Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

O jornalismo precisa falar no racismo ambiental

(Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Na segunda semana de janeiro, a Ministra da Igualdade Racial Anielle Franco postou séries de tweets sobre o conceito de racismo ambiental, relacionando-o com os eventos climáticos extremos que os brasileiros vêm sofrendo com mais intensidade nos últimos meses. “Devido à desigualdade racial e social, o impacto das mudanças climáticas são agravados nas regiões periféricas e de maioria negra, que têm menos acesso a saneamento básico e políticas de infraestrutura”, escreve a ministra na rede social X, antigo Twitter. Muitas foram as reações contestando o termo e desdenhando da ministra pelo uso. “Não existe racismo ambiental, é uma palavra gatilho da esquerda social democrata”, reclamou um usuário em resposta à Anielle.

A Assessoria de Comunicação Social do Governo Federal teve que socorrer a ministra e explicar isso por meio de nota institucional. Mesmo assim, Anielle continua sendo perseguida por portais de extrema direita, a exemplo da Gazeta do Povo, que corrobora com a versão de que esta é uma pauta “inventada”.

No entanto, faz décadas que pesquisadores utilizam o termo. Selene Herculano, em “Racismo Ambiental, o que é isso?”, conceitua a expressão como “a forma pela qual desqualificamos o outro e o anulamos como não-semelhante, imputando-lhe uma raça. Colocando o outro como inerentemente inferior, culpado biologicamente pela própria situação, nos eximimos de culpas, de efetivar políticas de resgate, porque o  desumanizamos: “ô raça!”. O conceito foi empregado pela primeira vez em 1978, na Carolina do Norte, Estados Unidos, por Benjamim Chavez, por ocasião de protestos contra o depósito de bifenilos policlorados (PCB), compostos altamente tóxicos.

O conceito inclui também a população indígena e quilombola, que, da mesma forma, é atingida pelos eventos extremos como tempestades e secas. Além das comunidades, cujas regiões são escolhidas para depósitos de resíduos urbanos e químicos por estarem localizadas longe dos centros urbanos, onde vivem as pessoas das classes média e alta. Isso é injustiça climática, associada ao racismo ambiental porque boa parte da população das comunidades é negra.

É importante lembrar que a população negra, principal foco da fala da ministra, habita historicamente encostas de morro e favelas, lugares mais afetados por eventos climáticos extremos nas áreas urbanas. A falta de serviços básicos como acesso à água e à moradia digna intensifica os efeitos de episódios adversos. Com os direitos essenciais não atendidos, as populações vulneráveis sofrem de forma acentuada os impactos do clima. No Brasil, pessoas negras compõem mais da metade da população, mas são apenas 30% do funcionalismo público federal, ocupam apenas 10% das cadeiras do Legislativo e representam 12,8% da magistratura brasileira, dentre outros dados que demonstram a discrepância de poder entre pessoas brancas e pessoas negras.

O tema vem sendo trabalhado na imprensa brasileira de forma adequada e as postagens da ministra promoveram a maior cobertura sobre o tema. Vários portais contextualizaram e admitiram a existência de racismo ambiental, ao exemplo de G1: “Racismo ambiental: população marginalizada está mais vulnerável às mudanças climáticas”, Portal Terra “Cinco materiais para entender o que é racismo ambiental”, coluna de Reinaldo Lopes na Folha de São Paulo “Racismo ambiental aumenta risco de tragédia para os não brancos” e Agência Pública “O racismo climático e a insanidade da polarização nas redes”. 

A função social do jornalismo é disponibilizar para os cidadãos informações corretas para que possam tomar as decisões no seu dia a dia. Ao selecionar e interpretar os fatos, auxilia a população na compreensão da realidade. Se a maioria das populações vulneráveis são pessoas não-brancas e essas são as que mais sofrem com os eventos climáticos extremos, podemos afirmar que existe racismo ambiental. A imprensa acerta nesta cobertura após manifestação da ministra Anielle.

Um exemplo de racismo ambiental é a queda de luz que atingiu o sul do País nessa última semana. Porto Alegre (RS) presenciou cair do céu a quantidade de chuva prevista para o mês em uma hora. A cidade e sua região metropolitana ficaram sem luz, sem água e sem perspectiva de contato com a empresa responsável pela energia elétrica. A CEEE Equatorial, concessionária responsável pelo abastecimento de luz do estado do Rio Grande do Sul, teve que ser marcada no Twitter para que respondesse ao prefeito. Internautas reclamavam do atendimento automático. Cinco dias depois, porto-alegrenses ainda enfrentavam a falta de luz, água e internet em suas residências.

Na cidade, os bairros que mais demoraram em restabelecer a energia foram os das periferias, formados, justamente, pela maioria da população negra. Moradores destas regiões realizaram protestos e foram recebidos com tropas de choque e bombas de borracha. O braço do estado que chega para estas populações é o repressor, não o que acolhe e repara a estrutura.

Os veículos do estado, até o momento de publicação desta análise, não mencionaram que o que ocorre com as populações vulneráveis é um caso de  racismo ambiental, centrando suas coberturas nas consequências da falta de energia elétrica e na queda de árvores pela cidade.

Os governantes parecem não compreender a gravidade do tema. O prefeito de Porto Alegre Sebastião Melo afirmou em entrevista ao jornal Sul21, horas antes da primeira chuva, que achava que “o primeiro remédio, o mais eficiente para combater a questão climática, é combater a pobreza”. Já havia feito tal afirmação no Jornal do Almoço de 22 de novembro do ano passado. Esta posição nega os efeitos do clima e transfere a responsabilidade para o orçamento de cada cidadão. Até os bairros nobres são afetados pelos eventos climáticos extremos, já que não há adequação climática das cidades brasileiras. A Agenda 2030 associa o combate à pobreza e o enfrentamento às mudanças climáticas como aspectos transversais para pensarmos o desenvolvimento sustentável. O problema é achar que somente o combate à pobreza resolve a questão climática.

As grandes perdas ocorrem com os mais vulneráveis que têm mais dificuldade para reconstruir o que foi destruído. Embora o combate à pobreza possa contribuir com melhor adaptação às mudanças climáticas e, quiçá, com a redução de riscos de desastres, é preciso sublinhar que a crise climática não é causada pela pobreza, como a frase pode dar a entender. São os mais ricos que contribuem mais para as emissões de gases de efeito estufa, que intensificam as mudanças climáticas. Os mais pobres são os mais afetados, mesmo que tenham contribuído muito pouco para o cenário atual. Logo, combater a pobreza não significa, automaticamente, combater as mudanças do clima.

Nas duas entrevistas citadas, o jornalismo não questionou o prefeito sobre o significado de combater a pobreza e sobre a falta de políticas para construção de moradias dignas fora de regiões de risco e adequadas aos tempos de eventos extremos.

É necessário que o jornalismo evidencie equívocos dos administradores públicos. A sua atuação deve se pautar pelo interesse público e pela busca dos direitos dos cidadãos. Durante a pandemia a maior parte da imprensa prestou um grande serviço à sociedade e combateu a desinformação. A emergência climática é mais um desafio que precisa ser enfrentado pelo jornalismo, que também, através das informações corretas, estará cumprindo seu papel educativo.

Reportagem publicada originalmente em Observatório de Jornalismo Ambiental.

***

Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS.