Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Jornalismo em Angola: entrevista com José Luís Mendonça

“As mídias sociais abriram espaço para temas cruciais. Uma das principais questões em Angola é o processo eleitoral”. (Foto: Divulgação)

José Luís Mendonça é jornalista angolano licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Luanda. Seu trabalho é bastante reconhecido na imprensa angolana, onde dá voz a suas preocupações sociais, com especial atenção à cultura e às artes. Atualmente ele escreve para o jornal Correio Angolense.

Ex-diretor da recentemente desativada revista Cultura, Mendonça é também escritor e sua produção literária reflete sobre as pessoas e a vida em seu país. “Chuva Novembrina” (1981), “Respirar as Mãos na Pedra” (1989) e “Quero Acordar a Alva” (1997) são algumas de suas obras premiadas. Abaixo, uma entrevista com ele.

Enio Moraes Júnior – No seu último romance, “Se os ministros morassem no Musseque” (2019), você se volta para a questão da libertação de Angola, tema recorrente na literatura do seu país. Qual o papel da imprensa local, hoje em dia, na manutenção dessa memória?

José Luís Mendonça – A libertação de África é uma construção contínua. Nós, na África, ainda não somos livres, apesar de termos nacionalidade e bandeira. A principal forma de controle endógeno é a negação completa da guerra de libertação. O ex-colono europeu foi substituído por outro colono: um negro capaz das mais inconcebíveis atrocidades e violações dos direitos humanos. Este é o tema principal do meu romance “Se os ministros vivessem no Musseque”. É fato que ainda durante a chamada guerra de libertação houve uma grande fratura no interior do movimento libertário e a corrupção já era uma doença transferida para o Estado nascente, como narra o angolano e ex-guerrilheiro Pepetela no seu livro “Mayombe”. Os ministros no poder abrem um buraco profundo entre eles e os milhões de cidadãos. Em Angola e no Congo, existe um fenômeno denominado “cabritismo”, retirado do provérbio bantu “o bode come onde está amarrado”, que dá “permissão” para comer o patrimônio do Estado. Para evitar a indignação popular das pessoas que enfrentam a pobreza, existe uma poderosa máquina militar, policial e intelectual financiada por grande parte do orçamento do Estado. A educação e a saúde são tão precárias que os líderes do partido do governo vão para o exterior para qualquer tratamento e as principais fortunas obtidas por meio de peculato foram transferidas para fora do país.

EMJ – Você é um escritor e jornalista com grande reconhecimento nos dois setores. Como estabelece os limites entre essas duas áreas?

JLM – O grande limite é que o jornalismo não é ficção. De resto, literatura e jornalismo caminham de mãos dadas na sagrada missão de abrir consciências e denunciar a opressão, como no caso do colonialismo.

EMJ – As redes sociais mudaram o jornalismo em Angola e na África? Como você avalia a ocupação desses espaços por cidadãos de seu país?

JLM – Sim, mudaram. As mídias sociais abriram um espaço interativo e virtual para a formação massiva de opinião sobre temas cruciais. Uma das principais questões em Angola é o processo eleitoral. As pessoas querem rotação no poder, dado que o partido no comando no país durante 45 anos não foi capaz de usar os diversos recursos naturais para instaurar o Estado social de bem-estar. Atualmente, o foco principal da juventude angolana são as eleições de 2022. Os jovens criaram um slogan que diz “Em 2022, você (o presidente João Lourenço) vai gostar”. De que que ele vai gostar? Um voto contra o ‘status quo’. Entretanto, este slogan parece bastante improvável, face à manipulação dos boletins de voto pela CNE (Comissão Nacional Eleitoral), como se viu no passado recente. Mas a consciência geral da mudança apareceu graças às redes sociais.

EMJ – Como você avalia a produção jornalística em Angola no que se refere à defesa das pessoas pobres e dos direitos humanos?

JLM – Em Angola, tem que se levar em conta a armadilha do desemprego do profissional de mídia. Dado que quase todos os órgãos de comunicação estão nas mãos do Estado (do partido no poder), deve-se provar fidelidade ao regime para atuar nesses órgãos. Os administradores, diretores e editores devem ser militantes do partido. Isso representa um grande obstáculo à liberdade de expressão. É quase impossível encontrar empregos na mídia privada. É por isso que escrevo para o Correio Angolense eletrônico, um veículo independente, mas não sou pago para isso. Escrevo como um imperativo de consciência. Artigos em defesa dos pobres mortos pela polícia não podem ser publicados no Jornal de Angola, o principal órgão diário do país. É um paradoxo. Um tema que pode ser abordado é a luta contra a corrupção, ainda assim com certas limitações. Na mídia pública, não se pode falar de alguém do alto escalão da comitiva do presidente ou do Poder Judiciário envolvido em casos de peculato. Se o caso incluir oficiais militares de alto escalão, então, é um tabu.

EMJ – A luta dos pequenos jornais pela liberdade de imprensa chama a atenção do jornalismo angolano, como se pode verificar pela atuação da Folha 8. O que se pode dizer do jornalismo local no seu país?

JLM – A Folha 8 é um pequeno jornal com histórico de lutas. Foi o primeiro jornal a começar a reportar as ações de vandalismo da UGP (Unidade da Guarda Presidencial), acusada de espancar e até matar cidadãos. Foi uma atitude corajosa em uma época em que a liberdade da mídia ainda era muito limitada. O seu diretor, William Tonet, foi o jornalista mais procurado em Angola até 2017. O jornalismo local em Angola continua lutando para encontrar um lugar ao sol. Hoje, a Folha 8 está praticamente restrita à internet, assim como o Correio Angolense. Alguns jornais privados apareceram nos últimos 10 anos, mas seus custos não são acessíveis para trabalhadores e estudantes. O outro problema é que quase 99 por cento dos estudantes em Angola nunca adquiriram hábitos de leitura.

EMJ – Você é formado em direito e presumo que esse tenha sido o ponto de partida para sua carreira de jornalista. Há alguns anos, Angola oferece cursos com formação especial em comunicação e jornalismo. Qual é a melhor forma de ser jornalista nos dias de hoje: com uma vasta experiência como a sua ou com uma formação específica?

JLM – O bom jornalismo requer ampla experiência. Comecei a escrever artigos aos 17 anos, em 1972. Sou jornalista autodidata. Me formei em Direito apenas em 2010, mesmo ano em que completei 55 anos. Mas os dois aspectos são relevantes: experiência e formação. O auto treinamento consiste em lidar com análises sistemáticas de jornais de todo o mundo e da mídia em geral, bem como acompanhar ensaios sobre novas tendências e estudos sobre mídia e jornalismo. Hoje sou professor universitário de português em curso de Comunicação Social e quase 99 por cento dos meus ex-alunos não conseguem encontrar emprego. O setor de mídia está saturado. O Estado deve, portanto, refletir sobre a educação superior e as necessidades práticas do desenvolvimento nacional.

Esta entrevista faz parte de uma série sobre jornalismo no mundo, uma iniciativa do pesquisador e jornalista Enio Moraes Júnior, juntamente com o Alterjor — Grupo de Estudos de Jornalismo Popular e Alternativo da Universidade de São Paulo. As entrevistas são originalmente publicadas em inglês no Medium.

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Enio Moraes Júnior é jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Acesse o portfólio do autor: EnioOnLine.