Sunday, 03 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

A imprensa para além do cercadinho do Alvorada

Palácio Alvorada. (Foto: Presidência da República)

Desde a chegada de Bolsonaro à Presidência da República a imprensa vem sendo tratada com total desrespeito, o que também é um fator de estímulo para as constantes agressões a jornalistas, cinegrafistas e outros profissionais ligados à imprensa.

Por isso, a decisão da Folha de S.Paulo e do Grupo Globo de não realizar plantão no Palácio da Alvorada trata-se de uma atitude lúcida e necessária. Motivada pelas crescentes agressões verbais e físicas aos profissionais da imprensa, expostos ao risco, sem nenhum apoio do Estado.

É também simbólico que esse gesto aconteça num momento em que parcelas expressivas da sociedade e instituições se voltam para as consequências de investigações sobre interferência do Executivo na Polícia Federal — principalmente depois da divulgação do vídeo da reunião ministerial com exemplos de ilegalidades, falta de decoro, insensibilidade e despreparo para lidar com o contexto sanitário do país.

A imprensa tem se posicionado de forma crítica em relação a essas questões, cumprindo seu papel, o que contraria os interesses presidenciais.

Ricardo Kotscho já havia chamado atenção, em outras oportunidades, para a necessidade de se abandonar aquela grotesca cena matinal na porta do Alvorada. E, diante da decisão da Folha de S.Paulo e do grupo Globo de não mais fazer parte dessa cobertura, contextualizou, no seu blog, a situação.

Veja abaixo um trecho do texto:

“Tudo começa logo cedo, a cada dia, quando o presidente da República aparece no “curralzinho” do Palácio da Alvorada para açular seus devotos contra os repórteres, que são ofendidos por fazerem perguntas consideradas desagradáveis.

É ali que Bolsonaro se comunica diretamente com seu fiel eleitorado, em lives ou com comentários, em seguida, nas suas redes sociais para falar da sua realidade paralela.

Estimulados pelo exemplo que vem de cima, desde o início do governo os bolsominions se sentem liberados para agredir os profissionais e seus veículos, chamados de “lixo” pelo presidente.

Só na semana passada, uma repórter da TV Bandeirantes, em Brasília, levou uma bandeirada na cabeça e um cinegrafista da TV Globo foi agredido com o tripé da câmera, em Barbacena (MG).

Fotógrafos são chutados como cachorros nas manifestações antidemocráticas em apoio ao governo, sob os uivos e aplausos da matilha enfurecida, mas nada se compara ao que fez no sábado o dono do SBT (Sistema Bolsonarista de Televisão), Señor Abravanel, também conhecido por Silvio Santos, o mais sabujo dos sabujos.

Ao receber uma reclamação de Fábio Wejngarten, chefe da Secom, porque o presidente não gostou da reportagem sobre o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, Silvio Santos não teve dúvidas: para evitar problemas, simplesmente mandou suspender a exibição do telejornal do SBT e dispensou a equipe na tarde de sábado.

É a primeira vez que vejo o dono censurar a própria emissora sem dar maiores satisfações ao distinto público.

Boa parte dos palavrões do presidente e seus ministros naquele show de horrores exibido quase na íntegra, por ordem do STF, foram dirigidos à imprensa, o que só mostra que estamos no caminho certo, cumprindo nosso papel.”

Em reportagem na noite da segunda feira (25), a Folha de S.Paulo explicou os motivos da decisão.

“Nesta segunda-feira (25), apoiadores de Jair Bolsonaro hostilizaram jornalistas, numa prática que tem sido recorrente diariamente na porta da residência oficial.”

Pouco antes dessas agressões verbais, o presidente, ao passar perto dos repórteres, criticou a imprensa. “No dia que vocês tiverem compromisso com a verdade, eu falo com vocês de novo”, disse.

Alguns simpatizantes dele apoiaram respondendo “Isso aí”.

A Folha questionou sobre o episódio desta segunda o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), responsável pela segurança do Alvorada, e a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom). Não houve resposta até a conclusão desta reportagem.”

Já o grupo Globo publicou no G1 a íntegra da carta enviada ao Ministro Augusto Heleno.

A seguir, a íntegra da carta encaminhada pelo Grupo Globo ao ministro Augusto Heleno:

“Ao cumprimentar V.Exa., trazemos ao conhecimento desse Gabinete uma questão que envolve a segurança da cobertura jornalística no Palácio da Alvorada. É público que o Senhor Presidente da República na saída, e muitas vezes no retorno ao Palácio, desce do carro e dá entrevistas bem como cumprimenta simpatizantes. Este fato fez vários meios de comunicação deslocarem para lá equipes de reportagem no intuito de fazer a cobertura.

Entretanto são muitos os insultos e os apupos que os nossos profissionais vêm sofrendo dia a dia por parte dos militantes que ali se encontram, sem qualquer segurança para o trabalho jornalístico.

Estas agressões vêm crescendo.

Assim informamos por meio desta que a partir de hoje nossos repórteres, que têm como incumbência cobrir o Palácio da Alvorada, não mais comparecerão àquele local na parte externa destinada à imprensa.

Com a responsabilidade que temos com nossos colaboradores, e não havendo segurança para o trabalho, tivemos que tomar essa decisão.

Respeitosamente,

Paulo Tonet Camargo

Vice-Presidente de Relações Institucionais

Grupo Globo”

A Globo diz ter encontrado meios seguros de cobrir o que se passa na porta do Alvorada, sem prejuízo do seu compromisso de informar e evitando a exposição de seus profissionais aos insultos e agressões.

Além de preservar a segurança profissional, a atitude da Folha de S.Paulo e do Grupo Globo pode ser analisada por um outro prisma. Ao deixar a cena na porta do palácio, os veículos contribuem para o seu esvaziamento, atitude que tende a ser adotada por outros grupos de mídia.

O jornalismo incomoda Bolsonaro, fato também explicitado pelas falas no vídeo da reunião. A decisão de abandonar o cercadinho da alvorada envolve segurança, mas indica simbolicamente que o jornalismo se fortalece, principalmente por buscar respostas para perguntas que estão além das patéticas cenas diárias do presidente e seus apoiadores, também artifícios para desviar atenção de questões mais graves a serem apuradas.

São essas as respostas nas quais a imprensa concentra, agora, sua busca. E é bom que o faça.