Sunday, 14 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Evangélicos perdem credibilidade ao apoiarem Bolsonaro no sete de setembro

Foto: Alan Santos/PR

Trata-se da incitação feita por muitos pastores evangélicos aos fiéis para participarem das manifestações golpistas contra democracia e STF.

Faz cerca de um mês, escrevi no Observatório da Imprensa e no Náufrago da Utopia alertando os leitores sobre a responsabilidade dos evangélicos.

Eu dizia:
Quanto irá custar às igrejas e grupos evangélicos, em termos de credibilidade, terem apoiado a eleição e sustentado até agora o governo de Jair Bolsonaro, embora seu programa eleitoral e suas decisões e indecisões como presidente nada tenham a ver com os princípios morais do cristianismo?

E concluía:
Quando acabar esse pesadelo no qual vivemos, o evangelismo e o protestantismo brasileiro deverão também assumir sua responsabilidade, como fizeram, depois da guerra, os luteranos e evangélicos alemães enfeitiçados por Hitler. Mas aí terão perdido muito de sua credibilidade.

Ainda neste domingo, muitos pastores apelaram aos seus seguidores para participar das manifestações do Sete de Setembro, argumentado ser uma manifestação pela Liberdade, ignorando ou querendo ignorar ser uma manifestação de caráter golpista, ignorando as ameaças do presidente Bolsonaro e sua intenção de reunir seus seguidores numa demonstração de força contra a Constituição e contra a Democracia.

Alguns pastores, como o carioca Cláudio Duarte, consideram uma questão de honra o evangélico participar da manifestação em favor das ideias golpistas e autoritárias de Bolsonaro, alegando mesmo e vaticinando mesmo que estamos à beira de uma guerra civil. Como Cláudio Duarte e Silas Malafaia, que convocou seus seguidores para as manifestações de Brasília e São Paulo, podem utilizar os púlpitos de suas igrejas, e nisso são imitados por muitos outras pastores, quando o Brasil é um país laico e quando as religiões não devem se meter em política? Não podem esquecer que o próprio Cristo falou que seu reino não é deste mundo!

Fora isso, como apoiar um presidente francamente de extrema-direita chamado de nazifascista por tantos comentaristas políticos (que o chamam de Genocida) e responsabilizado por quase 600 mil mortes pelo coronavírus. Sem se esquecer do recente escândalo das rachadinhas, verdadeiro crime de roubo e peculato, um escândalo que custará processos à família Bolsonaro?

Além disso, como convocam e incitam seus seguidores evangélicos a participar de manifestações convocadas pelas redes sociais do ódio e das fake news? Manifestações que poderão degenerar num clima de violência, de caos e de insegurança, colocando em perigo seus próprios seguidores.

Não se poderá esquecer a responsabilidade hoje dos pastores que transformaram as igrejas evangélicas em focos golpistas de sustentação de um governo que prega a desobediência à Constituição e à Democracia. Atitude criticada num manifesto de pastores batistas divulgado esta semana.

Como induzir seus seguidores a um ato de apoio a Bolsonaro, quando a economia brasileira vai mal e quando a imprensa estrangeira e as empresas estrangeiras se preocupam com uma crise institucional no Brasil? Crise que só poderá agravar a situação econômica e provocar novos aumentos no custo de vida, nos preços do gás, da gasolina? O desvario do desmatamento da Amazônia e do Pantanal já está provocando seca e falta de água causando mudança climática no Brasil. É esse o presidente escolhido por Deus, que os pastores evangélicos respaldam e apoiam? Seja qual for o resultado das manifestações do Sete de Setembro, é importante afirmar a perda da credibilidade dos evangélicos por terem participado ativamente desse desafio à Democracia e às leis brasileiras.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.