Tuesday, 28 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Picaretagem na TV americana

Deu no New York Times (15/3), matéria assinada por Robert Pear e Jim Rutenberg: investigadores federais americanos estão rastreando emissoras de TV nas quais a administração Bush tentou veicular vídeos de propaganda em que atores são pagos para posar de jornalistas e apresentar supostas reportagens sobre os benefícios do sistema de saúde Medicare, criado pelo governo republicano no final do ano passado. O sistema se destina a subsidiar a compra de medicamentos por cidadãos idosos.

Os vídeos, criados por uma produtora contratada pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos, apresentam conteúdo abertamente favorável e acrítico sobre o projeto de Bush e não trazem a identificação de origem, o que pode induzir a maioria dos telespectadores a acreditar que se trata de material jornalístico. Em algumas das peças, o presidente Bush aparece assinando o projeto de criação do Medicare enquanto é ovacionado por uma multidão. Todas as peças foram produzidas para divulgação em emissoras locais de televisão, que são milhares nos Estados Unidos.

Dois dos vídeos terminam com uma voz feminina, no estilo dos repórteres de TV, dizendo algo como: ‘De Washington, Karen Ryan’. Segundo fontes da produtora das peças, Home Front Communications, a suposta jornalista foi contratada para ler um roteiro preparado pelo governo. Outra ‘matéria’, dirigida à população hispânica, mostra um funcionário do governo sendo entrevistado por um homem que se identifica como sendo o ‘repórter Alberto Garcia’.

Advogados da Auditoria Geral, braço de investigação financeira do Congresso americano, descobriram o material, em fevereiro, quando estavam examinando os gastos do governo Bush com publicidade do programa Medicare. Um relato preliminar indica a ocorrência de omissões e possíveis irregularidades. Representantes do governo afirmaram que o segmento de noticiários da TV é um meio ‘legal e eficiente’ para educar os beneficiários do programa. Não entram em detalhes quanto à confusão – evidentemente intencional – entre propaganda e jornalismo.

Além da existência de leis federais que proíbem o uso de verbas federais para fins de publicidade ou propaganda sem autorização do Congresso, algumas autoridades, como o senador democrata Frank Lautenberg, de New Jersey, denunciam que a distribuição desses vídeos é ‘uma tentativa dissimulada de manipular a imprensa’. Lautenberg e outros congressistas já solicitaram cópias do material colhido pela Auditoria Geral em vários Estados.

Os ‘vídeo releases’ têm sido usados desde a década de 1980, principalmente em programas da indústria farmacêutica que objetivam educar a população a respeito de riscos à saúde, campanhas contra alcoolismo e tabagismo, mas esse tipo de peça de comunicação normalmente apresenta a fonte das informações, ajudando o telespectador a discernir entre os interesses em jogo. Segundo o presidente do Comitê de Jornalistas Engajados, William Kovach, a campanha do governo Bush beira a picaretagem. ‘É algo bem próximo da fraude. É como colocar anúncio pago no coração de um programa jornalístico’, afirmou.