita repressão e mortes.

Houve grande agitação depois do assassinato pelos chamados guardiões da revolução ou policiais da fé islâmica, da jovem curda Mahsa Amini por não ter colocado corretamente o véu na cabeça.

O que me obrigou a inserir aqui um comentário foi ter visto e ouvido, numa entrevista ao canal Opera Mundi, por um companheiro de esquerda, depois de uma viagem ao Irã de 15 dias, mas sem falar farsi, o idioma iraniano, a versão de que não foram os policiais que mataram a jovem curda Mahsa Amini, adotando a versão da ditadura iraniana.

Isso me lembrou que, durante a ditadura militar no Brasil, também o DOI- Codi sempre tinha uma outra versão para seus assassinatos, como aconteceu com Vladimir Herzog e Rubens Paiva. Não faz muito tempo, alguém no Canal GGN, tinha qualificado o ex-presidente iraniano, logo depois de sua morte num acidente de helicóptero, como um humanista. Ebrahim Raisi, autor da condenação à morte na forca de mais de 8 mil pessoas, era conhecido como açougueiro!

Tenho acompanhado e publicado o processo de islamização da esquerda não só no Brasil como na França. Não se pode fazer seleção de ditadores, condenando uns e aceitando outros. Trump é um proto ditador perigoso, Maduro era também um ditador. Não se pode condenar o ato de pirataria na Venezuela sem condenar a invasão da Ucrânia e a ameaça de tomada de Taiwan.

Não se pode ser de esquerda e fechar os olhos às denúncias mostradas em filmes contra a ditadura teocrática islâmica, cujos diretores são presos e proibidos de ir aos festivais. Entrevistei alguns deles nos Festivais de Berlim e Locarno. O realizador do filme A Semente do Figo Sagrado, Mohammad Rasoulof, teve de fugir do Irã pelas montanhas para não ser preso. Jafar Panahi, premiado em Cannes, passou anos na prisão.

Para o 247 não existe uma revolução popular, mas uma situação criada por pressões e sanções econômicas. Ditadura teocrática islâmica? O que é isso?

Basta um trecho: “o colapso econômico iraniano precisa ser lido, portanto, como crise induzida. Uma crise fabricada de fora para dentro”. Num longo artigo, nenhuma menção à estrutura ditatorial religiosa do país.

Prefiro ficar com o povo iraniano e sua revolução contra o “evangelismo” iraniano e contra sua ditadura teocrática islâmica.

Algumas referências:

Michel Foucault precursor do pós-colonialismo e do Sul Global?

https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/8841/9561

https://www.nouvelobs.com/idees/20180207.OBS1864/michel-foucault-l-iran-et-le-pouvoir-du-spirituel-l-entretien-inedit-de-1979.html

Gilles Kepel – https://www.youtube.com/watch?v=M5C7YSUX6s8

José Arbex e sua visão sem falar farsi, deixei um comentário – https://www.youtube.com/watch?v=SQNkAHN4NZk&t=1449s

France 24

https://www.rfi.fr/fr/moyen-orient/20260114-en-direct-iran-le-bilan-de-la-r%C3%A9pression-s-%C3%A9l%C3%A8ve-%C3%A0-plus-de-2500-morts-selon-une-ong

Socióloga franco-iraniana Manhaz Shirali  – https://www.youtube.com/watch?v=8KnotaolFn0

UOL – atriz iraniana Khazar Masoumi, o que a esquerda não vê

https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=Uol+Crise+no+Ir%C3%A3%3A+vieos+s%C3%A3o+bem+menores%2C+atriz+khazar+Masoumi#fpstate=ive&vld=cid:a88ff0ee,vid:6tYxszYzcWQ,st:0

No 247 – https://www.brasil247.com/blog/ira-sob-cerco-crise-interna-guerra-hibrida-e-o-retorno-do-imperialismo#google_vignette

Cinema iraniano

https://www.observatoriodaimprensa.com.br/festival-cinema-de-locarno/ira-um-cinema-sob-censura-teocratica/

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.