
(Foto: Vanilla Bear Films/Unsplash)
A revelação de que dezenas de influenciadores digitais teriam sido contratados por valores de até R$ 2 milhões para operar campanhas em defesa de Daniel Vorcaro e contra o Banco Central trouxe à tona um velho fenômeno sob nova embalagem: a opinião à venda, agora adaptada ao ecossistema das redes sociais. Segundo reportagens que tiveram acesso a documentos relacionados ao chamado “Projeto DV”, perfis variados — de comentaristas de política e economia a criadores com milhões de seguidores no Instagram, como Carol Dias (7,4 mi), Paulo Cardoso (4,4 mi) e Firmino Cortada (mais de 2 mi) — passaram a publicar vídeos com narrativas quase idênticas sobre a liquidação do Banco Master e supostas “precipitações” do Banco Central, levantando questionamentos sobre motivações e consequências de uma decisão técnica de regulação. Parte desses influenciadores negou qualquer pagamento, mas ao menos 40 perfis já foram identificados pela Polícia Federal como suspeitos de atuação coordenada contra o BC nas redes sociais no fim de 2025.
A reação imediata da grande imprensa foi apontar os influenciadores de aluguel como a antítese da ética jornalística, acusando-os de não praticarem apuração rigorosa, não se submeterem a edição responsável e não manterem compromisso com fatos verificáveis. Esse juízo moral, no entanto, é simplista e confortável, porque desloca a crítica para um bode expiatório conveniente e evita uma constatação mais incômoda: as técnicas hoje empregadas por esses influenciadores reproduzem, em linguagem digital, práticas que a própria imprensa tradicional ajudou a consolidar ao longo de décadas.
Imprensa e manipulação não são termos opostos. A crítica da mídia, amplamente documentada — inclusive em análises recorrentes deste Observatório da Imprensa — demonstra que veículos jornalísticos estruturados jamais foram as instâncias puras de imparcialidade que professam ser. A leitura dominante dos meios de comunicação indica que jornais e emissoras estão longe de atuar como “árbitros neutros dos fatos”: operam, antes, como aparelhos de hegemonia, capazes de organizar consensos sociais e orientar percepções coletivas alinhadas a interesses de classe e de elites. Nesse sentido, a imprensa atua politicamente mesmo quando afirma denunciar a política; não se coloca fora do debate público, mas intervém nele como ator dotado de agenda, preferências e instrumentos próprios de convencimento.
Essa crítica encontra formulação clássica nos estudos sobre padrões de manipulação midiática. Ao sistematizar o funcionamento cotidiano da grande imprensa brasileira, Perseu Abramo (2003), sistematizando reflexões formuladas ainda no final dos anos 1980, identificou um conjunto recorrente de mecanismos capazes de distorcer a percepção pública dos acontecimentos sem necessidade de falsificação explícita dos fatos: omissão seletiva de informações relevantes, fragmentação de eventos fora de seu contexto, hierarquização enviesada do que é central e do que é secundário, indução de interpretações implícitas e enquadramento global das narrativas. Esses padrões podem ser observados em inúmeros episódios da história recente da mídia brasileira — do resumo editado do debate presidencial de 1989, amplamente apontado como interferência decisiva no processo eleitoral, à cobertura seletiva de greves, movimentos sociais, crises econômicas e escândalos políticos ao longo das décadas seguintes. Longe de constituírem exceções, tais práticas revelam um modo estruturado de produção da notícia.
Nas redes sociais, esses padrões não desapareceram; foram reconfigurados. O que antes operava por meio de editoriais, manchetes e edição de telejornais tornou-se instantâneo, fragmentado e permanentemente disponível no feed. As técnicas clássicas de enquadramento e seleção de fatos adaptaram-se às lógicas das plataformas: recortes de vídeo fora de contexto substituem resumos editados; títulos virais deslocam o foco para o impacto emocional; threads indignadas e vídeos curtos moldam percepções sem a mediação de checagem aprofundada. A diferença crucial não está no método, que permanece essencialmente o mesmo, mas na escala algorítmica, na velocidade de circulação e na opacidade dos critérios que amplificam determinadas narrativas em detrimento de outras. No Brasil, esse deslocamento é particularmente intenso. Segundo o estudo Mapping News Creators and Influencers in Social and Video Networks, o país combina alta penetração da internet — cerca de 84% da população conectada — com um uso massivo das redes sociais como fonte de informação: 54% dos brasileiros afirmam recorrer semanalmente a plataformas digitais para se informar. Nesse contexto, influenciadores e criadores de conteúdo exercem um papel mais central na formação da opinião pública do que na maioria dos países analisados em pesquisas comparativas internacionais. O resultado é uma possível manipulação menos solene, porém mais capilar, capaz de orientar interpretações antes mesmo que os fatos sejam plenamente compreendidos.
Ao mesmo tempo, a confiança do público na imprensa tradicional vem se deteriorando de forma consistente. Dados do Digital News Report 2025 indicam que a confiança nas notícias no Brasil permanece estruturalmente baixa: apenas 42% dos brasileiros afirmam confiar nas notícias em geral, enquanto uma parcela crescente declara obter informação principalmente por meio das redes sociais, e não de veículos jornalísticos convencionais. Entre esses usuários, a migração é frequentemente justificada pela percepção de parcialidade sistêmica da imprensa e pela busca por fontes que, ao menos, assumam explicitamente seus posicionamentos. Esses números sinalizam uma erosão profunda do antigo “benefício da dúvida” concedido ao jornalismo profissional: não se trata apenas de crítica pontual à mídia tradicional, mas da convicção disseminada de que ela atua alinhada a interesses, agendas e centros de poder que não representam a totalidade da sociedade.
Nesse ambiente, influenciadores políticos e “criadores de conteúdo” ocupam o vácuo deixado pelos interlocutores privilegiados. Eles não se vendem como neutros; vendem-se como alinhados, identificáveis, parte de uma comunidade. Essa identificação afetiva amplia o alcance de suas mensagens e confere uma aura de legitimidade que, em muitos casos, substitui o valor empírico por proximidade simbólica. Estudos sobre ecossistemas de notícias mostram que, em vários países, influenciadores e criadores independentes já capturam mais atenção do que marcas jornalísticas tradicionais, justamente por saberem explorar esse vazio de confiança e a necessidade de narrativas que “façam sentido” para públicos polarizados.
A ironia, no entanto, é amarga. Muitos desses influenciadores têm formação jornalística ou surgiram de ambientes mediáticos tradicionais. Eles não inventaram a lógica da narrativa seletiva; aprenderam com a prática profissional. O que fizeram foi eliminar o verniz institucional e expor a técnica em sua forma mais crua e imediata. O resultado não é apenas desinformação; é a normalização de práticas que a própria imprensa operou por décadas sob a capa de autoridade moral. Esse padrão alimenta um ciclo vicioso perigoso: a imprensa denuncia os excessos do ecossistema digital enquanto evita encarar seus próprios limites históricos, gerando ressentimento e ceticismo. Ao mesmo tempo, a migração do público para fontes alternativas fortalece narrativas radicalizadas que, por sua vez, intensificam ataques contra o jornalismo profissional, muitas vezes com ataques mais retóricos do que críticos.
O escândalo do Banco Master ilustra esse mecanismo com clareza desconfortável. A tentativa de contratar influenciadores para moldar a percepção pública não surgiu num vácuo moral; ela encontrou terreno fértil numa sociedade em que a imprensa tradicional fragilizou sua própria autoridade moral ao longo de décadas de agendas implícitas, enquadramentos seletivos e articulações com poder econômico e político. Acusar os influenciadores de manipulação enquanto se mantém uma narrativa de “imprensa ética e superior” é não apenas hipócrita, mas estrategicamente míope. A credibilidade não se recupera com slogans ou alertas de fake news. Recupera-se com transparência sobre interesses, compromisso inequívoco com a verdade factual e disposição para enfrentar, sem subterfúgios, as ambivalências do próprio passado midiático.
Referências
ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003.
NEWMAN, Nic; ROSS ARGUEDAS, Amy; MUKHERJEE, Mitali; FLETCHER, Richard. Mapping News Creators and Influencers in Social and Video Networks. Oxford: Reuters Institute for the Study of Journalism, University of Oxford, 2025. DOI: 10.60625/risj-44pf-1k13.
REUTERS INSTITUTE FOR THE STUDY OF JOURNALISM. Digital News Report 2025. Oxford: University of Oxford, 2024. Disponível em: https://www.digitalnewsreport.org/. Acesso em: 12 jan. 2026.
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Cristiano Aguiar Lopes é Jornalista, doutor em Ciência Política pelo IESP-UERJ e Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados.
