Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

“A autocensura é o princípio do totalitarismo”

A equipe de 20 redatores e desenhistas do Charlie Hebdo não para de responder a entrevistas. A publicação de caricaturas de Maomé converteu o semanário no novo epicentro da cólera fundamentalista. O redator-chefe encarregado dos textos, Gérard Biard, nega as acusações e afirma que eles se limitaram a cumprir com o dever de jornalistas.

“Combatemos as religiões”

Qual foi a tiragem da edição?

Gérard Biard – A de sempre, 70 mil exemplares. E hoje temos outra. Isso prova que é falsa a afirmativa de que queríamos dar um golpe publicitário.

Vocês são acusados de oportunismo por atiçar o fogo após o filme anti-Islã…

G.B. – Temos feito o que fazemos todas as semanas: comentar a atualidade de um trailer de um filme imbecil distribuído pela internet que gerou manifestações e atentados.

O chanceler (francês) Laurent Fabius e a Casa Branca sugeriram que vocês foram irresponsáveis…

G.B. – Qual é a responsabilidade de um jornalista? Contar a atualidade ou ceder à violência? Creio que é comentar o que se passa, principalmente se entra por completo na linha editorial, como neste caso. Combatemos as religiões, todas elas, quando entram na esfera pública e política. Como se pode justificar que os jornalistas se proíbam de tratar a atualidade? A autocensura é o princípio do totalitarismo. Não podemos ceder à violência. A França é um Estado de direito laico e nos submetemos à legislação francesa, temos a mesma responsabilidade que o resto da imprensa. Não insultamos ninguém. Mas se alguém assim o crê, pode ir aos tribunais.

“Negamos terminantemente a acusação de racismo”

Como vê a reação do governo francês?

G.B. – Fechar as embaixadas e colégios está dentro do papel protetor. Outra coisa é que Fabius se permita criticar um jornal satírico e independente por fazer seu trabalho. Alguns relutam diante da liberdade de expressão e outros, como Manuel Valls (Interior) ou Vincent Peillon (Educação) nos apoiam.

Os clérigos disseram que as caricaturas denotam racismo e islamofobia…

G.B. – Criticar uma religião não é racismo. Uma democracia não se define por sua religião, e sim, pela livre expressão de ideias. Os muçulmanos não são uma raça, são de todas as raças. As pessoas que se definem exclusivamente como muçulmanas se deixam manipular por líderes religiosos. Na França, a identidade é a cidadania. Não é Deus quem nos dá o direito de voto. Negamos terminantemente a acusação de racismo.

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[Miguel Mora, do El País]