Tuesday, 21 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Um papiro contra blasfêmias

 

A mais eficaz contestação é sempre a mais espontânea, não há melhor resposta aos absurdos do que a lógica límpida dos fatos. Esta dialética natural comprova-se ao comparar o furor produzido pelo clipe anti-Maomé e a sua antítese imediata (menos de uma semana depois): a divulgação de um minúsculo fragmento de papiro do século IV onde se revela a possível existência de um “Evangelho da Mulher de Jesus”.

O clipe é estúpido, não ameaça nem desafia os fundamentos do Alcorão e, no entanto, está provocando um terremoto no mundo islâmico. Mas a tradução do pequeno texto divulgado pela Universidade Harvard poderá revolucionar o que se convencionou designar como “Jesus histórico” e, eventualmente, questionar dogmas da teologia cristã.

Apesar do frisson, ninguém tentou vandalizar a mais antiga universidade norte-americana, nem atacar a pesquisadora Karen King, responsável pela pesquisa. Não houve pressão para censurar os meios de divulgação que trataram do assunto com fartura de detalhes. A descoberta arqueológica foi tratada como especulação científica, encaixada nas seções de “Ciência” da grande mídia, onde ficará até que seja validada ou contestada.

Modelo bem-sucedido

A insana reação de fanáticos islâmicos e a fleumática reação do mundo ocidental diante da possibilidade de ter existido uma discípula de Jesus, embora separados, compõem um panorama fascinante das percepções contemporâneas. Não há um choque de civilizações (como invocava o apocalíptico Samuel Huntington), mas uma assimetria iniciada há dois milênios em busca da convivência entre fé e razão.

Cerca de um século depois da morte do profeta Maomé – lapso irrisório em termos históricos – os mouros já ocupavam grande parte da Península Ibérica e promoviam um formidável impulso cultural no sul da Europa através do encontro das religiões e culturas abraâmicas.

O império otomano irradiou-se do Oriente Médio à África do Norte e Europa Central, mas sua ruína tornou-se inevitável quando a habilidade política dos califas mostrou-se incapaz de gerar o mesmo dinamismo da Europa Ocidental. Perderam o bonde dos descobrimentos, da Renascença, do Iluminismo e da Revolução Industrial. Não se permitiram algo semelhante à Reforma que sacudiu, conflagrou, mas também dinamizou o cristianismo ocidental a partir de 1517.

Aquele império multinacional, imenso, imóvel, manteve-se subjugado pela religião ao longo de quase um milênio. Desmanchou-se no final da Primeira Guerra Mundial, batido junto com os seus parceiros dos impérios austro-húngaro e prussiano.

Os movimentos de modernização islâmicos que se seguiram, além da bandeira nacionalista desfraldaram o banner do laicismo – a completa separação entre religião e Estado. Pretendiam recuperar o tempo perdido. Mustafá Kemal, o Ataturk, foi o primeiro e o mais bem-sucedido ainda nos anos 20 do século passado. A Turquia de hoje é sua herdeira.

Melhor caminho

Nos anos 1950, no Egito, os jovens oficiais liderados pelo general Nagib (e depois pelo coronel Gamal Nasser) derrubaram a monarquia e esmagaram a reação da Fraternidade Muçulmana que se opunha ao secularismo. Pouco antes, surgira na Síria o Baath, partido da Renascença, eminentemente laico (socialista e pan-árabe) que se estendeu ao Iraque e no qual se destacaram Saddam Hussein e Hafez Assad (pai do ditador Bashar).

Yasser Arafat, no anos 1960, tirou o movimento de libertação da Palestina das mãos das lideranças religiosas, tentou dar-lhe uma sustentação política (embora ensanguentada pelo terrorismo), que persiste até hoje na Autoridade Palestina, igualmente laica, ao contrário dos radicais Hamas e Hezbollah.

A primavera árabe iniciou a derrubada de déspotas e o culto ao voto universal, mas esqueceu a disfunção central, o forte componente teocrático. O fundamentalismo ocidental, criado para combater o darwinismo no fim do século XIX, passou a sentir-se livre para desafiar e provocar exacerbações.

A cruzada de blasfêmias não é o caminho para a convivência. Não é o que pregaria a suposta discípula de Jesus de Nazaré que agora despontou no fragmento de um papiro.

 

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