Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Qual é a origem da birra de Bolsonaro com o horário de verão?

Foto: Isac Nóbrega/PR

Nos primeiros meses do seu mandato, em abril de 2019, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) assinou um decreto presidencial colocando fim ao horário de verão que vinha sendo adotado no Brasil desde 1985. De outubro a fevereiro, 11 estados, entre eles Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, adiantavam o relógio em uma hora. Esse horário nasceu no país em 1931, com o então presidente da República Getúlio Vargas, com o objetivo de poupar energia elétrica. Com interrupções desde então, ele tem funcionado.

Não é invenção dos brasileiros. Existe em outros países, como Estados Unidos, Chile e na União Europeia. Ao assinar o decreto que colocou fim ao mais longo período consecutivo de funcionamento do horário de verão, entre 1985 a 2019, Bolsonaro alegou que a energia poupada era insignificante e que uma pesquisa feita pelo seu governo revelara que 70% da população era contra a existência do horário. E acrescentou um motivo novo que na época passou batido pela imprensa. Mas ficou registrado, como foi publicado no site G1: “Se não alterar o relógio biológico, com toda a certeza, a produtividade do trabalhador aumentará”.

Na ocasião, a imprensa embarcou no bonde de Bolsonaro e não fez estardalhaço sobre a decisão dele a respeito do horário de verão. Por quê? O governo estava começando e os jornalistas ainda estavam tateando para saber como funcionava a administração Bolsonaro. O estilo do novo presidente era uma novidade para nós. Lembro que todas as manhãs ele disparava desaforos contra alguém, ou uma instituição, que virava manchete nos noticiários. Também há o fato de que o horário de verão nunca foi uma unanimidade no Brasil, especialmente em Porto Alegre e várias cidades do Rio Grande do Sul, porque em outubro, às 7h, o sol recém está nascendo. Mas também nunca foi detestado porque, a exemplo do que acontecia em outros grandes centros urbanos do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, o horário de verão ajudava a engordar o número de frequentadores nos happy hour de restaurantes e botecos, o que fazia a economia girar e criava centenas de empregos. Portanto, o horário de verão não era pela poupança da energia, mas pelo happy hour. No ano passado, o assunto ficou esquecido porque instalou-se a pandemia causada pela Covid e foi o caos que registramos nos noticiários e que foi documentado pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado, a CPI da Covid.

Dois fatos ressuscitaram a discussão sobre a volta do horário de verão no segundo semestre de 2021: o avanço da vacinação e o consequente recuo do vírus, o que possibilitou o estabelecimento de protocolos que viabilizaram a abertura dos restaurantes e botecos. E a real possibilidade de acontecer um racionamento de energia elétrica devido os baixos níveis das barragens das usinas hidrelétricas causado pela crise hídrica. Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), lembrou o governo que o setor tinha sido seriamente atingido pela pandemia e que a volta do horário de verão seria uma oportunidade de turbinar os negócios. A resposta do governo foi burocrática. O ministro das Minas e Energia, almirante de esquadra Bento Albuquerque, pediu à Operadora Nacional do Sistema Elétrico (ONS) que fizesse um estudo para saber qual o impacto que o horário de verão traria no consumo de energia. O resultado foi o que todos já sabiam. A diminuição no consumo é insignificante. Com isso o governo deu o assunto por encerrado. A imprensa publicou algumas matérias no pé da página e deixou para lá. Uma explicação para quem não é jornalista. No jargão das redações “pé de página” significa que o assunto não tem muito interesse. Mas é noticiado para que, caso haja reclamação dos leitores, o jornal tenha registrado a informação e não seja acusado de omisso. Vamos refletir sobre o assunto. Em 2019, não conhecíamos a maneira de agir de Bolsonaro e das pessoas que gravitam ao redor dele. Os ataques contra a imprensa eram intensos e nos surpreendiam, a exemplo do que tinha acontecido com os colegas americanos durante o governo do presidente Donald Trump (republicano), que era publicamente idolatrado pelo seu colega brasileiro.

Hoje (2021) nós conhecemos a maneira de operar do governo, das pessoas ao redor do presidente, os generais e outros 6 mil militares que fazem parte da máquina administrativa federal. Um dos motivos do governo estar em um atoleiro político, econômico e ético é a fidelidade do presidente a pautas exóticas de grupos que o apoiam, como os pastores das igrejas neopentecostais que disputam os seus seguidores com as religiões afro-brasileiras, como a umbanda, e os donos dos botecos nos bairros e trabalhadores de baixa renda. Sei disso porque fiz dezenas de matérias a respeito do assunto. O grande apoiador do presidente é o pastor Edir Macedo, uma figura polêmica que ergueu um império de jornais, TVs e rádios ao redor da Igreja Universal. Lembro os meus colegas a frase dita pelo presidente em 2019, que mencionei na abertura da matéria: “se não alterar o relógio biológico, com toda a certeza, a produtividade do trabalhador aumentará”. Pergunta que temos responder ao nosso leitor. Essa frase tem alguma coisa a ver com o compromisso do presidente com a “pauta de costumes” defendida pelos pastores Edir Macedo, Silas Malafaia, Marcelo Crivella (ex-prefeito do Rio de Janeiro) e outros? Uma explicação para quem não é jornalista. As redações usam a expressão “pauta de costumes” para explicar a luta de setores reacionários da sociedade contra os avanços sociais já conseguidos contra o racismo, a homofobia e outros preconceitos enraizados na sociedade.

Até as pedras das ruas do Brasil sabem que o horário de verão não tem a ver com poupar energia. Mas com o happy hour, que graças ao avanço da vacinação e aos protocolos estabelecidos pelas autoridades sanitárias, está de volta. O rolo nos dias atuais atingiu tamanha grandiosidade que assuntos como a “pauta de costumes” foram varridos para o pé da página dos jornais. Mas pessoas como Macedo, Malafaia e Crivella estão agindo e nós jornalistas não podemos perdê-los de vista. A preocupação desses três senhores e dos que gravitam ao redor deles não tem a ver com religião. Tem a ver com dinheiro. Há livros, processos e documentos que mostram isso. Digo mais. Sempre que nós jornalistas perdemos de vista aqueles que trabalham pelo retrocesso dos avanços sociais e políticos do país instala-se o caos, como aconteceu na Alemanha nos anos 30. Pode parecer que o presidente Bolsonaro atira palavras ao vento. Aprendemos nesses quase três anos de mandato que não é assim que as coisas funcionam. Tudo que ele diz, por mais absurdo que possa ser, tem um sentido.

Texto publicado originalmente pelo blog Histórias Mal Contadas.

***

Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais.