Sunday, 14 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Carta aos estudantes

Na tarde de 21 de junho de 2013, foi realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) um debate sobre os protestos que tomaram as ruas de diversas cidades brasileiras. Os professores Marcos Nobre (Filosofia, da Unicamp), Pablo Ortellado (USP-Leste) e Renato Rovai (Cásper Líbero e editor da Fórum) participam da discussão. Convidado, o jornalista e professor Eugênio Bucci (ECA-USP) não pôde comparecer, mas enviou a carta transcrita abaixo, que foi lida para os presentes.

Caros estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP),

Transmitam ao Marcos Nobre, ao Renato Rovai e a todos os presentes, o motivo pelo qual não pude comparecer ao debate de hoje na FFLCH. Eu gostaria muito me sentar à mesa com vocês. Refletir sobre as manifestações que varrem o Brasil ao longo desta semana é um dever e uma urgência para a nossa Universidade. Visualizar as linhas de força que as movem, saber ouvi-las, intuir para onde elas se dirigem, tudo isso nos desafia. Por isso, e por muito mais, eu me solidarizo com vocês na convocação do encontro de hoje à tarde. Mas, como eu já tinha explicado, não poderei comparecer em virtude de problemas de saúde na família.

Escrevo agora uma nota curta, apenas para me justificar e para indicar alguns elementos que talvez interessem a quem queira pensar. Espero que estas linhas também sirvam como sinal de que tomei a sério o seu convite.

Começo por uma lembrança, uma frase que guardo na memória desde 1978 ou 1979. Era a seguinte: “Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem.” A primeira vez que a vi (e foi aí que memorizei o nome de seu autor, Bertolt Brecht), ela estampava um cartaz da Liberdade e Luta, uma das tendências do Movimento Estudantil naqueles tempos. Essa frase teve um papel decisivo para que eu rapidamente me integrasse à Libelu e me engajasse na militância. Às vezes me divirto pensando que quem me recrutou para o trotskismo foi Bertolt Brecht.

Aquelas palavras ainda ecoam em mim. Elas contêm um apelo adolescente de grande impacto. Um corpo humano que cresce, como o corpo de um adolescente, encontra barreiras em todos os lados. Não apenas nas roupas, mas também nas paredes, nos beirais, nas balaustradas e na cidade. Físicas ou não, todas as instituições restringem o espaço de quem se sente em expansão imperiosa. Assim, a metáfora do rio em fúria, o rio que arrasta tudo o que encontra pela frente, faz alusão ao nosso próprio corpo juvenil ao descrever fielmente as passeatas escorrendo pelas ruas, líquidas e avassaladoras.

Pé para fora

Penso agora nas manifestações de junho de 2013 pelo Brasil afora. Dizem que elas têm um componente de violência, mas não se lembram da violência de tudo o que vem silenciando essa energia tão imensa, e por tanto tempo. Não falo apenas da tropa de choque ou das balas de borracha, mas principalmente das mentalidades que insistem em repetir para a juventude: “Vocês não precisam ir às ruas porque nós já estamos tomando conta dos problemas de vocês.” A postura dos governantes que se imaginam representantes absolutos de todos os seres humanos é parte dessa violência muda. Os partidos que agem como se fossem os portadores da totalidade de demandas pretensamente universais também são. Então, quando os supostos representados rompem os diques das institucionalidades e das legendas partidárias, as autoridades sentem medo – mesmo quando dizem que não sentem – e olham para os manifestantes como se olhassem para zumbis, para mortos vivos de filme de terror, para alienígenas. Aos olhos dos governantes, os que agora protestam são uns bichos estranhos que tomaram de assalto o teatro político sem ter feito estágio em sindicatos ou em ONGs. Aos olhos dos que mandam no Estado, o rio é violento.

Há ainda os que dizem que esse rio é fascista. Não há dúvidas de que irrompem urros de fascismo nas lavas incandescentes que rolam pelas cidades misturando sorrisos infantis, fogueiras no meio da rua e pancadaria. As manifestações presentes não têm um discurso unificado. Não têm, sequer, um discurso organizado. Para elas aflui todo tipo de insatisfação contra tudo o que seja oficial, contra tudo o que é chapa branca. Da Copa das Confederações a Renan Calheiros, tudo isso aí é inimigo.

Essas manifestações conseguem a proeza de fazer marchar juntos os adeptos de teorias coletivistas primitivas e as falanges inspiradas pelo furor mais autoritário que existe. Há polos opostos na mesma procissão. E nada, nada dentro dela é bonitinho. Esse negócio é mais forte e mais potente do que supõem os seus próprios animadores – e é muito perigoso. Como a vida.

Se fôssemos falar nos termos de uma certa sociologia jurídica, diríamos que as novas passeatas, que ontem puseram em marcha mais de um milhão de brasileiros, correspondem não exatamente à esfera pública, quer dizer, elas não constituem uma mobilização da esfera pública tal como a conhecemos, mas correspondem a uma irrupção do mundo da vida mais profundo, que inundou de repente os espaços primários da esfera pública: as ruas. Diante disso, as instituições tremem, é claro.

As redes interconectadas da era digital, como muitos já disseram, são indispensáveis para essa modalidade relativamente nova de mobilização. Sem elas, não teríamos essa precipitação que atropelou as mediações clássicas. Graças a elas, uma frustração imensa, que já existia dentro delas, virtualmente posta, escapou da rede e se deixou ver, deixou-se tocar, ganhou materialidade, ainda que uma materialidade mais ou menos desarticulada. Olhando para os protestos, estamos olhando para o mundo da vida repentinamente convertido em público líquido.

Observemos que as passeatas não têm carro de som, não têm palanque, não têm a clássica vanguarda de braços dados, os cordões de “abre-alas”. Até mesmo em sua conformação física, as massas em protesto espelham uma unidade sem muitas hierarquias, sem comandos, uma unidade que é, para usar a palavra em voga, horizontal. Ou, pelo menos, mais horizontal do que vertical. No plano físico, no plano dos protestos das multidões, vemos aquilo que a Internet dissemina por meio das capilaridades do mundo da vida. O que veio para as ruas, enfim, foi o indivíduo que habita o que poderíamos chamar de sociedade civil não organizada. A diferença, agora, é que essa sociedade civil não organizada está irremediavelmente interconectada.

E há uma nova ordem na interconexão.

Se quiserem, eis aqui o novo personagem da cena política. Os velhos códigos, a começar dos partidos, terão de se adaptar a isso daqui por diante. Terão de reaprender a sintaxe da política. Existem fascistas na manifestação? É mesmo muito provável que eles existam. Ainda assim, a manifestação é a força mais vigorosa que se mostrou ao País desde um bom tempo, embora sua conformação institucional seja efêmera ou mesmo nula. É verdade que ela tende a se desanuviar, a se diluir, a se desmontar, mas deixará marcas indeléveis, entre as quais a certeza de que poderá voltar a qualquer momento. Existem fascistas na manifestação, mas, além dos fascistas, há muito mais coisas e mais sujeitos ali dentro.

O quadro geral expõe um esgotamento das fórmulas da democracia dita representativa. Não nos esqueçamos de que, enquanto as multidões quebravam vidros urbanos, alguns em Brasília se ocupavam de aprovar em uma sala qualquer uma coisa qualquer como “cura gay”. Os caras em Brasília estavam pensando nisso, trabalhando nisso, exercendo assim suas funções ditas representativas. Teremos que reavaliar a arquitetura das representatividades.

Outro dado crucial: as massas nas ruas não querem tomar o poder – elas apenas são candidatas a cidadãs; pleiteiam respeito, reivindicam a dignidade dos serviços públicos e uma certa decência dos que lidam com o erário. Se observarmos bem, veremos que praticamente todas as demandas, até mesmo o repúdio à PEC 37, são as bandeiras de uma agenda mínima para um Brasil mais limpo, transparente e solidário. Por isso é que digo: os denominadores comuns das manifestações, por maior e mais extremada que seja a diversidade dentro delas, indicam que as pessoas ali não querem ser candidatas a coisa alguma que não seja a própria cidadania. As autoridades ficam atarantadas com isso. Para elas talvez fosse mais confortável lidar com forças que quisessem lhes tomar o lugar, mas, não, elas estão lidando com um poder originário que lhes quer cobrar integridade. Estão levando um grande pito das ruas, um pito inacreditável. E pressentem que talvez não deem conta do recado. Com esse monstro solto elas não terão como fazer um acordo de bastidor, um conchavo. Não será fácil.

Outra reclamação que se volta contra as passeatas é que elas são coisa de classe média. Será mesmo? A classe média também pôs o pé para fora da calçada, mas, parando os automóveis, por vários dias seguidos, aquela multidão é tudo, menos classe média. Outra vez: há mais coisas e mais sujeitos dentro dessas manifestações.

Muito barulho

Não deveria haver novidades nessas notas rápidas que listo aqui. Na forma, o fenômeno brasileiro guarda, sim, semelhanças com o que vimos na primavera árabe, nos indignados espanhóis, no Occupy Wall Street, no movimento estudantil chileno. Melhor: no conteúdo também há várias analogias. Esses levantes todos carregam aspirações próprias do viver, próprias do modo de vida, falam de romper amarras, reclamam dignidade dos serviços públicos e pretendem domesticar o Estado (não por acaso, são as forças encasteladas no aparelho de Estado que vivem querendo domesticar as massas). Quanto à forma dessas manifestações, podemos constatar que, em todos esses episódios, os indivíduos, tal como eles existem no mundo da vida – sem atuação organizada na esfera pública –, entraram sem convite na cena pública para abalar a inércia das instituições. Com o Brasil agora não é diferente.

No Brasil, contudo, o recado das ruas – ao menos por enquanto – tem suas especificidades. Esse recado não é uma declaração incondicional de guerra ao poder. O recado é outro, e talvez seja ainda mais indigesto para quem hoje está por cima. O recado é o seguinte: “Atenção, vocês aí, tomem juízo e parem de roubar as nossas ilusões, os nossos direitos e os nossos dinheiros.” O que foi posto na mesa foi um quase ultimato. Veremos agora a resposta que o poder será capaz de providenciar. E de que forma as instituições conseguirão assimilar essa energia que explodiu, incorporando-a a novas interlocuções, viabilizadas por novos canais. Veremos.

Entre as perguntas que ficam, há três que ainda quero trazer para vocês: (1) Qual a inteligência por trás da rede de protestos? (2) Como eles se organizaram sem que houvesse uma reunião de líderes? (3) Aliás, existe um colégio de líderes? As respostas mais prováveis são:

1. A inteligência aí é difusa. Ela não tem sede numa cabeça só. Resguardadas as tais proporções, é mais ou menos como funcionam as redes sociais, o espetáculo, o mercado financeiro – se vocês querem aqui um exemplo “do mal”. Há uma certa “anarquia da produção” na fabricação desses protestos. As pautas comuns (por mais diversas que sejam essas pautas), por incrível que pareça, vêm em grande medida de reportagens de diversos órgãos de imprensa (que também abastecem as redes sociais). A corrupção, entre outros temas, vem sendo retratada em incontáveis reportagens, com as mais diferentes orientações editoriais. A imprensa, desse modo, é uma referência indireta dessa inteligência difusa. Os protestos, que tendem a repelir partidos e autoridades, repelem também os símbolos da mídia (na exata medida que a mídia é um dos poderes do que é visto com establishment), mas se alimentam da imprensa e, paradoxalmente, manifestam-se preferencialmente para as câmeras de TV. Ao ir para as ruas, as massas também querem ir para o Jornal Nacional.

2. As passeatas não precisam de uma reunião de líderes para se organizar. De um lado, há uma estratégia difusa, além de incendiária, sintetizada pela dinâmica natural das redes. De outro lado, e isso talvez seja um dado incômodo, já existe, no automatismo das leis do espetáculo, um protocolo gestual e linguístico das manifestações, um protocolo já bem característico da instância da imagem ao vivo. Há uma indumentária própria, que vem sendo depurada desde as jornadas contra as reuniões do G-8 e mesmo desde antes. Há uma junção entre esses signos visuais (e teatrais) e as bandeiras mais ou menos libertárias e anarquistas, que já vêm de décadas. A passeata de protesto, assim como o beijo, é algo que a juventude mundial sabe fazer sem ter que ler manuais. Essa celebração do ativismo a despeito de teorias vem dos anos 60, como sabemos, e agora atinge um grau considerável. Um convite como esse, o “vamos para a rua” (que, não por acaso, é tema de uma campanha publicitária, creio que de um automóvel, e que está no ar na TV) vira algo irresistível quando associado a decepções antigas e dolorosas como as nossas.

3. Quanto à existência de um “colégio de líderes”, ainda teremos de esperar para ver. É possível que ele venha a se constituir, em termos mais fluidos, no próximo período. Alguém terá de encarnar as funções de dialogar com as autoridades e isso irá impor a necessidade de haver representantes. É parte do jogo, não haverá muito como evitar.

O resto é barulho. E muito barulho ainda está por vir.

Minhas saudações a todos você, com um abraço,

Eugênio

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Eugênio Bucci é jornalista e professora da ECA-USP e ESPM