Monday, 15 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1283

Ataques machistas a jornalista que denunciou uso ilegal de redes sociais na campanha presidencial de 2018 geram indignação

(Foto: Wikimedia)

Publicado originalmente no blog Jornalismo nas Américas

A jornalista da Folha de S.Paulo Patricia Campos Mello foi alvo mais uma vez de uma série de ataques contra sua reputação em 11 de fevereiro, após o depoimento de uma testemunha à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fake news na campanha presidencial de 2018.

A CPMI ouviu, na terça-feira (11), Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário da agência de marketing digital Yacows. A empresa foi uma das contratadas por empresários para fazer campanha via WhatsApp contra o PT durante as eleições de 2018, como revelou Campos Mello na Folha em outubro daquele ano. Dois meses depois, outra reportagem de Mello e Artur Rodrigues mostrou que essas empresas usam CPFs de idosos para registrar milhares de chips de celular. A reportagem se baseou em documentos da Justiça do Trabalho e em relatos de Nascimento à repórter.

No depoimento aos parlamentares, Nascimento disse que a jornalista se “insinuou sexualmente” a ele em troca de informações para a reportagem. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, reproduziu a declaração de Nascimento no Twitter e a repetiu no plenário da Câmara dos Deputados.

“Fiquei aqui perplexo em ver, mas não duvido, que a senhora Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha, possa ter se insinuado sexualmente, como disse o senhor Hans, em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro,” disse o filho do presidente, segundo O Globo.

Em resposta, a Folha publicou uma reportagem em que enumera uma série de informações falsas prestadas pela testemunha à CPMI e reafirma a correção dos dados usados nas reportagens sobre o disparo ilegal de mensagens via redes sociais durante a campanha de 2018. O jornal também repudiou as insinuações feitas pelo filho do presidente.

“A Folha repudia as mentiras e os insultos direcionados à jornalista Campos Mello na chamada CPMI das Fake News. O jornal está publicando documentos que, mais uma vez, comprovam a correção das reportagens sobre o uso ilegal de disparos de redes sociais na campanha de 2018. Causa estupefação, ainda, o Congresso Nacional servir de palco ao baixo nível e às insinuações ultrajantes do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)”, diz a nota do jornal.

Reação

A nova onda de ataques a Campos Mello causada a partir dos comentários de Nascimento reproduzidos por Eduardo Bolsonaro gerou indignação e uma avalanche de comentários em solidariedade à jornalista.

Mais de 2800 jornalistas brasileiras assinaram um manifesto de repúdio às ofensas proferidas contra Mello. No texto, elas dizem que é inaceitável acusar sem provas a repórter de “se valer de tentativas de seduzi-lo para obter informações e forjar publicações […] Não vamos admitir que se tente calar vozes femininas disseminando mentiras e propagando antigos e odiosos estigmas de cunho machista”.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) disse em nota que “é assustador que um agente público use seu canal de comunicação para atacar jornalistas cujas reportagens trazem informações que o desagradam, sobretudo apelando ao machismo e à misoginia. Além disso, esta é mais uma ocasião em que integrantes da família Bolsonaro, em lugar de oferecer explicações à sociedade, tentam desacreditar o trabalho da imprensa”.

Já a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) repudiou, também em nota, “o caráter misógino, violento e sexista do ataque à profissional jornalista, utilizado para colocar em dúvida a credibilidade das informações apuradas por Patricia, uma das profissionais mais respeitadas e premiadas do país. O ataque atinge não só a repórter da Folha, mas os princípios democráticos, constitucionais e a liberdade de imprensa”.

“A grosseria de que foi alvo a jornalista Patricia Campos Mello está relacionada com dois fenômenos: os contínuos ataques à imprensa e aos jornalistas em geral e a multiplicação de comportamentos cafajestes. Esses dois fenômenos têm sido estimulados por algumas das mais altas autoridades da República”, declarou Cid Benjamin, vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Já o presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Marcelo Rech, disse que “é lamentável que um depoimento em CPMI repleto de inverdades seja usado para atacar a honra de uma repórter que fez o seu trabalho de trazer à luz práticas eleitorais questionáveis. […] A tentativa de intimidar e deslegitimar o jornalismo profissional é uma das práticas típicas de autocracias”.

Vários jornalistas brasileiros prestaram solidariedade a Campos Mello nas redes sociais. Muitos deles também alvos de ataques por terem escrito reportagens críticas ao atual governo ou a outros personagens em posição de poder.

***

Júlio Lubianco estudou jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF), fez mestrado em mídia e comunicação na London School of Economics, é professor do curso de jornalismo da PUC-Rio e apresenta o podcast do BRIO, que discute jornalismo, carreira, mercado e tecnologia.