Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

A Montanha dos Sete Abutres: uma avalanche de crítica que completa 70 anos

Foto: A Montanha dos Sete Abutres/Reprodução

Charles Tatum tem uma receita para o sensacionalismo. Sua fórmula pressupõe a classificação das notícias em pequenas ou grandes, em um heterodoxo manual de estilo que também tem solução para o cenário de ausência da notícia, recomendando ao repórter ir à rua, morder um cão e narrar a experiência. A disposição para criar um fato, ou para convertê-lo em espetáculo, está no centro de uma reflexão apresentada por Billy Wilder, em A Montanha dos Sete Abutres. Completando sete décadas, a crítica mordaz reflete mais do que uma visão relacionada aos limites de atuação do jornalista, propondo interpretações sobre uma sociedade em transformação e a função dos veículos de comunicação.

Inspirado por um incidente real, envolvendo o explorador de cavernas Floyd Collins, em uma cobertura que rendeu o Prêmio Pulitzer de 1926 a William Burke Miller, e originou o Parque Nacional de Mammoth Cave, no estado de Kentucky, A Montanha dos Sete Abutres não é um ponto fora da curva na trajetória de Wilder em Hollywood. Antes de abordar o tema da degradação moral pelo viés de um repórter dispensado de 11 jornais por 11 motivos diferentes, o diretor austríaco de origem judaica, que migrou para os Estados Unidos fugindo do nazismo, já havia retirado da comédia o monopólio sobre a representação do alcoolismo no cinema, com Farrapo Humano, em 1945, e lançado um olhar igualmente crítico sobre a própria indústria cinematográfica, com Crepúsculo dos Deuses, cinco anos depois. No roteiro que assina com Walter Newman e Lesser Samuels, Wilder amplia sua abordagem para sopesar o comportamento da audiência.

O retrato do processo de conversão da tragédia em produto foi um fracasso de bilheteria nos Estados Unidos. A mudança de nome, de Ace in The Hole para The Big Carnival, acompanhada pelo relançamento do filme, não reduziu a frustração comercial. O primeiro título é, na verdade, uma expressão que simboliza a ideia de um trunfo escondido (uma carta na manga), capaz de garantir a vitória, cuja origem remonta ao jogo de pôquer. Representa, no caso de Tatum, a chance de retornar à redação de um grande jornal através da repercussão de uma reportagem. Já o segundo parece revelar certa tentativa de revisar a função do público na trama, recorrendo à palavra carnival, no sentido de um evento organizado com o objetivo de arrecadar dinheiro para uma finalidade específica, aparentemente deslocando o eixo de interpretação para o campo de abrangência da manipulação, onde o receptor da mensagem assume posição passiva. Ocorre que a modificação não reduz os sentidos misantrópicos do longa dirigido por Wilder.

No Brasil, onde foi lançado como A Montanha dos Sete Abutres, em março de 1952, o filme provocou reação diferente. Em coluna assinada na revista O Cruzeiro, em janeiro de 1953, a escritora Rachel de Queiroz qualifica a produção como uma das melhores do ano, ao lado de Scaramouche, de George Sidney; Uma Aventura na África, de John Huston; Nunca Te Amei, de Anthony Asquith; e Sinfonia de Paris, de Vincente Minnelli. A obra de Wilder integrou a lista dos dez melhores filmes de 1952 publicada pelo jornal O Dia, do Paraná, em fevereiro de 1953. Exibido pelo Canal 4 (TV Globo) do Rio de Janeiro, em 1989, A Montanha dos Sete Abutres foi descrita, pelo Jornal do Brasil, no suplemento que tratava da programação da televisão, como “um ataque cáustico à imprensa sensacionalista”. A avaliação é correta, mas ainda pode ir além.

O conflito está no centro de qualquer roteiro cinematográfico. O jornalista, como profissional que apura ou até mesmo investiga fatos, oferece infinitas possibilidades de ação para um roteirista. O perfil de um personagem, entretanto, é determinante para a narrativa. Em A Montanha dos Sete Abutres encontramos uma esposa insatisfeita, um xerife corrupto, um empreiteiro ganancioso e um jornalista que despreza a formação acadêmica. O conhecimento de Tatum vem das ruas; fora moldado em resposta ao interesse de quem compra jornais nas esquinas. Da prática, alega ter assimilado a percepção de que boas notícias não são notícias. Com a fé na crença de que más notícias vendem mais, reduzindo todo o processo à perspectiva de retorno financeiro, acaba desenvolvendo uma forma particular de cinismo.

Mas mais do que apenas um pano de fundo para os acontecimentos centrais, a multidão atraída pela tragédia do homem preso em uma antiga mina de Albuquerque, no Novo México, também precisa ser considerada, especialmente por demonstrar uma visão sobre as relações de consumo. A idiossincrasia da audiência que busca se colocar como testemunha do fato foi igualmente explorada pelo diretor Henry Hathaway, em Horas Intermináveis, lançado no mesmo ano, retratando reações diferentes diante da iminência de um suicídio. Com as atenções voltadas para o parapeito de um edifício, os espectadores, aglomerados nas calçadas de Manhattan, em Nova York, experimentam um fenômeno de “novelização” parecido. Mas o jornalista idealizado por Hathaway não envereda pela trilha de Tatum. E não é difícil entender o motivo.

Embora Kirk Douglas tenha feito uma espécie de laboratório para interpretar o repórter de A Montanha dos Sete Abutres, atuando por um mês em um jornal de Los Angeles, conforme destaca reportagem publicada pelo Correio Paulistano, em agosto de 1952, Tatum define o jornalismo pelo que não é, praticamente estabelecendo uma relação com o que conhecemos hoje por fake news (em uma comparação que merece ressalvas, para evitar anacronismos) e com a exploração de aspectos mitológicos, que rejeitam qualquer explicação científica. No contexto histórico, inserido no período pós-guerra, o filme estabelece um importante contraste com premissas sagradas do American way of life; e justamente através de seu principal canal de difusão.

O cinema ajudou a propagar um estilo de vida estadunidense idealizado, facilitado por uma gama de eletrodomésticos reluzentes, pela artificialidade ao estilo fast food e pela transformação do automóvel em um objeto de desejo capaz de exprimir identidades. Rompendo a lógica que predominou nos Estados Unidos da década de 1950, A Montanha dos Sete Abutres expõe uma mazela que habita o inconsciente de uma sociedade marcada pelos efeitos da concepção de obsolescência planejada, mostrando, em umas das interpretações possíveis, como as regras podem ser difusas na nada sofisticada economia da degeneração, onde sucesso e poder, padrões de estética e comportamento são binômios do mesmo sistema de valores que retroalimenta a mídia para monetizar a desgraça.

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Sidimar Rostan é repórter, graduado em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, pela Urcamp, com especialização em Comunicação e Política