Tuesday, 21 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Limites éticos nas mídias digitais

Em pouco mais de uma semana, 19 países na África, no Oriente Médio e na Ásia registraram mais de vinte mortes – entre elas, três diplomatas norte-americanos – e dezenas de depredações por conta do trailer de um filme de 14 minutos produzido nos Estados Unidos satirizando o profeta Maomé. O vídeo A Inocência dos Muçulmanos, postado no YouTube, foi rapidamente disseminado pelas mídias sociais e considerado uma blasfêmia pelos seguidores do islamismo. No filme, uma produção amadora realizada em Los Angeles, o profeta é caracterizado como sanguinário e mulherengo. Os artistas que participaram do vídeo alegam que foram enganados e não sabiam o teor da obra.

Com a eclosão dos confrontos, governos árabes pressionaram o portal Google, dono do YouTube, para bloquear o acesso ao filme e ameaçaram organizar novas manifestações caso o pedido não fosse atendido. Para o Google, o trailer não fere os preceitos gerais do portal, e por isso não haveria motivos para bloquear o vídeo. A empresa restringiu o acesso apenas em países onde a produção é considerada ilegal, como Índia, Indonésia, Líbia e Egito. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (18/9) pela TV Brasil discutiu se há limites para a liberdade de expressão nas mídias sociais.

Para debater este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro a jornalista e professora de Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Beatriz Bissio. Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), a professora está lançando O mundo falava árabe. Em São Paulo o programa contou com a presença dos jornalistas Fábio Zanini e Eugênio Bucci. Zanini é editor da seção “Mundo” da Folha de S.Paulo. Foi repórter de Política, correspondente do jornal na África do Sul e em Londres e é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Londres. Eugênio Bucci é professor-doutor da Universidade de São Paulo (USP) e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), além de colunista do jornal O Estado de S.Paulo, da revista Época e também deste Observatório. Foi secretário editorial da Editora Abril, presidente da Radiobrás e conselheiro da Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura de São Paulo.

O lado obscuro da tecnologia

Em editorial, antes do debate ao vivo, Dines ressaltou que a democracia ainda precisa ser consolidada nos países que experimentaram a Primavera Árabe: “Sem respeito às inevitáveis diferenças no gênero humano e desprezando a tolerância, uma sociedade não pode pretender a classificação de democrática. E isto vale tanto para a República americana, com mais de dois séculos de existência, como vale para a república egípcia ora em gestação” [ver íntegra abaixo]. Dines afirmou que o Oriente adota tecnologias criadas pelo Ocidente, mas se recusa a conviver com valores que tornaram possível o surgimento dessas tecnologias.

A reportagem exibida pelo programa antes da discussão no estúdio mostrou a opinião do jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, que foi correspondente nos Estados Unidos, e do cientista político David Fleischer, norte-americano naturalizado brasileiro. Lins da Silva sublinhou que é contra qualquer tipo de censura a um meio de comunicação, mas ressaltou que, ao divulgar uma informação, é preciso pensar nas consequências que dela podem advir. Para o jornalista, A inocência dos muçulmanos é um filme ofensivo, calunioso e desastrado, e foi produzido para incitar o ódio. Por outro lado, o caso reafirma a importância do jornalismo de qualidade: “Este episódio mostra como faz falta a presença de jornais e de veículos jornalísticos orientados pela prática profissional. A divulgação deste vídeo massivamente por redes sociais demonstra que essas redes sociais ainda são bastante irresponsáveis em muitas situações. Um veículo de comunicação orientado por práticas profissionais do Jornalismo jamais daria uma divulgação tão massiva para um filme tão inexpressivo do ponto de vista artístico e irresponsável do ponto de vista político”.

Eleições contaminadas

O jornalista disse que a morte do embaixador norte-americano na Líbia pode causar efeitos sobre a campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos. Lins da Silva avaliou como “desastrosa” a reação do candidato republicano Mitt Romney à atuação do governo do presidente Barack Obama no episódio. Antes de ter conhecimento sobre todos os fatos, Romney acusou a administração do presidente Obama de não ter reagido com dureza ao atentado. Para Lins da Silva, o candidato republicano teve uma reação açodada e tentou se aproveitar eleitoralmente de uma situação trágica para os Estados Unidos. Romney foi criticado tanto pelos opositores democratas e quanto por seus aliados republicanos.

Na opinião do professor David Fleischer, os protestos no Oriente respingaram na campanha eleitoral dos Estados Unidos. “O presidente usualmente tira maior proveito político desse tipo de situação. É claro que o candidato republicano Mitt Romney também condenou isso e prometeu ter mais empenho em proteger as embaixadas. É muito raro que um embaixador americano seja morto dessa maneira, mas parece que foi uma conspiração bem articulada pelos que planejaram esses ataques para usar, como se fosse um subterfúgio, a manifestação”, disse Fleischer.

O cientista político relembrou os antecedentes do caso: “Esse filme foi supostamente produzido nos Estados Unidos e alega-se que um pastor radical na Flórida é que estava a frente dessa produção. Foi esse pastor que criou outro grande episódio, de queimar o Corão uns anos atrás. Foi no governo [George W.] Bush que isso aconteceu. Claro que todo mundo condena isso”.

Direitos e deveres na web

No debate ao vivo, Dines comentou que a liberdade de expressão no mundo digital implica responsabilidades. A blogosfera ainda não está ciente de seus deveres e vem criando uma série de incidentes. Para Eugênio Bucci, é preciso levar em conta que o vídeo que precipitou a escalada de violência não pode ser visto como a única causa dos descontentamentos do mundo árabe. “Muitas vezes, ele é meramente um pretexto. Ele não foi feito por jornalistas, ele não foi publicado em um veículo jornalístico. É algo que emerge das redes sociais, emerge da sociedade. É uma iniciativa individual, o que nos traz uma questão dramática nos dias de hoje: a ética de imprensa precisa ser observada por cidadãos comuns”, disse Bucci. A população, que participa cada vez mais da atividade jornalística, deveria seguir os parâmetros éticos de respeito e tolerância adotados pela imprensa tradicional.

Dines perguntou se é possível uma maior tolerância entre as religiões em um futuro próximo. Para Eugênio Bucci, é difícil prever como evoluirá a convivência entre as crenças. O professor ressaltou que o tema da tolerância é, por excelência, um assunto da Comunicação. Na segunda metade do século 20, as Nações Unidas emitiram uma declaração sobre o comportamento da mídia. “É a partir dos meios de comunicação que as ideias que disseminam o ódio e encorajam as [essas] ideias acontecem. O poder dos meios de comunicação é algo maior do que nós supúnhamos”, afirmou.

Beatriz Bissio relembrou que o Islã se caracterizou, na Idade Média, por uma política de abertura e de grande tolerância em relação ao judaísmo e ao cristianismo. A religião muçulmana chegou a acolher seitas consideradas heréticas por Roma. A professora ressaltou que o Islã, assim como o cristianismo, é uma religião com diversas facetas, por isso não seria justo afirmar que vive atualmente um momento de obscurantismo ou fanatismo. “Naturalmente, isto não significa ignorar o que os fatos nos mostram: que existem correntes minoritárias, que têm pouca penetração nas sociedades a qual pertencem, e inclusive são censurados, que estariam diante de uma situação que seria uma negativa daquilo que seria a própria essência do islamismo”, disse Bissio.

Imprensa parcial?

Da forma como os fatos atualmente chegam ao mundo por meio da mídia, na avaliação da professora, parece que essas sociedades viraram fanáticas. “Por que através de agências de notícias, de enviados especiais, nós só costumamos ter a notícia quando há um evento deste tipo? Por que nos é cerceada a possibilidade de ter todas as ricas facetas dessas sociedades que estão em construção, de um mundo novo e diferente?”, questionou a professora.

Dines comentou que na semana passada, em entrevista ao jornal espanhol El País, o ministro das Relações Exteriores da Argélia, Mourad Medelci, propôs a criação de um marco jurídico mundial contra a blasfêmia, mas não definiu o que seria enquadrado nesse conceito. Beatriz Bissio disse que o que hoje está por trás da incompreensão entre a sociedade muçulmana e o Ocidente é muito mais do que a blasfêmia: “As sucessivas intervenções que potências ocidentais vêm praticando desde o século 18, muito mais intensamente a partir do século 19, e absolutamente interferindo no destino desta região a partir da Primeira Guerra Mundial até o que acompanhamos recentemente – Iraque, Afeganistão, Líbia –, isso é uma marca das relações do mundo islâmico com o Ocidente”. Nesse aspecto, Bissio ponderou que é difícil para um ocidental compreender como um muçulmano mais radical se coloca diante de um filme que ridiculariza a sua religião.

Mídias sociais, de herói a vilão

É preciso refletir sobre a real importância da internet na Primavera Árabe, na avaliação de Fábio Zanini: “Até aqui, as revoluções na Líbia, na Tunísia, no Egito, talvez na Síria e em outros locais, dependeram muito das mídias sociais. Foram revoluções onde o Facebook, o Twitter, os e-mails, o SMS, tiveram uma participação muito importante no sentido de chamar pessoas para a rua, de conscientizar pessoas, jovens urbanos, que são [esferas da] sociedade onde a mídia tradicional, a imprensa, ainda é muito frágil”, disse Zanini. O jornalista da Folha de S.Paulo chamou a atenção para o fato de que, até há pouco, as novas ferramentas de comunicação eram vistas como um elemento benéfico para ajudar a libertar os países da ditadura à qual estavam submetidos há décadas.

O risco que essas tecnologias impõem – até então subestimados pela imprensa – começa a ser avaliado. Nesses países, não existe tradição de imprensa livre, por isso as mídias sociais penetram de uma maneira avassaladora. “Eu acho que a imprensa ainda está tentando entender o que está acontecendo na chamada Primavera Árabe. São fatos ainda muito jovens”, disse o editor da Folha. Fábio Zanini comentou que, nos últimos dois anos, a Primavera Árabe teve destaque na mídia tradicional, que cobriu a derrubada das ditaduras com viés positivo: “Agora, a imprensa começa a perceber que o ambiente de confusão, de incerteza, pós-revolução foi propício para gerar toda essa violência. E a imprensa está correndo atrás do prejuízo para tentar entender como a revolução na Líbia, que era algo positivo, pôde degringolar para o que vimos na semana passada”. 

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Religião e política

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 657, exibido em 18/09/2012

Combinada à política, a religião exibe novamente a sua carga de rancor. O paroxismo, novamente protagonizado pelo extremismo islâmico, começa a se tornar rotina. Este é o perigo: o mundo moderno, imperiosamente globalizado, está sendo varrido periodicamente por irrupções de ódio político-religioso e se acostuma a este tipo de ruptura.

A Primavera Árabe trouxe o voto universal a países que desconheciam o poder das urnas, mas a democracia não se resume ao ato de votar. Sem respeito às inevitáveis diferenças no gênero humano e desprezando a tolerância, uma sociedade não pode pretender a classificação de democrática. E isto vale tanto para a república americana, com mais de dois séculos de existência, como vale para a república egípcia ora em gestação.

O fanatismo da direita americana que inspirou o clipe contra Maomé veiculado no YouTube é aparentemente inofensivo, mas tão nocivo quanto a reação delirante e sanguinária que está provocando em todo o Oriente, do Mediterrâneo à Ásia Central.

Ao adotar as tecnologias ocidentais, o Oriente se recusa a conviver com valores que tornaram possíveis estas tecnologias. O Ocidente também reagiu ao avanço produzido pelas maquinetas inventadas por Gutenberg, também cortaram-se muitas cabeças. O nazi-fascismo e o comunismo estalinista foram as últimas barreiras contra a tolerância. E ruíram fragorosamente.

Na vésperas do primeiro milênio, na Espanha, o islamismo representou uma abertura filosófica e cultural; agora, no início deste terceiro milênio, torna-se evidente a sua obsolescência apegada apenas ao ódio.

Guerras santas, como todas as guerras, são abomináveis em qualquer parte.

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A mídia na semana

>> Os imortais da Academia Brasileira de Letras são castos e cheios de pudor, ainda não chegaram ao século 21. Na semana passada, durante o ciclo “Mutações, o futuro não é mais o mesmo” que estava sendo retransmitido via TV pelo seu site, a direção da ABL censurou a conferência do professor de filosofia da Unicamp Jorge Coli, que discorria sobre sexo e pornografia. Imagens e palavras foram suprimidas sob a alegação de que o site é aberto e acessado por gente de qualquer idade. Uma das imagens censuradas reproduzia o quadro “A origem do mundo”, que está no acervo público do Museu D’orsay de Paris desde 1995. A arte no Brasil já não é mais a mesma.

>> Vinte e três anos depois, o editor do tabloide britânico Sun pediu desculpas por uma manchete acusando os torcedores do Liverpool de serem os responsáveis pela tragédia que tirou a vida de 96 pessoas no estádio. O editor lamentou publicamente que com duas ou três palavras a mais a manchete teria sido correta e o jornal não teria divulgado a abominável mentira. O processo consumiu 400 mil documentos nas duas décadas em que tramitou na justiça. Com uma autorregulação efetiva, o pedido de desculpas poderia ter sido feito uma semana depois.

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[Lilia Diniz é jornalista]