Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Bolsonaro, o jornalismo e a marcha das mulheres: entre silenciamentos e agressões

Feministas lutam por direitos em Vitória no Dia Internacional da Mulher.(Foto: Mariana Carvalho/G1)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passou os últimos dias brigando com a imprensa, mas com alguma novidade. Desta vez, resolveu discutir a relação: “Se a imprensa diz que eu ofendo todo dia, o que estão fazendo todo dia ali [na entrada do Alvorada]?” (05/03). “Quando vocês aprenderem a fazer jornalismo, eu converso com vocês” (06/03). “O dia que vocês se conscientizarem que vocês são importantes fazendo matérias verdadeiras, o Brasil muda” (05/03).

Ombudsman

A maior autoridade do país, que outro dia entregou o cargo a um comediante, faz também o papel de ombudsman no jornalismo. Quem o ouve falando pensa até em fixação pela verdade, embora saiba que ele não a vivencia na Presidência e a torna relativa sempre que as circunstâncias dão uma brecha. É o mesmo que diz que, por meio da verdade, os jornalistas vão ser decisivos para mudar os rumos do Brasil.

Será que Jair Bolsonaro considera razoável justificar o desastre de sua gestão pela falta de compromisso dos jornalistas com a verdade? Por fim, afirma ter certeza que os jornalistas não sabem fazer jornalismo. Cabe a réplica: saberia ele governar? Aliás, não estaria aí o problema da relação? Desde o ano passado, temos buscado observar como Jair Bolsonaro vem se relacionando com a atividade jornalística. O cenário é de escalada dos ataques aos profissionais e veículos. Veja: A biruta do jornalismo e a ventania autoritária; “Ocê” sabe de quem é a culpa? Da imprensa, é claro!

Quando estranha que jornalistas estejam na sua porta, finge não conhecer o trabalho da imprensa. Jornalistas não fazem cobertura sobre o Jair Messias e suas vontades. Eles cobrem a instituição Presidência da República, que sempre será fonte de notícia pelo simples fato que há alguém sentado na cadeira presidencial. E os jornalistas não têm obrigação nenhuma em agradar com suas perguntas.

Parece simples, mas escrevi até aqui para dizer que é cada dia mais forçada a crise institucional entre o presidente e a imprensa. É proposital, de caso pensado. Ter a imprensa sob ataque faz parte do jogo político de Bolsonaro. O pior é que, pelas poucas reações que isso desperta, parece funcionar.

Na bronca

Curiosamente, na semana que passou, eu e o presidente tínhamos o mesmo sentimento de bronca em relação à imprensa. E por motivos opostos.

Na tarde da sexta-feira, 6 de março, uma verdade incontestável ocupou o centro da cidade de Vitória, no Espírito Santo. Ali foi realizada uma marcha das mulheres que antecipou as comemorações do Dia Internacional da Mulher, no domingo (8 de março). Uma marcha que reuniu dezenas de camponesas, quilombolas, mulheres da cidade, vinculadas aos sindicatos, movimentos sociais e coletivos diversos. Estavam ali para denunciar todas as formas de violência que as fazem vítimas.

Outra verdade presente no mesmo lugar e horário: ao ocuparem as ruas do centro, as mulheres produziram o efeito de um enorme engarrafamento no trânsito. Maior do que o de toda sexta-feira. E sobrou irritação para motoristas e pedestres.

Silenciamento e invisibilidade

Nem se quisessem, os jornalistas poderiam deixar de citar o engarrafamento em seus relatos. Contudo, deixaram de informar sobre a marcha das mulheres. Protestavam contra o quê? Quem eram aquelas mulheres? Interagiram com pedestres, motoristas, comerciantes e clientes que lá estavam? Quais eram suas palavras de ordem?

Em duas rádios, na cobertura ao vivo, ouvi o de sempre sobre o trânsito pesado do horário, que ficou pior por causa de “uma manifestação” ou “um protesto que ocupa a Jerônimo Monteiro”. Sim, não havia, ao que parece, repórteres das rádios no local. Portanto, nenhuma informação a mais sobre o ato. E nada de entrevista com uma de suas representantes. Os únicos relatos do que ocorria chegaram através da participação de motoristas e de um guarda municipal, de maneira colaborativa, para a prestação de serviço em uma das rádios.

Em duas emissoras de TV, no noticiário de mais tarde, nada também dos detalhes. Em uma delas, o máximo que foi dito, em cinco segundos, foi que o protesto era das mulheres exigindo um basta à violência. Na outra, nem isso. Só a referência a “um protesto” (sem rosto, sem imagem, sem uma pauta) no já tumultuado centro da capital capixaba.

Sobram perguntas: qual o propósito da imprensa em tornar invisível uma manifestação daquela? Aliás, antes, com que direito ela faz isso, se o papel dos jornalistas é reportar fatos e de forma completa? Não se pode esquecer: protesto e trânsito eram, na tarde de sexta, os dois lados de uma moeda chamada notícia. Sim, a velha e boa notícia, que não muda seja com qual tecnologia for produzido o jornalismo.

Porém, os fragmentos dessa cobertura nas quatro emissoras, das que pude acompanhar, tornaram invisível não apenas um protesto legítimo e necessário na atual conjuntura do país. Deixaram ainda mais silenciados os argumentos com os quais costumamos sair em defesa da liberdade de imprensa, de um jornalismo comprometido com a verdade e focado no interesse público.

Reação necessária

Se conscientemente ou não, se por preconceito ou não com os movimentos sociais e sindicais (aliás, algo que vem desde os protestos contra as reformas da Previdência e trabalhista), ou mesmo por alinhamento ao governo e sua agenda reformista, o fato é que parte do jornalismo capixaba baixou “a guarda para o inimigo”, como se diz. Não cumpriu o seu papel e silenciou um lado essencial da notícia. Esqueceu do compromisso com a verdade.

Na queda de braço com um governo que não respeita a democracia, nosso jornalismo fez sinal de que está conformado em aceitar a humilhação diária, no “cercadinho do palácio”, onde vai continuar sofrendo ataques. Passou da hora das redações despertarem.

Vai parecer que fazem parte da oposição a um governo que persegue jornalistas e jornais? Desculpem, mas vai sim, embora seja antes o preço da atividade de ser um pilar importante para a democracia. Que volte a conquistar “mentes e corações”, a começar por simplesmente fazer cobertura sobre o que ocorre. Já será um ato quase revolucionário.

Fabiano Mazzini é jornalista, professor do curso de Jornalismo do Centro Universitário Faesa e mestre em História pela Ufes.