Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Jornalistas chineses recorrem a financiamento coletivo

Quando começou sua carreira como repórter investigativo, Liu Jianfeng tinha ideais nobres: servir ao interesse público. Após 20 anos de atividade, mesmo tendo trabalhado para algumas das publicações mais francas da China, ele sentia-se cada vez mais manipulado. Ao mesmo tempo, acreditava que o público estava ávido por informações baseadas em fatos, e não contaminadas pelas pautas do Estado. Em busca de uma solução, Liu anunciou em seu microblog que iria se dedicar à carreira de jornalista independente.

Há cinco anos, tal mudança seria quase impossível. Mas agora, apoiando-se em sua reputação de repórter honesto, através do microblog Sina Weibo (versão chinesa do Twitter) e do Taobao (site chinês de e-commerce), Liu já arrecadou 200 mil yuan (mais de 65 mil reais). Tal valor o ajudou a produzir sua primeira reportagem investigativa sobre uma disputa de terras entre camponeses e o governo local, em Shandong, uma província do leste da China. A reportagem, que está disponível no blog de Liu, (ainda) não lhe causou problemas. “Fazer matérias longas e detalhadas é um jeito de me proteger de acusações de imperícia”, diz ele.

Liu quer criar uma plataforma semelhante à ProPublica, empresa americana sem fins lucrativos que produz jornalismo investigativo de interesse público.

A voz do Partido Comunista

Desde a sua fundação, em 1921, o Partido Comunista chinês tem insistido que a imprensa é sua voz. A mídia chinesa, em geral, ainda se curva para a propaganda do Partido.

No entanto, algumas novas plataformas começaram a minar os modelos tradicionais. Quando microblogs e outros meio de comunicação que desafiam a linha seguida pelo Partido se manifestam, os canais oficiais acabam soando mentirosos ou corruptos – ou ambos.

Um dos casos mais recentes de manipulação em favor do Partido Comunista se deu quando a emissora estatal China Central Television (CCTV) exibiu uma reportagem sobre a indústria do sexo na cidade de Dongguan. A matéria incluiu cenas com câmera escondida de supostas prostitutas usando vestidos colados e enfileiradas em um bordel para serem escolhidas.

Embora a reportagem não tenha chocado tanto – afinal a reputação da prostituição na cidade já era notória –, ela serviu ao Partido Comunista de modo mais amplo e oportuno: pouco tempo depois, o governo chinês lançou uma ofensiva contra a indústria do sexo.

No entanto, o resultado foi diferente do esperado: em vez de suscitar o clamor moral pretendido, a rede de TV foi ridicularizada em comentários de internautas devido a seu comportamento conivente com o Estado.

Jogo de gato e rato

Embora a mídia estatal não seja tão sutil quanto antes, os jornalistas íntegros ainda lutam para encontrar um destino para seu trabalho. Desde a chegada da internet, o governo tem se envolvido em um jogo de gato e rato com as mídias emergentes, permitindo que algumas novas plataformas floresçam, mas ao mesmo tempo permanecendo de prontidão para atacar aquelas que se tornam populares demais.

Desde a repressão aos microblogs no ano passado, muitos usuários foram atraídos para o WeChat, um aplicativo de bate-papo para smartphones. A plataforma se provou relativamente irrestrita para a opinião de livre-pensamento. Todavia, em meados de março, houve um bloqueio repentino de dezenas de contas que se destacavam. O episódio ficou conhecido como “Massacre do WeChat”, e soou como um aviso aos pensadores livres, embora não tenha afastado completamente seus usuários.

Assim como outros jornalistas, Song Zhibiao usa seu feed do WeChat para criar o que intitula “mídia autossuficiente”. Sua conta possui cerca de 13 mil assinantes, sendo que alguns chegam a doar até 500 yuan (170 reais) ao jornalista. Muito embora tenha algum sucesso financeiro, Song enxerga dois obstáculos em seu trabalho: contar com doações de um público acostumado a consumir mídia livre não é sustentável. E fazer jornalismo independente na China pode ser arriscado. “Aos olhos do Partido, buscar a verdade dos fatos equivale a cometer um crime”, diz.

Desde que Xi Jinping tornou-se líder do Partido Comunista, em 2012, os veículos de comunicação chineses têm sido ainda mais controlados. De acordo com a nova legislação, um usuário que publicar um tweet sensível e muito popular pode ser condenado a até três anos de prisão.

Mas os jornalistas que visam à integridade não abrem mão de buscar novas maneiras de sobrevivência. Tanto Liu quanto Song sabem que não estão sozinhos; embora empreendimentos com base no crowdfunding pareçam distantes da realidade de um país como a China, há muitos profissionais de comunicação com ambições semelhantes. Pelo visto, o Partido Comunista ainda vai ter muito trabalho.