Friday, 19 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

A crise do jornalismo crítico na ESPN Brasil

Foto: Reprodução/ESPN

Mauro Cezar Pereira cobrou colega por posicionamento, em sua despedida do Linha de Passe. Ao lado do apresentador do programa da ESPN Brasil, Paulo Andrade, o comentarista questionou Vitor Birner por dizer-se receoso com os detratores nas redes sociais. O medo dos famosos haters fez o jornalista assumir que preferia não citar nomes de jogadores do São Paulo que a torcida adora, mesmo que, em sua visão, eles atuassem mal com frequência pelo clube. Quando tentou fugir de uma possível repercussão negativa na internet, foi cobrado pelos dois colegas, que consideraram inadmissível tal omissão.

“Faz parte do nosso trabalho”, bradou Mauro, consternado com o medo do comentarista em desenvolver seu raciocínio sem amarras. No formato de mesa redonda, o Linha de Passe se baseia na opinião dos seus participantes. Foi com essa perspectiva que o comentarista e o apresentador do programa afirmaram que Vitor Birner precisava expor os seus pensamentos sem autocensura, sem receio de possíveis reclamações dos torcedores nas redes sociais.

O que o público não sabia é que o dia 30 de dezembro de 2020 marcaria a sua última participação na emissora. A saída de Mauro Cezar Pereira da ESPN Brasil aconteceu em virtude do não acerto contratual entre as partes, uma vez que o canal, de propriedade da Disney, queria exclusividade do jornalista, que trabalha também em outros veículos, além do seu próprio canal no YouTube. A despedida, no entanto, não poderia ser mais a feição de Mauro, reconhecido por ser direto e sério, sempre prezando pela informação checada e pela opinião sincera.

Depois de 16 anos na emissora, a saída do jornalista, especialmente com essa participação derradeira no final de 2020, coloca um ponto final na imagem que a ESPN Brasil construiu ao longo dos anos. Um dos principais responsáveis para essa boa reputação foi a direção de José Trajano, sempre preocupado em manter uma visão jornalística mais crítica, do esporte e da sociedade, com ênfase maior na informação do que no entretenimento. Hoje, não apenas Trajano não está mais no canal, mas nomes importantes para a sua consolidação, como Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho, Helvidio Mattos, Eduardo Tirone, Arnaldo Ribeiro e muitos outros.

Gostemos ou não dos posicionamentos de Mauro Cezar Pereira, ele representava uma geração que era não apenas direta em suas opiniões. Mais do que isso, abordavam questões mais abrangentes e transversais do esporte. Mauro, por exemplo, trata com frequência de dois casos pesarosos de 2019 que vão para além do campo. O primeiro é a tragédia no Ninho do Urubu, em que jovens jogadores do Flamengo morreram em um incêndio nas dependências do clube; todo dia 08 de cada mês (o acidente foi nesta data, em fevereiro), ele atualiza o andamento do processo. O segundo caso recorrentemente tratado pelo jornalista é a injustiça contra Robson Nascimento, preso na Rússia por levar remédio do Brasil para o sogro do jogador Fernando, para quem trabalhava de motorista.

É como diz o podcast que Mauro integra ao lado do colega Lúcio de Casto, também ex-ESPN Brasil, jornalismo esportivo é “muito mais do que futebol”.

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Allysson Martins é professor de Jornalismo e coordenador do MíDI – Grupo de Pesquisa em Mídias Digitais e Internet na Universidade Federal de Rondônia (UNIR). É autor do livro “Jornalismo e guerras de memórias nos 50 anos do golpe de 1964”.