Friday, 12 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Secretário de Rondônia materializa agressões à imprensa

(Foto: Governo do Estado de Rondônia)

A Rádio Plan FM, na cidade de Jaru, interior de Rondônia, foi invadida por Evandro Padovani, que partiu para cima do jornalista Roni Freitas. A violência aconteceu no dia 13 de agosto de 2020 e não ganhou completo apoio sequer da imprensa local. O secretário de Estado da Agricultura (Seagri) colocou em prática o discurso agressivo contra a imprensa propagado pelo seu chefe, o governador de Rondônia, coronel Marcos Rocha.

Essa atitude violenta é a concretização da beligerância advinda também do presidente Jair Bolsonaro, que, dez dias depois da invasão em Rondônia, ameaçou de agressão física um repórter do jornal O Globo, ao dizer: “Minha vontade é encher tua boca na porrada, tá?”. A ação de Bolsonaro foi motivada porque o profissional fazia o seu trabalho, quando perguntou sobre o valor de R$ 89 mil que sua esposa, Michelle Bolsonaro, recebeu de Fabrício Queiroz e de sua esposa, Márcia.

Os casos e suas respectivas reações são desiguais. A agressão em Rondônia foi mais virulenta, porém os profissionais e os políticos envolvidos nos dois acontecimentos estão em cargos de dimensões completamente distintas. Essa diferença causou bastante assimetria nas reações. A ameaça do presidente foi rechaçada por associações como Abraji, ANJ, ABI, OAB, além de partidos e políticos de relevância nacional, enquanto a violência em Rondônia foi repudiada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Rondônia (Sinjor), com pouco apoio da imprensa estadual, tampouco nacional, que se limitou a reproduzir a nota do sindicado.

Para realizar a invasão, o secretário utilizou o carro oficial do governo, com adesivos da Seagri visíveis na lateral do veículo. Ainda assim, a exoneração até o momento não veio, sequer existiu uma repreensão pública do coronel Marcos Rocha. A conivência do governador tem um histórico, uma vez que ele ataca constantemente a imprensa do estado, chegando a dizer que a mídia tem “fraqueza moral” e faz “comentários errados”, com profissionais que “só sabem trabalhar dessa forma, levando a mentira”, além de usar expressões como “jornalecos” e “propagadores de fake news”.

As reações locais foram tão escassas que uma se destacou, ao elevar o tom contra a atitude virulenta do secretário e o silêncio entorpecente do governador. O jornal Rondônia Dinâmica afirma que Evando Padovani “encarna no mundo real a violência retórica de Marcos Rocha”, que “silenciou a respeito do caso”. O texto ainda evidencia o fato de que o governo estadual “chancela de ‘fake news’ (…) tudo aquilo que desagrada o seio institucional de sua governança”, finalizando que tudo isso “é vergonhoso”.

Em estratégia semelhante à dos presidentes do Brasil e dos EUA, o governador de Rondônia imputa aos jornalistas algo que não faz parte do seu ofício: produtores e propagadores de fake news, tema já discutido em outra edição do Observatório da Imprensa. Essas ideias servem para desabonar o jornalismo, atingindo a democracia. Quando esses políticos atacam a instituição jornalística, contribuem para o aumento da violência contra esses profissionais, perceptível, sobretudo, desde a eleição de Jair Bolsonaro, quando essas agressões escalaram, segundo relatório da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

O jornalismo não surgiu na democracia e não necessita desse sistema para existir; ainda assim, é neste regime político que a instituição se consolida, tornando-se essencial para a sociedade. Em governos dessa natureza, informa, investiga e analisa, além de propiciar um espaço para discussão, empatia e mobilização. A instituição se tornou o quarto poder, sem a qual não existe democracia plena. Por isso, as reações contra essas agressões precisam ser mais enérgicas, principalmente porque, nas democracias, os jornalistas devem permanecer livres e, acima de tudo, vivos; é nas ditaduras que as regras são diferentes, ou inexistentes.

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Allysson Martins é professor de Jornalismo e coordenador do MíDI – Grupo de Pesquisa em Mídias Digitais e Internet na Universidade Federal de Rondônia (UNIR). É autor do livro “Jornalismo e guerras de memórias nos 50 anos do golpe de 1964”.