Monday, 26 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

A verdade factual e a mentira como estratégia

(Foto:Lightwise/123RF)

A agência de fact-checking Aos Fatos e outros veículos demonstraram que o presidente Jair Bolsonaro mentiu ao dizer que o vídeo de chamada para um manifestação no dia 15 próximo, disparado em grupos de WhatsApp, era descontextualizado e referia-se a 2015. A pressa em encontrar uma desculpa para o fato noticiado por Vera Magalhães desconsiderou um aspecto elementar na cronologia dos fatos. O vídeo fazia referência ao atentado a faca que Bolsonaro sofreu na campanha de 2018.

O episódio torna-se ainda mais grotesco quando se considera que a primeira reação de Bolsonaro depois da publicação de Vera Magalhães foi dizer que o vídeo circulou apenas entre seus amigos de WhatsApp. Ou seja, primeiro reconhece a autenticidade, depois volta atrás numa narrativa farsesca – que se repete, como nota Janio de Freitas em sua coluna “O mau cheiro do golpismo”, publicada na Folha de S.Paulo em 1º de março. O colunista lembra a afirmação feita pelo presidente de que Flávio Bolsonaro condecorou o miliciano Adriano da Nóbrega quando ele ainda estava isento de qualquer condenação, mas, na verdade, o filho presidencial precisou ir ao presídio para entregar a medalha. “Desmentidos de Bolsonaro não são verdades, mas palhaçadas morais”, observa.

De um lado, o episódio revela a força do jornalismo comprometido com a verdade factual e sua capacidade de interferir no debate público, conclamando as instituições e lideranças políticas a se posicionar. De outro, expõe uma estratégia do grupo que está no poder em apostar na desinformação para acobertar procedimentos antiéticos ou inconstitucionais e confundir o eleitorado. No contexto da pós-verdade, grande parte das pessoas não tem acesso ao conteúdo jornalístico sobre o caso e, mesmo que tenha, tende a desacreditar das evidências da verdade factual.

Nesse contexto, é preciso que o jornalismo seja mais combativo e use como arma a informação. Em 28 de fevereiro, por exemplo, o Jornal Nacional da TV Globo não mencionou, em sua escalada, as contradições de Bolsonaro diante das evidências apontadas por Vera Magalhães, embora o assunto estivesse detalhado, na edição, em uma nota seca sem a exposição dos vídeos. Não se trata somente de divulgar ou não, mas da forma, do espaço e da ênfase com que isso é feito. Os ataques aos jornalistas têm merecido reação crítica dos veículos da grande mídia, Globo incluída. É preciso também, em igual medida e ênfase, praticar a defesa da verdade factual. Não se deve modalizar as mentiras.

Cada vez que o jornalismo minimiza ou não dá a importância devida a episódios como o do vídeo – cobrando, inclusive, um posicionamento das instituições -, aceitamos como normais atos que representam ameaças às conquistas de nossa jovem democracia. Janio de Freitas observa em sua coluna que “a reação a movimentos nesse sentido ainda é insuficiente e tímida, em comparação com a persistência de Bolsonaro e dos seus próximos na transgressão dos respectivos limites legais, de decoro e já constitucionais.” A existência dos ecossistemas da desinformação convida o jornalismo a se posicionar sem meio-termo quando o assunto é a relação entre verdade factual, política e democracia. Amanhã pode ser tarde demais.