Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Sobre boatos e notícias

Costumo dizer que a sociedade pode e deve criticar os jornais e qualquer outro veículo de cunho noticioso. Afinal de contas, as informações veiculadas geralmente dizem respeito a elementos pertinentes à população, ao poder público e similares – e, portanto, afetam a quem as lê. Mas há críticas e críticas. Há os que avaliam uma notícia a partir de conhecimento de causa ou de fontes alternativas para chegar a uma conclusão sobre o que se noticia.

Mas nem todos são assim e a internet é termômetro disso. Muitos dos leitores de veículos noticiosos reclamam da parcialidade de jornalistas. Mas há um fenômeno interessante aí e que merece a devida atenção: o público é, em sua grande parte, tão ou mais parcial que os jornalistas parciais. É comum, e até assustador, a tamanha velocidade com que parte do público toma posição diante de uma notícia sem que haja fatores suficientes para tal. E tal tomada de posição é feita a partir de certo maniqueísmo ideológico: ou acredito ou não acredito. Pronto. Sem espaço para meio-termos.

Quando o leitor acredita no que vê, a reação é positiva; o jornalista é crítico e o jornal tem credibilidade. Quando não acredita, o jornalista é irresponsável e o veículo onde trabalha só publica mentiras. É fundamental, diante desse quadro tão limitador da realidade, que se compreenda uma coisa: opinião é diferente – e muito – de achismo. A opinião é fruto do acúmulo de informações suficientes para dar uma construção do contexto de um assunto qualquer com a maior proximidade possível da realidade. Já o achismo é a opinião sem base. Eu acho que é assim e ponto.

Não cabe ao jornalista o papel de juiz

O problema é que o número de pessoas que ‘acham’ é bem maior que o das que têm certeza. E muita gente acha isso ou aquilo de notícias e de jornais, mas não sabe como, de fato, são em sua rotina diária, desde a captação das informações até a impressão dos jornais. Se soubessem, poderiam deixar de achar e terem um pouco mais de certeza sobre o que falam.

O achismo gera boatos. E mais achismo repercute boatos. E o achismo-mor é aquele incapaz de diferenciar boato de uma informação ao menos plausível. O boato, em sua definição primeira, é uma informação cuja fonte emissora não pode ser detectada. É algo que não se tem como averiguar, simplesmente porque não há a quem recorrer; a um nome sequer. São informações soltas, que partiram de alguém em algum ponto do espaço-tempo e que permanecem circulando. E, pior ainda: por não se saber sua fonte, não se pode confiar no teor porque não se sabe por quantas ‘sub-fontes anônimas’ elas passaram anteriormente nem por quantas adaptações foram submetidas.

Mas o boato termina quando alguém fala. Uma pessoa, devidamente identificada com nome, sobrenome, idade e profissão é uma fonte. A informação por ela repassada pode ser verdadeira ou falsa, mas, independente disso, ela perde o rótulo de boato. Cabe ao jornalista checar a veracidade da informação, quando ela for plausível. Veja bem: plausível. Não cabe ao jornalista o papel de juiz para definir se é verdade ou mentira, mas buscar quem possa contestá-la ou simplesmente desmenti-la. Outra coisa importante: nem sempre uma informação pode ser desmentida; há ocasiões em que ela é apenas contestada – e isso precisa ser levado em conta.

Quando jornalista e leitor se confundem

Mas o público não enxerga muito bem essa diferença. O público, como já disse, toma partido rápido demais, como se acusar ou defender fosse algo fundamental para qualquer situação. O jornalista, independente de sua visão particular de mundo, não deve ser prender a preconceitos ou a julgamentos. Não é cabível a este profissional que decida se escreve ou não sobre algo a partir do simples acredito ou não acredito. Jornalistas não são advogados, promotores ou juízes, como já andaram afirmando certos radialistas.

Se jornalistas começarem a decidir quem ouvem baseados apenas em sua crença particular e intransferível, aí eles se tornam justamente o que o público diz que mais odeia: um jornalista parcial. Se jornalistas que cobrem crimes, por exemplo, começarem a dar ouvidos apenas a quem eles acreditam, ou vão dar voz ao taxado como bandido ou à polícia – e jamais a ambos, como presa o bom jornalismo. Jornalismo é contradição, basicamente. Sem contradição, não há jornalismo.

E por haver necessidade de contradição deve-se ouvir todos, sem as armadilhas das crenças pessoais. Aliás, crenças pessoais e ideologias (políticas ou não) só existem porque quem as escolhe sabe e conhece o que dizem outras crenças e ideologias. Não se pode acreditar no bem se não se acredita no mal. Não se pode acreditar em Deus sem acreditar na existência do Diabo. Uma coisa implica a outra.

O público pode até não escrever em um jornal. Ele não tem a mesma responsabilidade de um jornalista que escreve para esse público. Mas é fundamental, por parte de quem lê os jornais e os critica, saber definir até onde vai e por onde não vai o papel do jornalista. É apenas uma questão de bom senso. Quando o público assumir essa responsabilidade, do mesmo modo como têm de fazer os jornalistas, aí ele saberá definir o que é boato do que é notícia.

O público, hoje também emissor, pode até não concordar. Se for o caso, que opine sobre o assunto e deixe apenas de achar. Sempre digo que não existe imparcialidade. Mas isso não implica em falta de responsabilidade. Responsabilidade esta que o público, diante dos novos rumos dos processos comunicativos onde jornalista e leitor se confundem, também precisa ter.

******

Estudante de Jornalismo, Manaus, AM