Quinta-feira, 22 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

O videomonitoramento da Muralha Digital é garantia de segurança em Curitiba?

Estudantes direcionaram a pauta para a Muralha Digital. (Foto: Hully Paixa/ Divulgação SECOM PMC)

Os estudantes da disciplina de Jornalismo Investigativo, ofertada ao sétimo período do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), foram desafiados a desenvolver diferentes propostas de pauta voltadas ao jornalismo de dados. Um dos grupos, composto pelos alunos Gustavo dos Reis, Mariana Uniati, Ricardo de Siqueira e Stephanie Carneiro, demonstrou preocupação com a insegurança na região central de Curitiba diante de relatos recorrentes de comerciantes e moradores e da frequente cobertura de episódios de criminalidade na região pelos veículos de comunicação, especialmente telejornalísticos.

A equipe passou a delimitar o foco, o problema e a hipótese da investigação. Os estudantes precisaram compreender a relação entre a hipótese e o tema escolhido e realizar uma apuração preliminar, que envolveu a análise de cinco reportagens sobre o assunto, a identificação de fontes jornalísticas e bancos de dados e a contextualização da pauta. O processo também incluiu o aprofundamento de subtemas e a descoberta de novas fontes capazes de ampliar a compreensão do problema investigado.

No decorrer da apuração, entretanto, o grupo decidiu pivotar a pauta e direcionar o olhar para a Muralha Digital de Curitiba. O novo gancho e a hipótese relacionados ao sistema surgiram a partir de uma contribuição do estudante Gustavo dos Reis, que conhecia profissionais com atuação na Muralha Digital de São José dos Pinhais.

Com a pauta redefinida, os estudantes iniciaram a busca por informações em bancos de dados e passaram a desenvolver reflexões sobre espaço público, segurança e vigilância urbana. O objetivo era testar a hipótese jornalística a partir de dados e fontes reais. Para isso, a equipe buscou compreender aspectos relacionados à transparência dos dados, ao funcionamento e ao controle da Muralha Digital em Curitiba. Lançada em 2021, integra um sistema com mais de 2.100 câmeras fixas e móveis utilizadas no monitoramento de parques, praças, ruas, escolas e áreas de grande circulação de pessoas.

A investigação passou, então, a buscar evidências que permitissem avaliar a influência do pioneirismo de Curitiba no videomonitoramento inteligente sobre a segurança da região central da cidade. Como parte do processo de apuração, os estudantes realizaram solicitações por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). A partir dos dados obtidos, iniciaram as etapas de planilhamento, limpeza, organização e codificação das informações, distribuídas em duas abas de uma tabela, preparando o material para posterior processamento e visualização.

Para a construção das visualizações, foi indicada à turma a plataforma Datawrapper, utilizada na produção de infográficos, tabelas e mapas dinâmicos. Além disso, os estudantes recorreram ao NotebookLM, ferramenta de inteligência artificial generativa, para auxiliar na criação de um infográfico complementar, incorporando ao trabalho a experimentação de novas tecnologias aplicadas à produção jornalística.

Ao longo da produção da reportagem, os estudantes vivenciaram uma imersão nas práticas do jornalismo investigativo e de dados. O trabalho permitiu experimentar diferentes etapas de uma investigação jornalística: formulação e reformulação da pauta, construção e teste de hipóteses, pesquisa documental, levantamento de fontes, solicitação de informações por meio da LAI, organização e tratamento de dados, comparação entre municípios, visualização de informações e utilização crítica de ferramentas de inteligência artificial.

A experiência possibilitou aos estudantes compreender, na prática, alguns dos desafios enfrentados pelo jornalismo investigativo brasileiro na obtenção de informações de interesse público. O processo também evidenciou a importância da transparência pública e do acesso a informações que, embora relevantes para a sociedade, nem sempre estão disponíveis de maneira organizada e acessível em bases públicas de dados.

A reportagem “O olho que quase tudo vê: Muralha Digital e a insegurança curitibana” foi publicada no Portal Comunicare em 1º de julho de 2026.

Acesse a reportagem completa.

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Gabriel Alexandre Bozza é jornalista e possui doutorado em Ciência Política pela UFPR. É um dos professores responsáveis pela Agência Fatos Narrativas Midiáticas, que produz conteúdos para o Portal Comunicare, jornal laboratório da PUCPR, instituição da qual é docente.