Quinta-feira, 17 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1406

Violência contra mulheres indígenas no MA: cobertura experimental pelo Laborejo

(Mulher Akroá Gamella. (Crédito: Ana Mendes)

Um laboratório de jornalismo é sempre desafiador. A transição constante entre aquilo que queremos reproduzir da rotina de trabalho e aquilo que pretendemos experimentar, transpor. Um contínuo de relações éticas que precisam considerar repórteres em formação, fontes, personagens, referências e o público leitor. Esses papéis raramente são separados em pessoas distintas. 

Quando nos deparamos com a denúncia sobre uma crescente da violência contra mulheres indígenas no Maranhão, a pauta veio sugerida por uma de nossas integrantes – e posteriormente autora da reportagem. De forma verbalizada por mulheres conhecidas, mas acompanhada pelas notícias de casos de feminicídio com espaço na mídia do estado. Nas buscas iniciais, nenhum dado concreto. Tudo ainda por ser mapeado e organizado. No campo acadêmico, as pesquisadoras antropólogas encontravam as mesmas percepções. O contexto estava desenhado, seus sentidos coloniais explícitos. Mas a evidência concreta, materializável, ainda estava solta entre os bancos de dados da saúde e da segurança pública.

As estudantes e professoras do Laborejo, no processo formativo, iniciaram a construção da pauta em busca de dados, mas também de outras metodologias possíveis de abordagem do tema, de apuração e de realização das entrevistas. Especialistas, Estado e alguns depoimentos de mulheres não trariam a dimensão daquilo sobre o que estávamos discutindo: a complexidade de uma violência que precisava ser denunciada dentro das contradições sociais provocadas por movimentações coloniais, sem que isso reverberasse estereótipos e outras violências. 

Nós trabalhamos em duas frentes conjuntas: o levantamento e tratamento de dados – acionamos o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão; e na apuração local com o povo Akroá Gamella, na TI Taquaritua, onde realizamos uma oficina de comunicação para o enfrentamento à violência contra as mulheres. Nessa oficina, conversamos com a comunidade em um processo de apuração cujo fluxo não era de coleta de informações, mas de compartilhamento. 

Concomitante a esse processo, mantivemos os processos de apuração convencionais de entrevistas com movimentos sociais, especialistas e Estado; pesquisas documentais em reportagens já realizadas, trabalhos acadêmicos publicados e políticas públicas em andamento. O texto aprofundou-se e precisou ser dividido em duas reportagens, de acordo com a estrutura textual comportada pela Agência Pública de Jornalismo Investigativo, nossa parceira para a publicação das reportagens. 

Diante do material bruto, inclusive alguns elementos textuais que precisamos construir como mapas para entender a teia a ser narrada, nosso desafio era contar essa história sem apagar os tantos desdobramentos que ela convoca. As escolhas das palavras mais adequadas, dos sentidos que cada uma das autoras buscou construir em diálogo com aquilo que a comunidade quis apresentar; o entendimento de que os dados não eram absolutos e, portanto, a recusa do nosso lugar como sujeitas externas à reportagem. A edição foi outro longo processo de troca que, além da autoria, incluía também o veículo da notícia. E aquilo que nosso posicionamento ético reivindica. Especialmente diante da construção de jornalistas que pretendemos formar. 

A reportagem se desdobrou. A mídia local abriu espaço para a investigação. Ampliou a cobrança por políticas efetivamente transformadoras para garantir a segurança e o bem-viver dessas mulheres. Outras pautas ainda estão abertas. E o jornalismo não vai parar. 

Leia e reportagem

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Profa. Dra. Gisa Carvalho – Coordenadora do Laborejo (EsTreMa – UFMA). Jornalista. Professora do curso de Jornalismo e do PPGCOM da UFMA. Doutora em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais. Coordenadora de Gênero e Diversidade da UFMA.