Wednesday, 17 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Mídia vira alvo de críticas por ignorar protestos

Enquanto Istambul fervia com as manifestações populares contra o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, um dos principais canais de TV privados do país exibia um documentário sobre pinguins. Outra emissora optou por um programa de culinária.

Os manifestantes começaram a se reunir na sexta-feira passada [31/5] e originalmente se opunham a um projeto urbanístico para derrubar árvores da Praça Taksim, em Istambul – diz-se que poderão ser construídos um shopping e uma mesquita no lugar. Mas em poucos dias os protestos foram se intensificando e ocupando outras cidades, como a capital Ancara, tornando-se uma das maiores manifestações contra o governo em décadas.

A mídia turca, por sua vez, resolveu, em um primeiro momento, ignorar a importância social e histórica do que acontecia nas ruas. Os telejornais das grandes emissoras mencionaram apenas brevemente os protestos, e não houve cobertura sobre a violência e os conflitos entre polícia e manifestantes.

Sem o apoio da mídia para contar seu lado da história, os manifestantes se voltaram às redes sociais para convocar aliados e divulgar informações. O primeiro-ministro chegou a chamar o Twitter de “ameaça”. “Os melhores exemplos de mentiras podem ser encontrados por lá. Para mim, a mídia social é a pior ameaça à sociedade”, sentenciou Erdogan.

Aos poucos, a partir das redes sociais, mais pessoas foram se unindo aos protestos, que passaram a contar com dezenas de milhares de participantes. O barulho, então, tornou-se alto demais para ser ignorado, e as emissoras começaram, também aos poucos, a exibir cenas das manifestações ao longo do fim de semana.

Abuso e omissão

Mas os manifestantes já estavam frustrados demais com a (falta de) cobertura, e nos dias seguintes passaram a criticar também a mídia por manter o público desinformado. Na segunda-feira [3/6], grupos se reuniram em frente aos escritórios das emissoras NTV e HaberTurk. Algumas pessoas traziam cartazes com os três principais canais do país representados pela imagem dos três macacos que não veem, não escutam e não falam.

Na Praça Taksim, manifestantes derrubaram um veículo da NTV, arrebentando as portas e quebrando seu equipamento de transmissão por satélite. Muitas destas pessoas acusam a mídia – e principalmente a televisão – de autocensura, evitando qualquer tema que possa irritar o governo por medo de represálias.

Diante das críticas à mídia turca, Thorbjorn Jagland, secretário-geral do Conselho da Europa, emitiu uma declaração pedindo que seja aberto um inquérito para apurar a alegação de abuso de força policial e defendeu que “todos os veículos de mídia forneçam uma cobertura completa e precisa da situação”.

Quando atinge o bolso

O Dogus, um dos principais conglomerados da Turquia e dono da NTV – além de bancos e seguradoras, entre outros negócios –, pediu desculpas pela falta de cobertura na primeira noite dos protestos. “Nosso público sente que foi traído”, afirmou o CEO do grupo, Cem Aydin, ressaltando que as críticas à emissora são compreensíveis. “Nossa responsabilidade é reportar tudo do modo como acontece. A busca pelo equilíbrio dentro de um cenário desequilibrado nos afetou, assim como a outros veículos de mídia”. Ele ressaltou que agora é hora de “renovar nossa relação com nosso público”.

A declaração do CEO veio depois que cerca de 1.500 clientes do banco Garanti, que também pertence ao Dogus, fecharam suas contas. “Eles dizem que são clientes há 20 anos, não têm problema com o banco, mas estão fechando suas contas por causa destes incidentes”, afirmou à AP o diretor geral do Garanti, Ergun Ozen.

 

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