Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1374

Quando palavras viram insultos: a confusão ideológica no debate público brasileiro

(Foto: Mote Oo Education/Pixabay)

O debate político brasileiro sempre foi marcado por fragilidades conceituais, mas esse quadro se tornou mais visível e amplificado nos últimos anos. Termos como fascismo, comunismo, socialismo, feminismo, direita e esquerda circulam hoje com grande frequência nas redes sociais e no discurso público. Muitas vezes usados como rótulos vazios, insultos morais ou identidades tribais, e não como categorias analíticas.

Direita e esquerda são ferramentas classificatórias contingentes, úteis em certos contextos analíticos, mas insuficientes e instáveis como categorias universais de compreensão política. Seus significados variam conforme contextos históricos, econômicos e culturais, o que limita seu uso como rótulos fixos no debate político contemporâneo.

No Brasil, a falta de coerência ideológica dos partidos e o pragmatismo das alianças políticas tornam difícil usar “direita” e “esquerda” de forma consistente. Essa fragilidade fica evidente quando posições muito diferentes são agrupadas sob os mesmos rótulos ideológicos, independentemente do que de fato defendem.

No debate público brasileiro, categorias políticas distintas são frequentemente reduzidas a um único rótulo ideológico. As causas desse empobrecimento são estruturais, não casuais, e se intensificam quando conceitos historicamente definidos passam a ser utilizados sem critério.

Fascismo, comunismo e nazismo passaram a ser usados, com frequência, como sinônimos genéricos de autoritarismo ou apenas como xingamentos. No debate público, “comunismo” virou rótulo para qualquer proposta de política social. A social-democracia é confundida com regimes totalitários, e o feminismo costuma ser tratado como uma ideologia única, ignorando a diversidade histórica de suas correntes.

Parte da responsabilidade por esse empobrecimento recai sobre a própria imprensa. Ao adotar linguagem imprecisa, reproduzir slogans políticos sem contextualização e tratar conceitos complexos como autoexplicativos, o jornalismo contribui para a erosão do debate público. Quando a mediação falha, a simplificação passa a orientar a cobertura, comprometendo a qualidade da informação.

Não se trata de exigir formação acadêmica do público, mas de reconhecer que o funcionamento do debate democrático depende de referências conceituais minimamente compartilhadas. Sem isso, termos políticos deixam de informar e passam a inflamar posições, em vez de esclarecer o debate.

Nesse contexto, o papel da imprensa como mediadora conceitual torna-se decisivo. A forma como termos políticos são apresentados, contextualizados ou simplificados influencia diretamente a qualidade do debate público.

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Suzy Azevedo é jornalista formada, pós-graduada em Comunicação Informacional, e autora de textos reflexivos sobre mídia, comportamento humano e questões sociais. Escreve sobre temas que impactam a forma como as pessoas pensam, se informam e se relacionam com o mundo.