Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Corte de verba americana prejudica projetos no Iraque

A decisão de Washington de cortar o financiamento da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) por causa da entrada da Palestina no órgão afetará importantes programas no Iraque e, em menor medida, no Afeganistão. Entre eles estão projetos de treinamento da mídia e do judiciário iraquianos, de análise de fontes de água potável no país, e de alfabetização de afegãos.

Segundo a legislação americana, deve ser cortado o financiamento a qualquer agência das Nações Unidas que aceitar a admissão da Palestina como membro pleno. No fim do mês passado, a Unesco votou pela aprovação da entrada dos palestinos no órgão. A resolução foi aprovada por 107 votos a favor (entre eles os do Brasil, Rússia, China, Índia e França), 14 contrários (EUA, Israel e Alemanha) e 52 abstenções (como a do Reino Unido).

O impacto da votação foi sentido imediatamente. Os EUA arcam com 22% da verba de todas as agências da ONU. Isso significa que a Unesco perde a contribuição de US$ 80 milhões em seu orçamento anual de US$ 643 milhões. Além disso, o financiamento americano – de até US$ 3 milhões por ano – de projetos especiais apoiados por Washington, muitos no Iraque, também foi cortado.

Problemas

Segundo o americano George Papagiannis, que até um mês atrás chefiava o escritório da Unesco para o Iraque, em Bagdá, “os desdobramentos são sérios”. “A maior questão agora é como uma lei minou a nossa capacidade de fornecimento em um lugar crítico aos interesses americanos. Nós investimos uma infinidade de dólares no Iraque, e não podemos pôr preço nas vidas dos americanos e iraquianos que morreram, e nós prometemos ajudar a construir um novo Iraque, algo novo no Oriente Médio, e agora estamos paralisados”, afirmou.

Papagiannis, que hoje trabalha no escritório central da Unesco, em Paris, lembra que a agência da ONU tem uma imagem positiva no Iraque, ao contrário dos EUA, que é visto como “uma força invasora, com alguma conotação negativa”. Por isso, o corte da ajuda ao órgão seria extremamente danoso.

Um caso curioso: o Departamento de Estado dos EUA havia assinado um contrato de US$ 1 milhão, em setembro, por um projeto para promover a transparência no Iraque através de treinamento jurídico e jornalístico. Mas como o dinheiro não foi enviado antes da votação sobre a entrada palestina na Unesco, advogados do governo americano agora estudam se a lei permite a anulação do contrato.

Diante do problema, a diretora geral da Unesco, Irina Bokova (cuja candidatura foi fortemente apoiada por Washington há dois anos), instituiu o congelamento de novos gastos e contratações, além de restrições de viagens e o cancelamento dos contratos de alguns consultores externos. Irina já planeja um programa de economia para os próximos anos, incluindo cortes de escritórios e funcionários. Ela afirma, no entanto, esperar que o corte no orçamento seja temporário, e que o Congresso americano anule a lei – o que é improvável, segundo análise de políticos dos EUA. Com informações de Steven Erlanger [The New York Times, 17/11/11].