Monday, 26 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Notas sobre junho

Junho de 2013 foi um mês estranho. Para além do deslumbramento com as manifestações de rua, foi um mês estranho pelo conjunto dos acontecimentos. Não se trata de desqualificar a importância do desejo de participação popular. Mas a significação política vai além da suposta espontaneidade das ruas. Significação indecifrada, é verdade, mas que certamente ultrapassa a voz das ruas.

Numa democracia que ainda não completou três décadas de existência vimos editoriais da imprensa nacional ironizarem o fato de que, diante das manifestações violentas em Brasília, as “tropas fiéis” a Dilma Rousseff não teriam passado de um cordão humano composto pelos duzentos homens que fazem a guarda pessoal da presidência da República. O estranho fato de a Segurança Institucional ter deixado isso acontecer deu lugar a um fantasmagórico humor político. Humor de mau gosto redobrado pelo fato de que a atual presidente iniciou sua trajetória política movida justamente pelo inconformismo diante de um golpe militar que depôs o presidente da República, cassou políticos eleitos democraticamente, perseguiu opositores, instaurou a censura, enfim, impôs o autoritarismo na vida política do país.

Nossos principais jornais parecem ter vivido um flashback dos anos em que chamaram de revolução o golpe de Estado. Assinaram, como se fosse algo trivial e cotidiano, notas afirmando haver uma trama paralela sediada no Palácio do Jaburu: a presidente eleita caminharia a passos largos para o mesmo caminho de figuras como Getúlio Vargas, Jânio Quadros e Fernando Collor. Um precário fio de pudor talvez tenha impedido de acrescentar João Goulart à trágica lista.

O vocabulário do golpe entrou em cena sem que se tratasse apenas de alusão histórica. Se não foi iminência real e possível, foi o quê? Um terrorismo psicológico contra Dilma? Em se tratando de uma imprensa que já assumiu publicamente que, diante da inconsistência da oposição partidária, ela própria se via na necessidade de fazer o papel de oposição, tudo é possível.

Realidade não interessou aos torcedores

Um jornalismo que costumeiramente deturpa o sentido das mobilizações populares e aplaude a desmedida repressão policial entrou em clima celebratório com loas à festa-cívica-pacífica-espontânea-linda-linda-linda-bonita-mesmo-e-espontânea. Claro que a essa altura já não se noticiava mais demandas específicas e contraditórias que se colocaram nas ruas. Não. A essa altura, já era o povo brasileiro unido contra os partidos, contra a corrupção, contra a inflação, lutando pela liberdade tal qual os povos que se levantaram contra ditaduras no norte da África.

Um dos jornais de maior circulação no país praticamente arvorou-se na função de líder das massas: depois do pronunciamento presidencial e do abalo na aprovação popular do governo, lançou um editorial decretando o fim da mobilização nas ruas. “Basta. A hora das ruas já se esgotou. Cumprimos uma etapa”. Ecos de uma imprensa comandada por meia dúzia de famílias.

Tornou-se clara a falta de comprometimento com ações que, de fato, representassem mudanças na estrutura de nosso sistema político: a proposta de um processo Constituinte exclusivo para fins de uma Reforma Política foi prontamente desqualificada. Uma mediação institucional visando a mudanças verdadeiramente reformadoras não interessou (e não interessa) àqueles que apenas pretendem lucrar sorrateiramente com a desestabilização do governo de plantão. Aliás, pareceu não interessar a muitos dos aliados desse próprio governo.

Nos bastidores da política havia mais interesse em apostar na possível maior vaia da história que Dilma Rousseff levaria caso comparecesse ao Maracanã na final da Copa das Confederações. A realidade talvez não tenha interessado aos torcedores. O presidente da Câmara dos Deputados usou um avião da FAB para levá-lo, junto de sua trupe de convidados íntimos, a assistir ao jogo do Brasil. Joaquim Barbosa também foi ao estádio às custas de recursos do Supremo Tribunal Federal. Não foram os únicos, é verdade. Outros, especialmente interessados em engrossar a vaia contra Dilma, embarcaram em voos similares, ou seja, pagos com dinheiro público.

A ditadura não é assim tão envergonhada

Ao fim e ao cabo, Dilma Rousseff parece ter sido uma das poucas, entre os representantes dos poderes em todos os níveis, a ter percebido que o momento não era para festa ou preocupações com vaias. Pelo menos não por parte daqueles que deveriam nos representar, já que ninguém parece ter ficado a salvo de críticas nos protestos de junho. Mas muitos não se atentaram a este detalhe e acreditaram poder sentar confortavelmente em camarotes esperando pela vaia alheia. A presidente não foi ao estádio. Em seu lugar, uma figura saudosa da “Revolução de 1964” e hoje dirigente da CBF foi quem entregou o troféu à seleção brasileira. Não dá para dizer que, neste episódio, os brasileiros que festejavam a vitória no futebol estavam também festejando este simbolismo político.

Muitos nem sabem da posição de José Maria Marin durante a ditadura militar brasileira. Mas o saldo dos acontecimentos de junho de 2013 nos permite, sim, avaliar que a ditadura não é assim tão envergonhada quanto a razão histórica nos faz crer. Mas este junho de 2013 também nos ensinou que não é nem minoria e nem silenciosa a voz daqueles que não aceitam a truculência e o autoritarismo que, em alguns, desperta o saudosismo.

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Oswaldo Alves é sociólogo, São Paulo, SP