Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Jornais têm sites bloqueados após reportagem sobre paraísos fiscais

Mais uma vez o governo chinês parece estar envolvido em um ato de censura ao livre fluxo de informações na internet. Na quarta-feira (22/1), o jornal britânico The Guardian reportou que seu site havia sido parcialmente bloqueado na China depois da publicação de uma matéria revelando que parentes de líderes políticos e militares do país mantêm empresas e contas bancárias em paraísos fiscais do Caribe. Outras publicações que reportaram sobre o tema também teriam sido bloqueadas.

A reportagem, baseada em uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), alegava que o cunhado do presidente chinês Xi Jinping e o filho e o genro do ex-premiê Wen Jiabao estavam entre as dezenas de parentes de autoridades que têm atividades financeiras em paraísos fiscais.

Sem uma VPN (Rede Privada Virtual), não era possível acessar, da China, o link da matéria. O acesso à homepage do site do Guardian, assim como o acesso a outras matérias, era intermitente, relatou a jornalista Tania Branigan, de Pequim. No início do mês, o site do jornal já havia sido brevemente – e parcialmente – bloqueado no país.

Tania também tentou acessar outros sites jornalísticos e constatou que as matérias sobre os paraísos fiscais podiam ser acessadas no alemão Suddeutsche Zeitung e na rede canadense CBC News. Ela conseguiu entrar no francês Le Monde, apesar de relatos de que o site teria sido bloqueado. Já a página do ICIJ não estava disponível, assim como a do jornal espanhol El País. A homepage do australiano Global Mail estava acessível, mas a página com a matéria sobre a elite política chinesa havia sido bloqueada.

(Sem) transparência

A reportagem afirmava que mais de 21 mil clientes da China e de Hong Kong teriam contas e negócios em paraísos fiscais caribenhos, incluindo parentes de autoridades do Partido Comunista e grandes empresários. O ICIJ teve acesso a documentos de duas companhias nas Ilhas Virgens Britânicas e compartilhou os dados com o Guardian, o El País, o Le Monde e o chinês Ming Pao.

A riqueza dos líderes chineses e suas famílias se tornou um assunto de crescente interesse, principalmente por conta da campanha do presidente por austeridade e contra a corrupção. Em 2012, os sites da agência Bloomberg e do New York Times foram bloqueados depois da publicação de reportagens sobre os bens de parentes de autoridades chinesas, incluindo Xi e Wen. As duas organizações também enfrentaram problemas para obter novos vistos de trabalho para seus correspondentes. Ativistas chineses que tentam organizar manifestações nas ruas pedindo mais transparência do governo se deparam com repressão.