Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Como assassinar um presidente sem derramar sangue

No início ou nem tanto, foi São João, aquele que imaginavam o Messias, a cabeça decepada, entregue à luxúria ressentida de Salomé. Foi o primeiro golpe oficial de sofisticação da barbárie, estetizada por paroxismo, a ponto de inspirar legiões de artistas, de Ticiano a Caravaggio, de Klimt a Juana Romani, de Picasso a Dali. Ah, mas havia a ameaça da lei, atraída pelo vestígio, de modo que a autoria se converteu em risco. As lendas do período da Guerra Fria descreveram armas caracterizadas pela sutileza, algumas supostamente utilizadas em assassinatos ‘clássicos’, como o de John Fitzgerald Kennedy.


A literatura underground referiu-se a homicídios civilizados, em que teriam sido empregados projéteis de gelo ou de carne moída. Cápsulas de ricina disparadas da ponteira de um guarda-chuva eliminaram um dissidente. Ainda assim, persistiu o horror à invasão do corpo inimigo, à chaga rubra e delatora. Nestes novos tempos, portanto, matar uma figura pública passou a exigir a discrição do pré-assassinato, da magia enigmática do vuduísmo construtor de zumbis.


Mas onde se encontra a receita? Apenas no Haiti? A primeira inspiração está no mosteiro escuro de O Nome da Rosa, em cuja ‘redação’ se oculta um inimigo fatal, diluído em tintas. Nesse caso, não há sangue ou vestígio, ainda que se mantenha a morte física. Então, é hora de conjugar os saberes estratégicos de Nicolo Machiavelli, a schemata do Tribunal do Santo Ofício e a celeridade televisiva e mutimidiática. Na era rifkiniana do acesso, o veículo é o mesmo: a tinta química ou pixelizada. O poder letal, entretanto, se guarda no conteúdo, nos significados semioticamente envenenados. Onde mirar? 15º52’ de latitude Sul e 47º 55’ de longitude Oeste: Brasília.


Mas como manter o requinte da operação de aniquilamento? Afirma-se que circula por aí uma cartilha, não dessas de papel ou bytes, mas daquelas gravadas em redes neuronais, por motivos de segurança. O projeto sustenta-se num tripé clássico: incriminação, desqualificação e ridicularização. Paralelamente, canaliza-se para o alvo a responsabilidade por todos os males possíveis da nação, cuidando para que eventuais fracassos pessoais também sejam atribuídos ao herege.


Repetição e desejo


Vale um estudo superficial dos métodos de desqualificação, alicerçados especialmente na reativação goebbeliana de mitos. Divulga-se:


** O sujeito é rico. Tem uma Mercedes vermelha.


** O sujeito mandou matar o próprio amigo. Atirou Daniel na cova dos leões.


** O sujeito é cachaceiro.


** O sujeito cortou o próprio dedo para se aposentar.


** O sujeito nunca trabalhou.


** O sujeito é analfabeto. E é porque não quis estudar.


** O sujeito é arrogante.


** O sujeito é frouxo.


** Sem querer querendo, o sujeito prepara um golpe, auxiliado por Chávez.


Todos esses elementos são elegantemente embrechados nos artigos dos editorialistas, dos analistas e dos cientistas políticos. Esse processo de restauração e criação de peças de maledicência, expresso quase sempre em meias palavras, é ratificado e multiplicado pela cultura cibernética, especialmente pelo bloguismo, uma versão nova de jornalismo, tão formidável quanto inconseqüente, tão criativa quanto falsa, tão enriquecedora quanto destrutiva.


A caçada é implacável. Diatribes em tempo real e resumos impressos matutinos ou semanais. Os escribas devoram todas as palavras do perseguido. Digerem-na e devolvem sentenças. Não há escapatória, num fatalismo que assustaria o escolado e esfolado Cândido de Voltaire. Se o mandatário exibe humildade, é fraco. Se mostra determinação, é arrogante. Se aceita, é um títere incapaz. Se articula, é um falangista ensandecido. Se explica, é porque admite culpa. Se cala, é porque oculta o delito. Quando se recolhe, é indolente. Quando constrói, é populista demagogo. Quando sustenta o sistema, é um vendido. Quando o modifica, é um desmiolado irresponsável.


Parágrafo a parágrafo, o bicho o pega, todos os dias, cravando-lhe os dentes afiados, como se o debate prescindisse agora de qualquer lógica. Na farra persecutória, misturam-se vários clãs, dos esquerdistas utópicos delirantes aos conservadores da TFP, dos pecebões ressentidos porque perderam o protagonismo revolucionário aos rebeldes sem causa que procuram um culpado para suas acnes desfigurantes.


Na afobação, os detratores oficiais atropelam tudo, da Geografia à Ortografia. Recentemente, num encontro de altos executivos, um jornalista conceituado dissertava sobre a crise política. Em dado momento, enveredou pelo caminho da conspiração caudilhista, referindo a Hugo Chávez. No datashow, iluminou-se um mapa da América do Sul. Enquanto discursava sobre a instabilidade política venezuelana, apontava o lume de sua canetinha para o mapa da Colômbia. Quando tratava de Caracas, lá ia o pontinho vermelho estacionar sobre Bogotá.


Na sexta-feira (12/8), os jornalões se apressaram para ecoar as críticas da oposição ao discurso do sujeito. Pois um incauto internetista do Estado de S.Paulo estampou entre as manchetes: ‘Cientistas políticos avaliam discurso como inóquo [sic] e vago’. Crime desses que Japiassu classificaria como hediondo.


Na assuada da esculhambação, perde-se o conceito da notícia e do editorial. Há dois meses, por exemplo, bocas e penas abusam da expressão ‘o governo acabou’. A repetição parece expor mais um desejo irrefreável do que uma constatação. Instaura, além de tudo, um complexo debate metafísico acerca das idéias de fim e finalidade, cuja troca em miúdos certamente agradaria a leitores e ouvintes. Seria esse fim um estado de ataraxia, de imperturbabilidade, de acordo com o conceito democritiano? E a tal finalidade estaria ligada à concepção de Deus, na diversidade de avaliações que opõe Spinoza a Descartes? Aqui, do outro lado das páginas do apocalipse diário, aguarda-se um fiapo de resposta.


O atrevimento de Aníbal


O escancarado ressentimento no conteúdo midiático tem como alvo aqueles de berço proletário que ousam assumir ofícios consagrados à burguesia nacional ou aos cortesãos recrutados na classe média. Segundo uma adaptação oportunista do calvinismo fundamentalista, aos cabeças-chatas reserva-se o labor pesado, o mexer com merda, a atividade manual e subjacente na hierarquia produtiva. Afinal, uma inexorável predestinação permite que descolados aproveitem a vida como acadêmicos aposentados, enquanto párias eternos se tornam cativos do torno mecânico. Qualquer desvio nesse roteiro constitui-se em anátema.


Pois bem, ilustrativamente, valeria indagar a qual faina exaustiva se dedicou, nos últimos vinte anos, o antecessor. Teria também este prócer cedido a uma extrapolação da preguiça lafargueana? Ainda hoje, pois, mantém-se numa ressaca versalhesa de espantar. Quando ergue a cabeça é para bradar enciumado: ‘Votre grenouille a mangé mon dejeuner’. A imprensona reproduz diariamente essa indignação de classe. Enfim, quem mandou o sapo barbudo e nordestino se meter na política? Como pau-de-arara, tinha de se aposentar comendo o pó do esmeril, quiçá moer os outros dedos na prensa, cumprir sua sina de ‘menor’. Essa história de ‘vagabundear’ com papéis e canetas se guarda aos bons filhos da elite, aos quais se faculta também um trambique aqui, uma travessura ética acolá.


Mesmo a livre expressão, cuja defesa transformou-se em revelação de uma paranóia monopolista, converte-se em direito privativo do pessoal da área VIP. Permito-me, aqui, lançar luzes sobre um pequeno episódio da história recente do Brasil. Em 1994, atuei como assessor de imprensa do operário, coadjuvando o jornalista Ricardo Kotscho, profissional competente e cidadão íntegro. À época, dei forma final a um texto do candidato sobre a campanha eleitoral, enviado a uma revista espanhola. Numa época marcada pelo ‘escândalo da parabólica’, o artigo criticava o comportamento de determinados grupos situacionistas.


Na ocasião, a revista Veja deturpou o texto para convencer os leitores de que o metalúrgico denegria a imagem do Brasil no Exterior. A expressão ‘república de bananas’, por exemplo, foi reproduzida num arranjo gramatical distinto, o que alterou totalmente o sentido da frase. Na época, o repórter Luís Costa Pinto, conhecido por suas lambanças, ainda responsabilizou-me por termos que, segundo o semanário, tinham por objetivo detrair o país.


Nos anos seguintes, Veja abandonou o ímpeto acusativo e tratou de blindar o governo federal, liderado pelo simpático professor. O escândalo da compra de votos para assegurar a reeleição do então presidente foi devidamente minimizado. A capa que exibia o suposto operador do esquema, em maio de 1997, recebeu a neutralidade do título ‘Reeleição’. Vale relembrar o antológico ‘Da cervejinha ao alcoolismo’, título da edição seguinte. Na época, a imprensona nem cogitou em citar o termo impeachment. Enfim, na era pré-delubiana, a compra de parlamentares aparentemente não se constituía em grave delito.


Exposta a leniência pontual dos inquisidores, renova-se a indagação: por que esse furor condenatório em 2005? Um recuo na história mostra que invasores e penetras merecem severas punições, assim como suas comunidades de origem. No caso de nossa Pindorama, o operário ainda representa um trauma para as elites. É uma reencarnação do general cartaginês Aníbal, que invadiu a península itálica e destroçou os exércitos de Roma.


Cartago estrelada


Mesmo depois de derrotado, Aníbal manteve-se como signo do incômodo, perene evocação de uma fraqueza do império. Ainda que no exílio, foi cercado. Para não se entregar, suicidou-se, ingerindo o veneno que carregava num anel. Nem a imolação, entretanto, pôs fim à perturbação do grande império. Catão, o Antigo, tratou de alimentar a obsessão. Ao terminar qualquer discurso, incluía a frase ‘ceterum censeo Carthaginem esse delendam’, algo como ‘quanto ao resto, penso que Cartago deve ser destruída’. A propaganda lentamente contaminou todos os insatisfeitos, de agricultores maltratados pela estiagem a maridos traídos. Enquanto Cartago não fosse destruída, a vida seria um inferno.


Mesmo ‘quietinha no seu canto’, Cartago não se viu livre de Catão e dos romanos. O argumento para invadir a cidade foi a suposta existência de embarcações de guerra na cidade – justificativa que possivelmente inspirou George W. Bush em sua cruzada contra os infiéis iraquianos. Centenas de milhares de pessoas sucumbiram no holocausto cartaginês. Exaltadíssimos pelo vinho, os soldados invadiram cada casa e cravaram suas espadas em homens, mulheres e crianças. Em seguida, incendiaram o vasto conjunto urbano. Apagaram o inimigo, sua história e suas razões.


Efetuadas as devidas adaptações, o mote propagandístico de Roma tem servido a parlamentares brasileiros e arautos cínicos da revanche. Pela denúncia repetitiva, procuram constituir uma renovada legião de cara-pintadas para invadir o reduto adversário. Desta vez, não basta destruir o Aníbal do sertão. É preciso também destruir sua imagem, macular definitivamente seu registro histórico, pulverizar suas razões e arrasar sua Cartago estrelada.


Torna-se válida uma referência à frase de Catão. O verbo deleo originou a palavra ‘delete’, tão em voga nestes tempos de assepsia cibernética. A ordem, portanto, é desqualificar e constituir o não-vivo. Depois, deletá-lo.

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Jornalista