
(Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
Um costume que levei para a redação do jornal quando comecei a trabalhar como repórter, em 1979, trouxe de lá quando sai em 2014 e ainda carrego comigo nas minhas andanças pelas estradas em busca de histórias para contar: acordar cedo, ligar o rádio e fazer o chimarrão. Também conhecido como mate pelos gaúchos e seus descendentes que se espalharam pelas fronteiras agrícolas do país e ergueram o que chamei de Brasil de Bombachas, uma série de três livros que publiquei. Foi pelo noticiário do rádio que, no amanhecer de sábado (3), tomei conhecimento que forças especiais americanas tinham entrado furtivamente na Venezuela e capturado o presidente do país, Nicolás Maduro, 63 anos, e sua mulher, Célia Flores, 69 anos. Eles foram levados para Nova York, onde serão julgados por tráfico de drogas e outros crimes. A notícia já era esperada. Há dois meses, o presidente Donald Trump (republicano), 79 anos, cercou a Venezuela com navios de guerra, incluindo o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, movido a energia nuclear, com 75 aviões de combate. Também foi espalhado pelas imediações do território venezuelano um efetivo de 15 mil soldados, marinheiros e pilotos de combate. Nas últimas semanas, os americanos realizaram 15 ataques a lanchas que estariam transportando drogas para os Estados Unidos, matando 61 pessoas. Também fecharam o espaço aéreo da Venezuela. E penduraram nas redes sociais um “cartaz” de “procura-se”, oferecendo uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levasse à captura de Maduro.
Uma semana antes da prisão de Maduro comentei com um colega paraguaio que tinha lido em um site americano que o cerco ao território venezuelano custava diariamente milhões de dólares ao governo dos Estados Unidos. Portanto, todo aquele aparato de guerra não estava ali só para “botar medo no Maduro”, eles iam agir. E agiram na madrugada de sábado, capturando o presidente e sua esposa. No final da manhã de sábado, recebi a ligação de um velho repórter que conheci nos anos 80 e que virou pesquisador sobre os rumos do jornalismo. Ele mora no interior do Paraná e também toma chimarrão. Na nossa conversa, lembrei ao colega que, no primeiro mandato de Trump (2017 a 2021), ele já tinha tentando detonar Maduro e falhado. Aliás, vários outros projetos de Trump falharam porque foi boicotado por parte do seu próprio partido, aliado com funcionários de carreira do governo, que na época acreditavam estar salvando a economia e o patrimônio político americano das “loucuras do presidente”. Em 2020, Trump concorreu à reeleição e foi derrotado pelo democrata Joe Biden. Em 6 de janeiro de 2021, ele tentou evitar que o Congresso ratificasse a vitória de Biden incentivado seus seguidores a realizarem uma inédita invasão do Capitólio (o prédio do Congresso). Na ocasião, cinco pessoas morreram, várias ficaram feridas e muitas foram presas – matérias na internet. Em 2024, Trump concorreu novamente à presidência dos Estados Unidos, desta vez contra a então vice-presidente Kamala Harris, e venceu. Tomou posse em 20 de janeiro de 2025 e colocou em prática duas medidas que mexeram com o destino dos países aliados e adversários dos Estados Unidos. A primeira foi conceder anistia a todos os presos pela invasão do Capitólio. A segunda medida foi só admitir no seu governo pessoas de sua extrema confiança, para evitar novos boicotes.
Terminei o relato da conversa com o colega do Paraná. E agora sigo com a nossa conversa. Trump tinha contas a ajustar com Maduro. Que contas? A Venezuela foi governada de 2002 a 2013 por Hugo Chávez, um tenente-coronel do Exército (1954 – 2013), crítico do neoliberalismo, da política externa dos Estados Unidos e líder da Revolução Bolivariana, um movimento que prega o socialismo. Chávez não deixava ninguém falar quando participava de um debate. Certa vez, em 2007, durante a XVII Cúpula Ibero-Americana, no Chile, após Chávez interromper várias vezes o debate, o então rei Juan Carlos I, da Espanha, o xingou com uma frase que se tornou célebre: “Por qué no te callas?” (Por que você não se cala?). Chávez consolidou a sua popularidade com dinheiro do petróleo, cuja exploração, refino e comercialização haviam sido estatizados nos anos 70 pelo então presidente venezuelano Carlos Andrés Perez (1922 – 2010) com a criação da estatal PDVSA – Petróleos de Venezuela S.A. A estatização atingiu os negócios de várias petroleiras estrangeiras, muitas americanas, que trabalhavam no país. Em 2013, antes de morrer vítima de um câncer, Chávez nomeou Maduro o seu sucessor. Maduro consolidou o processo de autoritarismo na Venezuela, estruturando uma ditadura. Trump não está interessando nas posições políticas de Maduro e muito menos nos males que a ditadura causa aos venezuelanos. O seu interesse é que as empresas americanas desapropriadas na década de 70 sejam indenizadas. E que os campos petrolíferos venezuelanos, que formam a maior reserva do mundo, fiquem sob o controle americano. O resto é o resto. Uma camuflagem para os reais interesses do seu governo. É simples assim. Trump usou como desculpa para invadir a Venezuela e prender o Maduro e a sua esposa a crueldade da ditadura. Todos concordam com a crueldade da ditadura. Mas todos também concordam que a invasão foi uma violência contra a soberania do país e abre uma porta perigosa para o futuro. Escolhi publicar o que Kamala Harris, a candidata derrotada nas eleições de 2024, disse nas suas redes sociais: “As ações de Donald Trump na Venezuela não tornam a América mais segura, mais forte ou mais acessível”, acrescentando que operação representa um risco militar, político e econômico sem qualquer benefício para os americanos. “O fato de Maduro ser um ditador brutal e ilegítimo não muda o fato de que essa ação foi ilegal e imprudente”, afirmou, lembrando que o episódio repete padrões históricos de intervenções que terminam em caos e geram custos internos elevados.
Alista dos desastres provocados por intervenções americanas em terras alheias é enorme. Vou citar uma delas. Em 2003, os Estados Unidos e o Reino Unido invadiram o Iraque alegado que o governo do ditador Saddam Hussein (1937 – 2006) tinha armazenado armas de destruição em massa e apoiava e abrigava Osama bin Laden, chefe da Al-Qaeda, a organização responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001, quando 19 terroristas sequestraram quatro aviões comerciais de passageiros e os jogaram contra as Torres Gêmeas, em Nova York, e contra o prédio do Pentágono, a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, próximo a Washington (DC). Os atentados de 11 de setembro mataram 3.278 pessoas. Hussein não tinha armas de destruição em massa e Bin Laden estava escondido nas montanhas do Afeganistão – anos mais tarde, em 2011, ele foi localizado e morto no Paquistão, numa operação militar muito parecida com a que prendeu Maduro. A invasão americana ao Iraque criou espaço para o surgimento de várias organizações terroristas, entre elas o Estado Islâmico, uma das mais cruéis do mundo. No caso da Venezuela, os americanos retiraram Maduro. Mas não desmontaram a estrutura da ditadura. Tanto que o presidente foi substituído pela sua vice, Delcy Rodriguez, 56 anos. O destino desse arranjo dos americanos é duvidoso. Vou citar um fato. Há mais de mil milícias treinadas e armadas que recebem recursos, salários e munição do governo venezuelano. Emprego não faltará para os milicianos caso sejam demitidos. Podem apostar. A indefinição do destino do país é uma das razões pelas quais os venezuelanos não foram para as ruas protestar nem comemorar a extradição de Maduro. O ex-presidente e sua mulher estão presos em Nova York, onde serão julgados. Claro que esse episódio vai repercutir nas eleições do Brasil. Mas essa é outra história sobre a qual vamos conversa mais adiante.
Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas.
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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.
