Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Ao mestre Nilson Lage, com amor e gratidão

Nilson Lage dedicou mais de 50 anos à reflexão acadêmica e à prática jornalística.

O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo… Eu quase que nada sei. Mas desconfio de muita coisa.

(João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas)

 

Em setembro de 2018, a jornalista Lara Lima e eu o acompanhamos para que ele pudesse receber o “Prêmio José Marques de Melo”, em Joinville (SC), onde acontecia o Congresso Nacional da INTERCOM (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). Nilson Lemos Lage, seguramente o mais notável pesquisador em jornalismo do país, recebia mais um reconhecimento de seus pares, que ele generosamente dedicou ao seu contemporâneo Marques de Melo — de quem estivera distante nos últimos anos da vida.

Dois anos antes, em dezembro de 2016, a gente mobilizou o Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e o Departamento para fazer uma homenagem ao professor Nilson Lage, pela passagem dos seus 80 anos. Como integrante daquela mesa, coube-me fazer uma breve referência de duas obras seminais suas: “Ideologia e técnica da notícia” (lançado originalmente em 1979 e relançado em 2012, pela Editora Insular) e “O controle da opinião pública: um ensaio sobre a verdade conveniente” (1998).

Eu abri minha fala, naquele evento, citando trechos de um Prefácio escrito por ele, em outubro de 1992. O livro em questão era “O conhecimento do Jornalismo” e seu autor, Eduardo Meditsch. Cito apenas a parte final desse abre, no qual Nilson dialoga com Adelmo: “Sem dúvida, como diz Adelmo Genro Filho, o jornalismo é uma forma de conhecimento; descende da mais antiga e singela forma de conhecimento — só que, agora, projetada em escala industrial, organizada em sistema, utilizando fantástico aparato tecnológico. Sua tensão permanente com o poder é estrutural, inevitável, por mais submetidos que os jornalistas estejam”.

Uma de suas reflexões teóricas mais fundamentais, a meu juízo, tem a ver com o conceito de notícia. O professor Nilson desenvolve essa categoria em sua primeira grande obra (“Ideologia e Técnica da Notícia), que iria influenciar, decisivamente, o entendimento de outro grande nome da teoria do jornalismo. Falo de Adelmo Genro Filho, que toma para si o conceito de notícia elaborado pelo professor Nilson. Em “O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo”, Adelmo escreve: “Para uma abordagem teórica do jornalismo, é imprescindível delimitar com precisão o conceito de notícia, ao invés de generalizá-lo como fazem a maioria dos autores. Nilson Lage afirma que se considerarmos a “notícia, no sentido mais amplo e desde o tempo mais antigo, tem sido o modo corrente de transmissão da experiência — isto é, a articulação simbólica que transporta a consciência do fato a quem não o presenciou — parecerá estranho que dela não se tenha construído uma teoria” (LAGE, 1979, p. 33).

Outra obra de suma importância, que também citei naquela ocasião, foi “Controle da opinião pública: um ensaio sobre a verdade conveniente”, de 1998. É importante registrar nosso entendimento sobre o “papel cada vez mais sofisticado e potente que os meios de comunicação adquiriram nas sociedades democráticas, onde a formação da opinião pública é um elemento essencial para o exercício do poder”, citando o jornalista e pesquisador espanhol Pascual Serrano. Nesse sentido, se a opinião pública é um insumo estratégico às relações de poder na sociedade contemporânea, os meios de comunicação de massa — e de forma destacada a indústria da informação jornalística — ocupam posição altamente destacada na formação da hegemonia das ideias na complexa sociedade de consumo de massa, em escala global, hoje conectada 24 horas por dia, pelo menos para 40% dos habitantes do planeta.

Nesta direção, escreveu Nilson Lage, discutindo a condução ou formação da opinião pública via sistemas de comunicação: “As estratégias partem da situação vivida pelo público, de suas aspirações difusas (desejos de ascensão social, sentimentos de revolta, estados de solidão, depressão ou entusiasmo) e das representações socialmente existentes. Manobras grosseiras (distorções comprováveis, mentiras e insultos) podem funcionar a curto prazo, em situações peculiares (domínio estatístico de audiência, fontes oficiais, clima de tensão). Mas o que é eficiente em condições normais e períodos mais longos é um conjunto de estratégias sutis que envolve formas de coerção — como políticas salariais e de mercado — além do alcance da mídia e de seus funcionários; alinhamentos traçados por especialistas em marketing, economistas, cientistas sociais e psicólogos situados nos centros de poder”. Nada mais atual e profético, ainda que escrito há mais de duas décadas…

Foi a meu convite que ele escreveu, no começo de julho de 2020, o Posfácio intitulado “No grau zero de um mundo futurista ou de um passado tenebroso”, no livro que organizamos com artigos de pesquisadoras/es da Rede de Estudos sobre Trabalho e Identidade dos Jornalistas (RETIJ), ligada à Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR). Em oito páginas, o mestre examina o conjunto dos textos que compõe os “Novos olhares sobre o trabalho no jornalismo brasileiro”, publicado no 2º semestre de 2020, em plena pandemia, mas centra seu foco — no longo ciclo histórico, “do bardo ao blog”, desde o final do século XV às primeiras décadas do século XXI —, na “ascensão e declínio da verdade”. Olhando o cenário brasileiro (e internacional, certamente), Nilson argumenta: “Sem o paradigma da verdade ancorada em evidências, qualquer afirmação vale tanto quanto outra; dispensa e rejeita argumentação em contrário. A Terra é plana, Gaia vinga-se do desprezo dos homens pela natureza, a Estação Espacial Internacional fica em um estúdio da Nasa, políticos receitam medicamentos eficazes etc. Trata-se de uma nova mística, fundada no poder que alguns homens têm de impor aos outros verdades de sua eleição, como escreveu Martin Heidegger em “Sobre o conceito de verdade” (1932-1941)”. Ele finaliza discutindo a “putrefação da democracia”, abatida pelo delírio neoliberal planetário, e propõe uma saída para nós, a tribo dos/das jornalistas: “[Nós, jornalistas] armados de ceticismo, teremos que reconhecer os limites de nosso poder como fiscais ou ditadores da verdade; será melhor nos reservar a condição de intérpretes, observadores e críticos vulneráveis, com poucas certezas; e, como os malabaristas, artistas de teatro e professores primários, assumir a condição de servidores públicos, entre os estafetas e os faxineiros de ideias”.

Às margens da BR-101, sentido Sul, num crematório localizado na Palhoça/SC, nos despedimos desse ser de alma leve, complexo em suas digressões, firme e contundente em suas intervenções nos espaços da pesquisa em jornalismo, nas salas de aulas, congressos científicos, rodas de conversa, redações e espaços no mercado de trabalho, e nas confrarias dos cafés e botecos da vida. O professor Nilson Lage formou algumas dezenas de diferentes gerações de jornalistas, em sua longeva carreira de mais de 50 anos em três universidades públicas de ponta: a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Federal Fluminense (UFF) e, por último, na Federal de Santa Catarina, na qual se aposentou compulsoriamente em 2006, quando completou 70 anos.

Convivi com ele nos últimos 21 anos, desde o começo do doutorado, sob sua orientação, no Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção (Mídia e Teoria do Conhecimento), em setembro de 2000. Mentor, amigo, companheiro, professor, mestre e eterno orientador: minha carreira docente não teria existido sem a presença inspiradora de Nilson Lage. Não existe nenhuma palavra que possa expressar toda minha gratidão a ele; restam minhas lágrimas, afeto e reverência. A jornalista Lara Lima, o professor Eduardo Meditsch, o jornalista Carlos Henrique Guião e eu começamos, em 2017, a gravar um material em vídeo (cobrindo algumas palestras com o mesmo fim) para um documentário sobre sua vida e obra; vamos concluir em breve, como tributo afetuoso ao mestre Nilson.

Resgato, para fechar essa singela homenagem, alguns trechos de um post que o professor Nilson Lage publicou, em sua página no Facebook, em 21 de novembro de 2016, ao completar 80 anos. O texto é uma perfeita tradução de sua fina ironia, sensibilidade e capacidade de provocar risos no leitor e, ato contínuo, a mais vertical reflexão. Vejamos o começo: “Completo hoje, segunda-feira, 80 anos. Não imaginava durar tanto. Tirando o que o tempo estragou — dois terços das funções pulmonares, um olho, a cabeleira, os dentes — a saúde é ótima, diz-me a jovem médica, mentindo como de praxe. Mas a pressão arterial é 8×12 e o colesterol HDL, alto como raramente se vê. Minha vida se passou entre mulheres: mãe, esposas, quatro filhas, netas (depois de meu pai, nenhum homem nesse círculo íntimo). As que sobrevivem estão bem: ninguém depende de mim – meta alcançada. Amigos, tive raros, mas queridos; morri um tanto com cada um dos que morreram. Alunos, muitos, depois colegas. Quanto à carreira, nada foi planejado”.

Sobre a vida, ele compartilhou, generoso: “Viver tem sido experiência fascinante. Vivendo, aprendi que o que merece ser dito não pode ser dito, frase que copio de Wittgenstein: experiências têm um aqui-e-agora que não se transmite. Descobri que a memória é como um dicionário de conceitos acoplado a cenas marcantes em que alguns detalhes são preservados e outros se perdem: assim o passado repassa-me em fragmentos de ação e emoção. Revendo os personagens, concluo que tanto os justos quanto os canalhas me foram úteis; fico devendo, a uns pelo que me iluminaram e a outros pelo que me tornaram mais forte. Aí entra o que mais me orgulha: nunca fiz mal a ninguém, nunca explorei ninguém, nunca cedi além do que devia. Paguei caro por isso, mas valeu a pena”.

E fechava aquele post inesquecível, reafirmando a defesa da educação pública, em tom quase profético: “Devo muito ao excelente colégio público em que estudei, às universidades públicas que cursei sem pagar um centavo por isso — coisa linda do Brasil. Ficaram-me dois compromissos que procuro honrar: com minha classe de origem e com o país que me deu tudo isso. O último capítulo de minha história começa agora”. Nilson Lemos Lage se encantou, na noite veloz de 23 de agosto de 2021, em Florianópolis, outrora chamada Nossa Senhora do Desterro…

Publicado originalmente por objETHOS.

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Samuel Pantoja Lima é professor da UFSC e pesquisador do objETHOS.