Monday, 17 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Por que o fim da Central do Apito foi um erro jornalístico?

(Crédito: Reprodução-SportTV)

Há quem acredite que o jornalismo esportivo não se enquadre perfeitamente naquilo que conceitualmente se compreende como jornalismo, tendendo mais ao entretenimento. Embora eu não concorde com essa posição e não tenha a pretensão de discutir isso aqui e agora, é fato que independentemente de se tratar de jornalismo ou não, a cobertura esportiva interessa às pessoas e, portanto, suas práticas de alguma forma se relacionam com princípios canônicos do jornalismo. Assim são as transmissões dos jogos de futebol pela televisão, por exemplo, que atraem milhões de espectadores interessados em acompanhar os jogos. Exigem compromisso dos narradores, repórteres e demais envolvidos nas coberturas, ainda mais por se tratar de um assunto que é uma paixão nacional.

Por isso, diante de toda essa responsabilidade, fica ainda mais difícil entender as razões que levaram a Rede Globo a terminar com uma prática que se tornou tradição na emissora e ajudava o público a compreender e avaliar decisões dos árbitros em campo, que é a presença de ex-árbitros como comentaristas de arbitragem.

Nos últimos anos, conhecida como Central do Apito, a iniciativa consistia em uma espécie de “plantão” da arbitragem durante os jogos com transmissão nos canais da emissora, seja na TV aberta ou nos canais fechados, como SporTV e Premiere. Em caso de algum lance polêmico, como um possível pênalti, ou uma expulsão de jogador, algum ex-árbitro da equipe da Central de Apito era acionado para avaliar e explicar a decisão que o árbitro tomou em campo. Ainda havia um programa semanal, com o mesmo nome, que tinha a presença dos ex-árbitros avaliando a arbitragem da rodada anterior.

É verdade que nem sempre havia concordância entre o que o comentarista falava e a decisão que o árbitro tomou em campo, mas até mesmo essa divergência ajudava o espectador entender mais sobre a arbitragem. Nem tudo é consensual nesse meio e há bastante espaço para interpretação.

No fim, era uma prática informativa e também educativa. Quem assistia aos jogos, aprendia sobre as regras e as novidades nas regras – já que elas sempre estão em mudança –, entendia as decisões dos árbitros e, diante desses comentários técnicos, poderia tirar suas próprias conclusões e avaliar o trabalho da arbitragem com base em argumentos de quem realmente entende do assunto. Também poderia discordar do comentarista.

Essa era também uma prática histórica na Rede Globo. Desde 1989, a emissora contava com ao menos um ex-árbitro na equipe de transmissão, uma tradição iniciada com os comentários de Arnaldo Cezar Coelho, que consagrou o bordão “a regra é clara”.

A iniciativa chegou ao fim em março de 2023. A justificativa que a Globo apresentou, segundo O Lance!, foi que com a implantação do árbitro de vídeo (VAR) as questões de arbitragem foram recebendo outro tipo de tratamento e o VAR foi oferecendo respostas a elas durante os jogos. Por isso, apenas um ex-árbitro foi mantido na equipe, Paulo César de Oliveira, que não mais aparece durante as transmissões, mas apenas eventualmente em alguns programas esportivos pós-jogo para avaliar decisões polêmica dos árbitros.

Embora essa decisão da emissora tenha até deixado alguns árbitros aliviados, pois esses acreditavam que a Central do Apito polemizava desnecessariamente o trabalho da arbitragem, agradar ou desagradar árbitros, treinadores, jogadores, torcedores e quaisquer outros personagens de uma partida de futebol não é o papel do jornalismo esportivo.

Aliás, não é o papel do jornalismo, de modo geral, agradar a ninguém. É papel do jornalismo informar e educar as pessoas – e nesse caso são muitas as que consomem as transmissões esportivas – sobre os acontecimentos, suas razões e consequências.

Por mais que os jornalistas que façam parte das equipes de transmissão se capacitem, estudem e estejam por dentro das regras, a opinião de um ex-árbitro funciona como um argumento de autoridade, um princípio básico do jornalismo. Só eles estiveram em campo apitando jogos e tomando decisões difíceis, capazes de definir os rumos de uma partida e os sentimentos de milhões de pessoas. Outros canais esportivos deram sequência à tradição criada pela Rede Globo e ainda seguem com ex-árbitros em suas equipes, e a diferença nas transmissões é gritante.

Certamente a Central do Apito tinha seus defeitos e, por isso mesmo, poderia ser aprimorada, mas com ela tínhamos a possibilidade de duvidar, questionar e refletir. Sem ela, milhões ficam órfãos de qualquer comentário técnico. Demos um passo atrás e voltamos a um momento no qual as opiniões infundadas ganham espaço para se tornam verdade e se cristalizar na cabeça dos telespectadores. O achismo prevalece. Ainda acredito que o jornalismo esportivo é jornalismo, mas decisões como essa criam dúvidas sobre o quanto credibilidade e transparência são valores obedecidos por ele.

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João Victor Gobbi Cassol é Mestrando no PPGJOR/UFSC, pesquisador do objETHOS e do Grupo Biosofia (Pesquisas e Estudos em Filosofia) URI-FW