Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

A quem interessa a informação distorcida?

Os blogs, canais de comunicação e sites de Itapetinga (BA) causaram perplexidade acerca das informações de fatos ocorridos no dia 1º de maio. A perplexidade aumentou sobre as informações retratadas numa reunião envolvendo populares, sindicalistas e a polícia, na mesma cidade. Primeiro chama-se a atenção de como são descritas as situações, depois as discrepâncias entre as informações carregadas de opiniões batidas, preconceituosas, irregulares e as diversas formas como é narrado o acontecido. Também o discurso amador e sem estrutura informativa hierarquizada, arrogando-se a verdade factual, que deixa, no mínimo, mal quem lê o texto. Por tudo isso, é importante que o leitor saiba a distinção entre uma matéria jornalística informativa (texto técnico) e uma opinião, principalmente na internet, fórum de debates e palanque eletrônico. Intriga, má-fé, incompetência? Cabe ao leitor julgar. Aqui vai uma reflexão pertinente sobre o assunto.

Antes de qualquer coisa, deseja-se iniciar com a seguinte afirmação: todos temos posições políticas e ideologias. Portanto, nossos discursos, nossos textos, nossas falas, enfim, todas as nossas comunicações são carregadas de posicionamentos ideológicos, não há neutralidade em nada que fazemos. Ao contrário, somos usados pelo inconsciente e pela ideologia. Não somos donos de nossos discursos, somos interlocutores desses no mundo, na sociedade. No entanto, nem sempre podemos falar, escrever ou mesmo nos comunicar tudo, de qualquer forma para qualquer um.

Os ditames do código de ética

Sempre falamos de algum lugar, com uma autoridade que nos é dada por alguém ou pela sociedade onde vivemos: política (prefeito, vereadores, presidente), técnica (médico, juiz, pedagogo), carismática (padre, pastor, líder). Tecnicamente, cada um se comunica no interior de seu grupo social, fala seguindo normas pré-estabelecidas pelos seus pares. Por exemplo, os políticos se comunicam com decretos e leis, em discursos e palanques e por notas institucionais; os médicos por receitas e por pareceres técnicos de saúde; os religiosos nos sermões e homilias religiosas. Essas formas e modos de comunicação estáveis são denominados gêneros de discurso. No entanto, esses gêneros se confundem e são usados em outros gêneros discursivos, chamados gêneros jornalísticos.

O jornalismo tem por natureza retratar os acontecimentos do dia-a-dia. Assim, cada vez mais a sociedade precisou de profissionais que trabalhassem para retratar o cotidiano, principalmente no sistema de produção burguês, na expansão das idéias liberais e na transmissão de informações financeiras. Os jornais e os jornalistas se tornaram elementos fundamentais no funcionamento da sociedade contemporânea do ponto de vista econômico, político e cultural.

Criou-se, então, uma linguagem típica, gêneros discursivos de domínio dos jornalistas (notícia, reportagem, resenha, nota, entrevista, crônica etc.). Dessa maneira, como todas as profissões, o jornalismo inicia-se informal. Mas dado a complexidade do nosso tempo, exigiu-se a fundação de faculdades para formação técnica e ética dos profissionais da comunicação informativa. Foi preciso formular instruções básicas e técnicas para ser jornalista, retratar um fato, apresentar esse fato de maneira fidedigna, honrando os ditames do código de ética profissional do jornalista: objetividade no texto, clareza, polissemia das fontes e mais que tudo, uma estética textual que defina os gêneros jornalísticos usados (opinativo: crônica, resenha, editorial, artigo; e informativo: notícia, reportagem, notas, entrevistas).

Falta de competência

Assim, quem detém o controle dos meios de comunicação numa sociedade como a nossa, detém poder e prestígio, daí se desdobra o enfraquecimento do jornalista (qualquer um se atribui esse título) e o fortalecimento dos meios de comunicação (concentração dos meios de comunicação de massa na mão de uns poucos). No mais das vezes, são os empresários da comunicação, e políticos de partidos conservadores de direita, donos desses meios, que manipulam as informações a seu bel-prazer. Todavia, como reza a máxima popular, ‘quando o diabo não vem, manda seu secretário’, daí vê-se multiplicar blogs, sites e programas de rádio que apenas repetem o que diz a mídia, mas no local, no município, sem profissionalismo, grosseiramente para fins escusos.

Na comunicação desses sujeitos midiáticos, tem-se profissionais mal formados ou não-formados, desarticulados profissionalmente e, sobretudo, pessoas submissas às idéias conservadoras, direitistas e manipuladoras. Eles aproveitam as mazelas da população sem instrução para dizer o que bem quer, dando aos seus textos o caráter errôneo de verdade absoluta.

Isso não impede que alguém possa exercer sua liberdade constitucional e emitir sua opinião, sua posição política, sua ideologia: por exemplo, um médico pode falar de cultura ou de política, um pedagogo pode emitir sua opinião sobre saúde e acontecimentos da cidade. Não se deve confundir isso com um texto jornalístico (informativo), pois no mais das vezes tais sujeitos não têm a formação técnica, estética ou ética para construir um texto com as características jornalísticas de informação. O texto vira uma espécie de agressão à liberdade de imprensa ou mesmo uma falta de competência comunicacional.

Violação do Código Penal

No entanto, ser jornalista ou profissional da comunicação não basta ou exige um diploma, muito menos requer uma experiência autodidata. Ser jornalista é ter a convicção de um artista, o senso crítico de um filósofo e saber que palavra tem poder, endereço e ideologia. Basta o profissionalismo e senso de ridículo. O jornalista deve saber de sua posição, seu texto não é a verdade, mas uma verdade, dentro de várias verdades sobre o fato, um ponto de vista. Por isso, ele deve se posicionar como porta-voz de uma versão da realidade, do acontecimento, do fato. Por isso, é importante ter ao menos humildade para se capacitar para tal ofício no exercício jornalístico. Assim, não se deve acreditar em tudo que está no ar, nos jornais, nos blogs ou mesmo na TV e no rádio, a tudo deve ser interpretado como versão da realidade retratada. Tudo deve ser julgado, medido e refletido, filtrado e mesmo descartado com ajuda da crítica ou mesmo da filosofia.

Quando recebemos uma informação por meios de comunicação (internet, TV, rádio, revista, jornal) ou mesmo por pessoas, devem-se fazer as seguintes perguntas: O que isso quer dizer? Quem está dizendo? A quem interessa? Por que dessa informação?

No mais das vezes, a informação é destorcida grotescamente por maus profissionais, leigos da informação, mas astutos em saber a importância/poder da comunicação social e da internet. Entretanto, como diz o velho ditado, ‘quem não tem competência não se estabeleça’, por exemplo, é comum em muitas comunicações em Itapetinga erros jornalísticos, opiniões misturadas a informações, textos mal escritos, sem base técnica, sem averiguação alguma, pré-julgamentos, preconceitos e muito mais coisas degradantes. Nos textos faltam ética, pior ainda, frequentemente, nessas comunicações, observa-se violação do Código Penal: Calúnia (art. 138); Difamação (art. 139); Injúria (art. 140).

Assim, é preciso que o leitor atento fique alerta ainda mais sobre o que é veiculado na internet e nos demais meios de comunicação. Há informações sérias, é claro, fidedignas e, sobretudo, claras e com interesses manifestos, posicionamentos políticos que possam ser identificados, sem leviandade ou má-fé. Basta julgar! E sempre perguntar: a quem interessa a informação distorcida?

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Jornalista e professor