Friday, 19 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

A responsabilidade ainda maior do jornalismo local em tempos de pandemia

(Foto: Matheus Ferrero/ Unsplash)

As primeiras semanas de pandemia da covid-19 deixam claro, mais do que nunca, a importância do jornalismo de qualidade para a sociedade. Em tempos de governos não transparentes, de fake news e pânico, o trabalho jornalístico ajuda a orientar a sociedade em meio aos acontecimentos, que são inéditos. Mas eu quero escrever sobre um jornalismo mais específico: o local.

Há imensa oferta de informação sobre o país e o mundo nos jornais impressos, sites, canais de televisão e estações de rádio. Porém, para saber de uma situação de uma região mais específica, sobretudo no interior, é necessário recorrer ao jornalismo local ou regional. Sabemos, pelo Atlas da Notícia 2019, que 62% dos municípios brasileiros não possuem cobertura local. O que, por si só, é grave, mas ganha outra dimensão em meio a uma pandemia. Imaginem as pessoas que moram longe e querem saber da situação na sua cidade natal? É claro que, ao conversar com as pessoas, é possível ter um panorama, mas não é o mesmo que o trabalho jornalístico.

Por outro lado, para os residentes nessas localidades, mais do que nunca o jornalismo é essencial para informar acerca de tudo que interessa, desde utilidade pública em atendimentos de saúde, número de infectados e vítimas até outras questões, como calendário escolar e horários de abertura do comércio, entre outros. Só pra citar a utilidade pública, sem contar as outras pautas em destaque neste cenário.

Pior do que não ter veículos que deem conta de noticiar acerca dessas cidades, me preocupam ainda mais as rádios, jornais e sites existentes que deixam a desejar na cobertura neste momento. Relembro que estamos em uma pandemia, falando de informações vitais, compromisso, ética e responsabilidade.

No Brasil, a polarização política atinge o enfrentamento da doença e isso influencia o tom da cobertura jornalística, o que se torna perigoso. Aqui, não podemos ser ingênuos e pensar que, sobretudo no interior, o jornalismo é o teórico dos bancos universitários. Não é. É comum que o jornalismo seja balizado pelos anunciantes – neste caso, em sua imensa maioria, comerciantes e empresários. Grande parte dos que fizeram carreatas em várias cidades do país negando a letalidade da doença, pedindo a abertura de todas as atividades e, de quebra, atacando a ciência e órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Como o jornalismo local deve agir diante deste impasse? Qual deve ser a postura? Apoiar o discurso de quem paga os salários ou ser minimamente responsável e apontar as contradições destas ações?

A resposta parece óbvia, mas, quando falamos de dinheiro, sabe-se que a situação ganha outra dimensão – ainda mais no jornalismo local, totalmente dependente de anunciantes. Quem já trabalhou nestes veículos sabe que o departamento comercial e jornalístico às vezes é o mesmo. Isso jamais foi bom para o jornalismo, mas agora, em meio a uma pandemia, as consequências são muito mais sérias, talvez como nunca tenham sido.

Se o jornalismo, especialmente o local, se alinha a esse discurso do governo e de seus apoiadores, nega a pandemia, condena o isolamento social (comprovado cientificamente como a única maneira de frear a propagação do vírus) e ataca a ciência, o que faz, senão um ataque à saúde, à população? Poucas coisas podem ser tão antiéticas e perigosas como isso hoje.

Não é preciso ser jornalista para entender que essa postura é grave e vai contra todos os princípios do jornalismo, atividade que não pode ser cúmplice dessas atitudes. Nesse sentido, podemos citar o artigo sexto do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que inclui como deveres do jornalista:
I – opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos; II – divulgar os fatos e as informações de interesse público.

A postura minimamente esperada do jornalismo local nestes tempos de pandemia é pensar primeiro na vida das pessoas. É necessário ter consciência de que, apesar dos ataques à imprensa, muitas pessoas levam a sério o jornalismo local e, por essa e outras razões, deve prezar pela verdade e pela qualidade. É hora de desmascarar as mentiras, independente de quem as tenha divulgado. Nunca foi tão importante ter um jornalismo local forte e responsável em defesa do bem comum, da prevenção e de divulgar as ações essenciais para frear a pandemia. Se isso for feito agora, é uma maneira de evitar que as manchetes no futuro sejam estampadas com números de mortos pela pandemia, que é real.

Além de não se aliar ao discurso negacionista, o jornalismo local pode utilizar este momento para se firmar ainda mais, como muitos veículos de referência têm feito. Não se trata de aproveitar a situação, mas sim de relembrar, nesta época de ataques, que a liberdade e o direito à informação são pilares da democracia – e no Brasil, atualmente, isso não é clichê.

A cobertura da covid-19 é vital e deve ser feita da melhor maneira, sem economizar nos dados científicos, nos fatos, nas entrevistas com profissionais de saúde, com autoridades, nas histórias de quem está na linha de frente do combate à doença. Mesmo com estruturas pequenas e as limitações impostas pelas restrições de circulação, profissionais devem ter em mente que, neste momento, mais ainda, o bom jornalismo ajuda a salvar vidas.

Aliás, talvez agora finalmente tenha chegado a hora de entender a lógica correta: a qualidade é o que fortalece, gera audiência e lucro, não a economia de pessoal e trabalho. Esta última é a lógica que impera na maioria dos veículos pequenos, que, ao mesmo tempo em que fazem um trabalho mediano, reclamam da concorrência das informações que circulam no WhatsApp e nas páginas do Facebook, apontados como vilões. É hora de se posicionar e aproveitar o poder da informação para se mostrar essencial na vida das pessoas nas comunidades.

Estamos vivendo um momento ímpar na história e o futuro é incerto. No entanto, está claro que a postura de agora é que vai definir como a sociedade irá sobreviver quando a pandemia passar. O jornalismo local não pode escolher ficar do lado obscuro da história, seja por comodismo ou por dinheiro.

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Amanda Rafaela de Lima é jornalista e mestre em Comunicação.