Thursday, 25 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

O Brasil se prepara para uma Olimpíada militarizada

Em meio a um pequeno aumento dos crimes violentos e de uma crise econômica que se aprofunda, as autoridades brasileiras pretendem garantir a segurança durante os Jogos Olímpicos com uma mobilização de 85 mil pessoas – entre militares e polícia. Embora se espere que este exército virtual de segurança mantenha afastados os elementos criminosos durante as Olimpíadas, a tão desejada perspectiva de segurança da cidade continua pouco promissora.

As autoridades insinuaram que essa mobilização maciça irá incluir a ocupação temporária de várias favelas, num esforço para manter as quadrilhas do crime organizado afastadas, nessas áreas, durante os jogos.

Assaltos a atletas deflagraram preocupações sobre crime e segurança durante a realização, em agosto e setembro, dos Jogos Paraolímpicos. No dia 19 de junho, dois membros da equipe paraolímpica australiana foram assaltados no Rio de Janeiro quando treinavam para os jogos que se aproximavam. O fato não ocorreu em algum lugar isolado da cidade, na noite escura, mas às 7:30 da manhã próximo à Praia do Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Antes disso, no mês de maio, três membros da equipe olímpica de iatismo espanhola foram assaltados na cidade.

Depois do último assalto, a equipe olímpica da Austrália exortou as autoridades brasileiras a adotarem medidas estratégicas em relação aos Jogos Olímpicos antes do prazo que havia sido previsto.

Tiroteios aumentaram drasticamente

Com a cerimônia de abertura das Olimpíadas marcada para 5 de agosto, no dia 17 de junho o governo do Rio de Janeiro, em profunda crise de liquidez, declarou um “estado de calamidade” em meio à crise de segurança e da economia, advertindo que não tinha as verbas necessárias para completar alguns dos projetos de construção e garantir a segurança pública. Desde então, o estado do Rio recebeu um empréstimo salva-vidas de emergência de 850 milhões de dólares [R$ 2,8 bilhões] do governo norte-americano. Mas com a ocorrência de tiroteios quase diários entre a polícia e o crime organizado na cidade – inclusive na vizinhança de alguns dos locais em que se realizam provas – nem todo mundo está convencido da segurança.

Rivaldo, ex-estrela do futebol brasileiro, recomendou publicamente aos estrangeiros que não comparecessem aos jogos. E no dia 28 de junho, a BBC divulgou que autoridades policiais que estavam de folga ficaram na área de desembarque do aeroporto internacional do Rio de Janeiro segurando um enorme cartaz que dizia: “Bem-vindos ao inferno. Policiais e bombeiros não estão sendo pagos e quem vier ao Rio de Janeiro não estará a salvo.”

Os incidentes de assalto envolvendo atletas estrangeiros são sintomáticos de uma crise de segurança muito mais ampla que afeta a cidade e o estado do Rio de Janeiro. Desde o início de 2016, vem ocorrendo um aumento significativo de crimes violentos no Rio de Janeiro. Segundo uma reportagem de O Globo, os homicídios cresceram 15% no estado desde o início do ano. O jornal O Dia divulgou que o estado registrou um aumento de 28% no número de mortes vinculadas a assaltos no primeiro trimestre de 2016.

Tiroteios entre policiais e grupos do crime organizado também aumentaram drasticamente. Citando um aprofundamento na luta por territórios entre os três maiores grupos criminosos – Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA) – a Folha de S.Paulo divulgou que 192 oficiais de polícia foram baleados na cidade durante os seis primeiros meses de 2016, um aumento significativo comparado aos 108 policiais baleados durante o mesmo período em 2015 e 61 em 2014.

Dúvidas em relação à estratégia de segurança

Segundo o blog Pauta do Dia, que monitora a incidência do crime no Rio de Janeiro, 55 oficiais de polícia – em serviço e de folga – foram mortos em 2016 até o dia 28 de junho, enquanto apenas 12 morreram nos primeiros cinco meses e meio de 2015.Um dado que talvez seja indicativo da estratégia de segurança errada da cidade é que mais de uma terça parte dos ataques contra policiais foram divulgados como tendo ocorrido em áreas a que as autoridades se referem como favelas “pacificadas”. Além das favelas nos morros, vários tiroteios também ocorreram na vizinhança de locais dos Jogos Olímpicos que em breve serão frequentados por turistas e atletas estrangeiros. Foram divulgados tiroteios entre grupos do crime organizado e a polícia nas proximidades do icônico estádio do Maracanã, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca e próximo à estátua do Cristo Redentor e um incidente acarretou o fechamento temporário de uma estação de metrô na Zona Norte do Rio.

No mais audacioso ataque, um grupo de 20 criminosos do Comando Vermelho invadiu e ocupou o hospital Souza Aguiar, no centro do Rio, com rifles de assalto e granadas, para resgatar um líder criminosos local que se encontrava sob guarda da polícia, na instituição. Os atacantes mataram um paciente durante a ação. Antes, o hospital havia sido designado como uma das cinco instituições recomendadas para atendimento de turistas durante os jogos.

O aumento do crime no Rio ocorre ao mesmo tempo de uma profunda crise econômica que provocou vários cortes no orçamento da segurança. Dependendo, em grande parte, da receita do petróleo, os cofres do governo estadual foram duramente atingidos pela queda no preço global do petróleo. Em março, o governo do Rio de Janeiro anunciou um corte de 32% no orçamento da segurança e o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, advertiu que o investimento na segurança pública era “virtualmente zero”.

Desde o mês de março, tem sido publicadas reportagens sobre novos cortes que afetam as delegacias de polícia – e alguns policiais supostamente trazem para o trabalho seu próprio papel higiênico e água. Descontentes com o atraso no pagamento, policiais e servidores públicos entraram em greve no mês de abril. Embora o recente resgate empenhado pelo governo federal possa ter evitado um colapso total da economia e da segurança antes dos jogos, continuam havendo dúvidas em relação à estratégia geral de segurança para as Olimpíadas e pós-Olimpíadas.

Novo financiamento da segurança no Rio é improvável

Os cortes no financiamento obrigaram a fazer várias modificações na estratégia de segurança da cidade para as Olimpíadas. Tendo anunciado anteriormente a iminente ocupação de várias favelas a tempo de preparar os Jogos Olímpicos, o governo local teve que voltar atrás com seus planos. No entanto, no mês de março, o secretário José Mariano Beltrame sugeriu que o exército iria ocupar temporariamente seis das favelas da cidade durante os jogo.

Com este constante vaivém, não é claro se o Comitê Executivo de Segurança Integrada Regional, encarregado da supervisão dos preparativos de segurança para os eventos esportivos, tem um plano concreto de segurança faltando apenas seis semanas para os jogos. No entanto, o secretário Beltrame deixou claro que a polícia do Rio irá precisar de reforços do exército e da Polícia Federal para garantir a segurança durante os Jogos Olímpicos e Para Olímpicos.

O governador interino do Rio, Francisco Dornelles, pediu recentemente ao governo federal para instalar o exército na cidade por três meses, a partir de 24 de julho – um prazo muito maior do que o anteriormente previsto. Apesar dessas restrições, uma força-tarefa de segurança calculada em 85 mil pessoas, incluindo 38 mil soldados, está preparada para ser mobilizada pela cidade. Ela terá o apoio de um satélite militar israelense, que já está flutuando acima da cidade e tem como monitorar pessoas suspeitas, objetos e veículos. O monitoramento e a mobilização serão voltados para áreas onde ocorrerão os jogos, ou próximas, assim como para os principais corredores de acesso, como a Linha Vermelha, a Linha Amarela, a Avenida Brasil e o aeroporto internacional do Galeão.

Em grande parte, o governo do Rio optou pela quantidade, e não pela qualidade, em sua intenção de garantir a segurança dos jogos. O simples número de soldados e policiais nas ruas provavelmente irá atenuar significativamente a ameaça de crimes violentos, inclusivo assaltos e homicídios. A possível ocupação de favelas também poderá manter os grupos criminosos afastados, pelo menos temporariamente.

Entretanto, para além das cerimônias de encerramento, a segurança pública no Rio provavelmente continuará sendo uma questão de longo prazo. Com as economias estadual e nacional em profunda recessão, um novo financiamento para uma inspeção mais do que necessária da segurança no Rio é improvável para os próximos tempos.

Portanto, a atual tendência que se registra nos homicídios e outros crimes violentos, assim como o ressurgimento dos grupos do crime organizado, deverá começar de novo após os Jogos Olímpicos.

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Lloyd Belton é um analista político