
(Imagem: Divulgação)
A escolha de Rubem Braga como correspondente de guerra não foi casual. Em 1944, o Diário Carioca decidiu enviar um de seus principais jornalistas para acompanhar a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.
Braga escrevia reportagens para o Diário Carioca e publicava suas crônicas. Mas para ser correspondente, o proprietário do jornal precisou pressionar o governo Vargas, que não desejava jornalistas independentes no front. Ainda mais um Rubem Braga, severo crítico do regime.
Deu tudo certo e lá foi ele para Itália, aos 31 anos. A viagem marcava o início de uma cobertura que se estenderia de setembro de 1944 até abril de 1945. Seu trabalho tinha como foco a atuação da Força Expedicionária Brasileira, a FEB.
A presença brasileira na Itália integrava um esforço de grandes proporções. A FEB estava ao lado dos Aliados e os soldados brasileiros atuaram na Estrada 64, no vale do Rio Reno, em posições expostas ao inimigo entrincheirado nos Apeninos.
Desde o início, a cobertura de Braga enfrentou resistência política e dependia exclusivamente da via aérea para o envio das reportagens. Limitação que interferia diretamente no que podia ser coberto e na forma de escrever.
Apesar de tudo, seu texto se sobressaiu no jornal. Era o único com sobretítulo, título, subtítulo, destaque para os principais tópicos, identificação do autor e de sua função. Frases curtas, diretas, descrições precisas e uso frequente do discurso indireto: esse era o texto de Braga.
Muitas vezes, Braga fez questão de afirmar o método de apuração. Diz quando esteve pessoalmente nos lugares, quando conversou com as pessoas, quando optou por não usar informações oficiais. Reconhece limites e aponta as lacunas da guerra.
Fala da lentidão e do calor da viagem de navio até a Europa; lá, descreve estradas tomadas pela cerração, dias de chuva e frio, conta a histórias dos pracinhas, episódios de bombardeio, o som das metralhadoras, as minas, a fome da população italiana.
Ele queria fazer uma narrativa popular e simples dos brasileiros na Itália. Uma espécie de crônica da FEB, inspirada na tradição portuguesa antiga, e construiu um registro singular, no limite entre reportagem e crônica.
Atravessado pelas restrições do tempo, pela censura e pela experiência direta de quem foi à guerra para ver, viver e escrever, o que Braga escreveu também virou o livro Crônicas da guerra na Itália, que ganhou diversas edições posteriores.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
