Thursday, 22 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

Tocqueville, imprensa e redes sociais no Brasil atual

Um gigantesco abismo separa os famosos escritos do pensador francês Aléxis de Tocqueville n’A Democracia na América (obra da primeira metade do século 19), em que a imprensa tornava-se condição inequívoca para a sobrevivência das premissas democráticas, do Brasil contemporâneo, onde inúmeros questionamentos são feitos em relação ao poder político e a todo e qualquer órgão que de algum modo a ele esteja vinculado e/ou subordinado, como é entendida, por parte da sociedade, a imprensa.

Na obra de Tocqueville, o entendimento sobre a democracia descreve que esta produz condições que paulatinamente transformam os membros da sociedade em seres isolados uns dos outros, visto que, ao compreenderem que as condições sociais e econômicas são dispostas de maneira equitativamente aleatória a todos, isto significa que qualquer um poderá galgar seus objetivos a partir de seus únicos esforços, sem a necessidade premente de auxílio ou suporte mais evidente de outra pessoa ou grupo. Com o tempo, essas pessoas se isolam umas das outras e não percebem que tal conjuntura permite a aglutinação de forças de uma determinada corporação com fins econômicos que, sorrateiramente, criará barreiras e empecilhos para a progressão social objetivada pelos indivíduos acima citados, isto porque, esse controle gerará maiores lucros. Em outras palavras, o discurso usual será o discurso democrático reafirmando a possibilidade de acessão de qualquer pessoa a partir de seus esforços individuais, mas a ação se prenderá a elementos tirânicos desses grupos que controlarão determinados segmentos da estrutura social. Uma democracia sem democracia, portanto.

Assim, de acordo com Tocqueville, passo a passo o universo democrático gera venenos que corroem seus alicerces e produzem seu fim. Porém, como essa alternativa não é a desejada, alguma alternativa deveria ser apresentada, visto que, a derrocada da democracia bem provavelmente ocorreria por um processo revolucionário, e as revoluções, conforme afirmava, possuíam o grave defeito de não se encerrarem na forma como fora idealizadas em seu início, ou seja, havia o enorme grau de imprevisibilidade nas revoltas. É nesse momento em que a imprensa assume a primazia. Para nosso herói, os indivíduos isolados percebem as semelhanças e diferenças, ambições e serenidades deles com outros indivíduos a partir da leitura de um jornal; sem que se perceba, cada pessoa vê nas páginas do tabloide angústias e esperanças que são também compartilhadas por outros, e assim, a imprensa assume a condição de elo entre os membros de uma sociedade. Vem daí o entendimento de que apenas com a imprensa livre é que se pode viver em uma democracia.

Para evitar constrangimentos

Entretanto, os jornais da época de Aléxis de Tocqueville não são os mesmos jornais de hoje: a imprensa como um todo se tornou algo distinto e, por inúmeros motivos, apenas a venda em banca não mais sustentava os custos de um diário e a dependência dos anúncios comerciais, da publicidade, passou a ser espinha dorsal desse meio de comunicação. De forma mais intensa, os desdobramentos seguintes já nasceram sob esse “guarda-chuva” econômico: a radiodifusão e a televisão não sobrevivem sem o anúncio comercial! Tal modelo implica em duas condições: ou bem a mídia em questão possui argumentos que atraem seus anunciantes sem que esses questionem o conteúdo, ou bem essa mídia está refém dos patrocinadores.

No primeiro caso há ainda um detalhe que não pode ser diminuto, a saber: se o argumento de uma determinada mídia tornou-se tão poderoso, isso significa que esse argumento é prenhe de um conjunto ideológico que o sustenta, posto que, não há como convencer sem que suas palavras não se apoiem em ideias mais do que assentadas. Dito de outra forma, para qualquer lado que observemos, a mídia não pode mais representar o papel descrito por Tocqueville, visto que, se ela possui sua própria ideologia ou se está se está subordinada ao poder econômico, ela perde a capacidade de ser um “elo” entre todos os membros de uma sociedade para ser a defensora de seu ponto de vista particular ou do ponto de vista de seus anunciantes.

Aqui o abismo entre o argumento original e a conjuntura atual torna-se visível e nosso país não é exceção à regra! Tanto isso é verdadeiro que em diversos momentos das manifestações que proliferam pelo Brasil de junho para cá a mídia em geral foi criticada e uma ação anteriormente impensada tornou-se necessária: os repórteres das diversas emissoras de televisão e rádios não mais se identificavam nos coletes ou microfones, como forma de se evitar constrangimentos ou mesmo agressões.

Um na multidão

Isso significa o fim do argumento de Tocqueville, ou seja, a imprensa não mais poderá ser uma das salvaguardas da democracia? Em tese, não. Assumindo o papel deixado pela mídia, as assim denominadas redes sociais adquiriram a força necessária de mobilização; conquistaram prestígio pela ausência de controle e por funcionarem a partir da ação de cada pessoa que, por sua vez, é vista e ouvida por todas as demais: o YouTube e o Facebook exercem o papel idealizado pelo autor francês por permitirem, sem filtros, a disseminação das opiniões, independentemente do local de onde elas saiam e de quem as diga e/ou defenda.

O que a imprensa clássica não percebeu é que sua importância definida na obra citada aqui originalmente se deveu à capacidade de mediar informações e ideias entre os indivíduos; a partir do momento em que a imprensa passou a ter também sua opinião ou representar a opinião de outro, ela, sem perceber, transformou-se tão somente em mais uma “pessoa” na multidão. E, sendo apenas “mais uma pessoa”, sua fala poderá ser bem recebida ou não pelos demais. Ao que parece, parte significativa da sociedade não anda concordando muito com os jornais, rádios e televisões do Brasil.

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Antonio Marcelo Jackson F. da Silva é doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal de Ouro Preto