Terça-feira, 8 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1404

Além de carismático e apaixonado, Lito Sousa sempre fez ótimo jornalismo

(Foto: Captura de tela/
O que está acontecendo comigo/Aviões & Músicas – https://www.youtube.com/watch?v=13tOP_7wXMk)

— “Saudações aeronáuticas, tudo bem?”

— “Tuuuuuuuudo bem!”

Os milhões de fãs do “Aviões e Músicas” sabem de cabeça este formato da abertura dos vídeos de Lito Sousa.

Este gigantesco público do canal é formado pelos tradicionais apaixonados por voar, por pessoas que querem vencer o medo e, principalmente, gente interessada em combater a desinformação em torno de uma área tão complexa quanto a aviação.

A notícia de que Lito foi diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob, uma condição neurodegenerativa rara e de rápida progressão, deixou muita gente em choque. Entre elas, jornalistas como Milly Lacombe, autora do texto “Diagnóstico recebido por Lito Sousa une as pontas soltas de um país rachado”, publicado no UOL em sua homenagem.

Mas profissionais do jornalismo, que andaram em rota de colisão (para usar um termo aeronáutico) com Virgínia Fonseca e outras estrelas da internet durante a Copa do Mundo de 2026, podem ser fãs de influenciadores? Podem, claro!

Pessoalmente (e já escrevi sobre isso), sou crítico dos barões do Vale do Silício, e não de gente que tenta trabalhar com arte e informação nas plataformas digitais. E Lito Sousa sempre mostrou uma qualidade a mais: fez bom jornalismo mesmo sem ser jornalista.

Vamos rever um pouco os dados de bordo de seu voo para o sucesso e entender por que ele merece todo o carinho da turma das redações.

Joselito Geraldo de Sousa nasceu em 1967. Filho de uma família de posses modestas, começou a estudar manutenção de aeronaves ainda adolescente, em um curso técnico ligado à Força Aérea Brasileira. Formou-se mecânico e construiu uma carreira de décadas na aviação, passando por empresas como Varig, Transbrasil e United Airlines, nas quais exerceu funções de mecânico, inspetor e gestor nas áreas de manutenção e segurança de voo. Em 2021, conquistou a sonhada licença para pilotar.

Quem conhece apenas o canal no YouTube talvez estranhe o nome “Aviões e Músicas”. A explicação é simples: Lito criou primeiro um blog para reunir essas duas paixões. Em 2010, o projeto chegou à plataforma audiovisual.

Com os vídeos, as músicas foram sumindo (tirando a tradicional vinheta com a “Ciranda da Bailarina”), mas o público só aumentou. Boa parte dele era formada por gente que, como eu, nunca se sentiu muito à vontade no céu. Só que meu interesse ia além. Em tempos de influencers brincando de jornalistas e colegas trocando apuração por opiniões apressadas, o rigor seguido para montar seu conteúdo me impressionava.

Citando nominalmente suas fontes documentais, ele estudava atentamente relatórios de órgãos como o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), manuais, procedimentos operacionais, gravações e dados técnicos disponíveis oficialmente. Nada era falado sem que, antes, ele entendesse todos os detalhes possíveis.

Além disso, num mundo em que o clique frequentemente se sobrepõe à seriedade, seu canal se recusava a abraçar teorias conspiratórias sem fundamento e a arriscar conclusões precipitadas. Toda informação vinha, se necessário, com a ressalva de que a investigação ainda estava em curso e de que era importante aguardar mais dados. 

Não se importava em abrir mão de chamadas sensacionalistas nas capas dos vídeos para se manter ético com seu público, investigadores, vítimas de acidentes, tripulantes e todos aqueles que o assistiam em busca de informação de qualidade.

Em acidentes causados por múltiplos fatores (os mais frequentes, aliás), Lito fugia com elegância daquela nossa mania de eleger um culpado e elencava todos os acontecimentos que, combinados, levaram ao desastre.

Diferente de muitos influenciadores (e até de muitos jornalistas, infelizmente), chegou a fazer o que qualquer repórter sabe que é fundamental: gastar sola de sapato. No vídeo sobre a queda do Fokker 100, ocorrida em 31 de outubro de 1996, ele visitou a rua Luís Orsini de Castro, no bairro do Jabaquara, reconstituindo os momentos finais do acidente e conversando com testemunhas.

Ao longo de todo esse tempo nas plataformas digitais, quilos e mais quilos de relatórios foram transformados em narrativas acessíveis a um leigo. Falando em “quilos”, um charme especial do “Aviões e Músicas” era tornar seus espectadores íntimos do linguajar da aviação, como dizer “papa tango mike romeu kilo” para se referir à matrícula “PT-MRK” daquele trágico voo TAM 402. Aliás, jornalistas policiais também são fluentes neste idioma. 

Desde que Lito se afastou das gravações por causa da rápida progressão de seu quadro clínico, o canal passou a ser tocado temporariamente por amigos. A mobilização procura manter o projeto em atividade e preservar sua audiência e sua receita enquanto ele enfrenta a doença.

Se o “Aviões e Músicas” vai continuar voando por muito tempo, com a ajuda do público e de companheiros de internet, eu não sei. O que posso afirmar é que, mesmo tendo passado boa parte da carreira profissional em hangares, Lito já deixou uma lição para os jovens estudantes de comunicação: nunca deixe de apurar, estudar, questionar, ter cautela com afirmações apressadas e contar boas histórias com paixão.

Isso, amigos da aviação, é o que faz um grande jornalista.

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Rafael Simi é jornalista formado pela PUC-RIO. Passou por diversas redações do Grupo Globo e escreveu o livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.