Tuesday, 21 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Quanto vale a morte?

Certa vez assisti, no YouTube, à entrevista de um ladrão que havia sido preso e proclamava em alto e bom som: “Eu sou ladrão! Se me soltar, eu vou roubar de novo. Vocês, os polícias (sic), precisam de mim. Se não tiver o ladrão, pra que vai existir polícia?” O vídeo é hilariante, mas o “profissional” tem certa razão. O que seria da polícia sem o ladrão?

No livro As intermitências da morte, do genial José Saramago, a morte abandona um país e os seus cidadãos deixam de morrer. O que pareceria algo maravilhoso começa a gerar problemas diversos, como hospitais lotados de enfermos terminais, sofrendo, mas que não têm condições de morrer. A igreja reclama ao presidente, também. Afinal se ninguém mais morrer, pra que acreditar em Deus?

Nos dois casos citados acima, a realidade, nua e crua, incomoda à primeira vista. Mas, é a verdade.

O jornalismo tradicional parece alimentar-se apenas de sucessivas tragédias, guerras e violências. Nossa imprensa está se tornando “profissional em desgraças”. As invasões da polícia no Complexo do Alemão, a guerra na Líbia, o tsunami no Japão e essa semana, o crime brutal de Realengo, no Rio de Janeiro. Este último comoveu o mundo. Um jovem desequilibrado mentalmente invadiu sua antiga escola, atirou em crianças e matou 11 sem nenhum motivo, foi alvejado e depois cometeu suicídio. O assassino louco deixou uma carta de despedida com informações desconexas sobre religiões e instruções para o seu sepultamento.

A morte dá Ibope

Em apenas um parágrafo conseguimos resumir um tema que está há mais de uma semana na mídia, em todos os canais e utilizando-se de diversas vertentes profissionais para “requentar” a notícia. Psicanalistas e psiquiatras dando depoimentos sobre o comportamento de um assassino, entrevistas com vizinhos e ex-colegas do atirador, imagens com o desespero daqueles que perderam seus parentes, vídeos exclusivos feitos por amadores e, claro, cenas dos enterros das crianças – ou “brasileirinhos”, como definiu a nossa presidenta. Detalhes da vida de um assassino frio e calculista aparecem em quase todos os jornais, como se esse fosse apenas mais um personagem da série policial CSI. Especialistas em segurança discursando sobre os seus pareceres a respeito de se implantar polícia nas escolas. Estamos ficando mórbidos demais e a imprensa já percebeu isso.

As crianças, vítimas da insanidade desse vilão, serviram (e vêm servindo) apenas como mote para reportagens. Breve, os pais das vítimas irão a programas como Mais Você, Hoje em Dia, Faustão, Gugu e terão um momento de close em seus rostos, para mostrar uma lágrima furtiva (e sincera, é óbvio), sob um fundo musical triste e uma iluminação impecável.

Mas quanto vale a morte? Na Bahia, quando as pessoas encontram um corpo de alguém morto ou agonizando, muitos pegam seus celulares para filmar e vender aquelas imagens para os programas sensacionalistas da TV, para ganhar 100 reais.

A morte dá Ibope, meus amigos. É triste, mas lucrativo… Não há pudor nenhum em explorar o assassinato de crianças para vender jornal e fazer matérias. Errado foi o atirador. Afinal, a imprensa não puxa o gatilho, é verdade. Mas ganha, e muito, quando alguém puxa.

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Analista de marketing, Salvador, BA