Sábado, 12 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1405

Antes tarde do que mais tarde: relação entre ação humana, perda de vegetação nativa, agronegócio e El Niño é destaque na imprensa

(Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Sendo o agronegócio responsável por 22,8% do PIB do Brasil no primeiro trimestre de 2026, segundo cálculo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, não é comum ver na imprensa hegemônica a relação da perda de vegetação nativa com a crise climática, menos ainda a influência da expansão do agronegócio para o problema. Todavia, no último dia 12 de agosto, o padrão mudou. A divulgação da Coleção 11 do MapBiomas teve boa repercussão na imprensa, indo além dos veículos que já costumam apontar a relação entre a perda de vegetação nativa e as mudanças climáticas. O mais recente estudo do MapBiomas indica que a vegetação nativa do território brasileiro caiu de 79% para 65% desde 1985. Nesse período, a área ocupada pela agropecuária cresceu de 18% para 32% do território nacional.

Em algumas matérias pesquisadas, o título já resume a essência do relatório do MapBiomas, como foi o caso do jornal O Globo, que estampou: “Perda de vegetação nativa para a pecuária deixa o Brasil mais exposto aos eventos extremos do El Niño, aponta MapBiomas”. A linha de apoio ao título reafirmou o sentido da mensagem: “Dados revelam que país está mais vulnerável aos efeitos de secas e enchentes”.

Ao relacionar os dados de ocupação e uso da terra com os dados do MapBiomas Atmosfera, o relatório mostra que o impacto de três fortes El Niño nos anos de 1997/98, 2015/16 e 2023/24 foram maiores em áreas com predomínio da agropecuária do que em áreas onde prevalecem florestas, especialmente na Amazônia. Enquanto nos biomas Amazônia, Pantanal, Cerrado e norte da Mata Atlântica, a consequência do El Niño é a seca, no Pampa é a chuva. O estudo ressalta que os maiores volumes de chuvas no Pampa ocorreram onde a vegetação nativa deu lugar a agropecuária. No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, no entanto, a seca foi mais intensa em áreas de vegetação nativa.

No jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, a manchete foi direto ao ponto: “Brasil perde cobertura de vegetação nativa e enfrenta risco de impacto maior do El Niño”. O jornal O Povo, de Fortaleza, deu o recado igualmente direto: “Mapbiomas: menor vegetação nativa expõe mais o país ao El Niño”. A manchete do Canal Rural também relaciona a perda da vegetação nativa com o maior impacto do El Nino ao dizer: “MapBiomas aponta menor resiliência ao El Niño em áreas com perda de vegetação nativa”. O texto do Canal Rural ressalta os destaques dados pelo estudo, em que a Amazônia teve o menor volume de chuvas entre os biomas nos três eventos de El Niño analisados, com a maior redução no último El Niño (2023/2024) nas áreas de agropecuária no bioma.

No Portal UOL, o título foi: “Brasil perde cobertura de vegetação nativa e enfrenta risco de impacto maior do El Niño”. Ainda que a relação da agropecuária não esteja colocada na manchete do UOL, ela aparece logo nos primeiros parágrafos. “Uma análise do MapBiomas mostra que as regiões dominadas pela agricultura foram mais vulneráveis aos eventos extremos meteorológicos durante três episódios passados de El Niño de grande intensidade”, diz o trecho. O portal R7, da Record, foi pelo mesmo caminho e estampou: “MapBiomas: quanto menor a vegetação nativa presente, mais exposto país estará ao El Niño”. O sites G1 e CNN Brasil também deram visibilidade ao estudo do MapBiomas, ainda que sem tanta ênfase na relação da perda de vegetação nativa e o El Niño.

A análise da repercussão do estudo mostra um momento pouco usual na cobertura da imprensa tradicional sobre a crise climática, considerando que normalmente a relação entre causa (a ação humana) e efeito não costuma ser feita. Talvez a expectativa com a projeção de um histórico El Niño tenha contribuído para a salutar mudança de perspectiva. Resta saber se será um caso isolado ou o início de uma nova tendência na cobertura da crise climática.

Publicado originalmente em Observatório de Jornalismo Ambiental.

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Luciano Velleda é jornalista, mestrando em Comunicação e Informação na UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).