Friday, 24 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

100 anos de História política, com ajustes, surpresas e revelações", copyright Jornal da Tarde

ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

HISTÓRIA & PODER

"100 anos de História política, com ajustes, surpresas e revelações", copyright Jornal da Tarde, 3/3/01

"O ex-ministro e atual deputado Delfim Netto muda o tom de sua crítica para afirmar que o governo Fernando Henrique Cardoso está no rumo certo, vai produzir grandes alegrias e terá força para bancar uma nova reeleição, hipótese que ele vê germinar nos meios governistas. Na mesma linha de raciocínio, o ultra-oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva adverte que o fortalecimento da economia devolverá aos sindicatos a importância política que o desemprego dos últimos anos diminuiu.

Luís Carlos Prestes, o comunista histórico, é um dos maiores colecionadores de erros políticos na história recente do Brasil. Getúlio Vargas é outro vulto histórico que não resiste a uma análise mais rigorosa. A tortura, a censura e a violência da ditadura militar, entre 1964 e 1985, só encontram paralelo na ditadura getulista do Estado Novo, entre 1937 e 1945.

O cardeal Paulo Evaristo Arns, um dos campeões da luta contra a ditadura militar, apoiou o golpe militar em 1964. O general Octavio Costa, estrela do governo do general Emílio Garrastazu Medici, discorda da versão oficial de que o jornalista Vladimir Herzog suicidou-se numa cela do 2? Exército, em 1975. Dez anos adiante, o então senador e hoje presidente da Repúbblica Fernando Henrique Cardoso figura entre os que, apesar de aparentemente defenderem as eleições diretas, na verdade trabalharam nos bastidores contra a emenda das diretas-já.

O senador, agora dissidente, Antônio Carlos Magalhães jurando que enfrentou os poderosos. O presidente do PT, José Dirceu, sustentando que a luta armada foi uma boa opção para derrubar a ditadura. O arquiteto Oscar Niemeyer, um dos criadores de Brasília, acreditando na ressurreição da União Soviética. O general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército de José Sarney, garantindo que não houve tortura no tempo dos militares.

Vai longe, a lista de surpresas de Histórias do Poder, uma obra em três volumes lançada pela Editora 34 com depoimentos de 52 personalidades que participaram da vida política brasileira nos últimos 100 anos ou a estudaram em profundidade. Ainda mais extensa é a relação de análises pertinentes, relatos detalhados, revelações esclarecedoras. Sem dúvida, Histórias do Poder é um conjunto valioso de depoimentos feitos para a televisão e transcritos para o livro, sob coordenação de Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomão, que merecem todos os aplausos e vênias – e também devem estar preparados para, na primeira oportunidade, corrigir o punhado de erros que deixaram passar.

Além de focalizar a vida brasileira desde o final do império, a excelente coleção permite projetar os próximos anos, ao praticar a recomendação do jurista, professor e filósofo Miguel Reale, um dos depoentes: ?Precisamos penetrar na História para buscar a raiz dos acontecimentos.?

Ao examinar a duração da ditadura militar, a maioria dos entrevistados opina que esse episódio teria sido mais curto se os grupos de esquerda não radicalizassem em sua resposta à arbitrariedade institucionalizada. Os comunistas Jacob Gorender (historiador) e Ferreira Gullar (poeta) são especialmente veementes na crítica ao radicalismo esquerdista nesse período.

?A ditadura foi derrotada pelo voto, não pela luta armada?, diz por exemplo Ferreira Gullar. Coronel reformado e ministro de dois governos militares, Jarbas Passarinho concorda: ?Eles (a esquerda armada) não tinham como derrubar o governo, derrubar as Forças Armadas.?

Outro episódio bastante mencionado é a renúncia de Jânio Quadros à Presidência, em 1961. Foi uma tentativa de golpe, no entender de testemunhas próximas, como o jornalista Evandro Carlos de Andrade, que era auxiliar do presidente, e Plínio de Arruda Sampaio, que era auxiliar do governador paulista Carvalho Pinto, antigo auxiliar de Jânio.

Mais elaborada e talvez mais próxima da realidade é a versão de Paulo de Tarso Santos, que na época era prefeito de Brasília. Dias antes da renúncia, Jânio lhe disse que não queria poderes totais, mas poderes diferentes. Não queria, por exemplo, que o Congresso Nacional tocasse no orçamento. Paulo de Tarso acredita que, quando renunciou, Jânio calculava que o Congresso fosse discutir o assunto por longo tempo. Haveria então oportunidade para ele se pronunciar e comover o povo, que faria o Congresso rejeitar a renúncia, dando-lhe os poderes diferentes que desejava.

Entre os relatos importantes, destacam-se os do jornalista Sérgio Cabral (histórico de como surgiu o Pasquim), do ex-deputado e jornalista Márcio Moreira Alves (o discurso que pronunciou no pinga-fogo da Câmara dos Deputados, causa imediata do AI-5 em 1968), da atriz Fernanda Montenegro (a vida teatral sob a censura), do presidente Fernando Henrique Cardoso (os convites para participar do governo Fernando Collor), do ex-presidente José Sarney (a complexidade de seu tempo no Palácio do Planalto).

Há também reflexões relevantes, como as do jornalista Luiz Alberto Bahia (raciocínio claro, didático em torno de poder, política, situação, oposição), da professora Maria Victoria Benevides (painel da cena política nacional, desde a República até os dias de hoje), do jornalista Villas-Boas Corrêa (uma aula de vivência política dos anos 1940 para cá), do ex-guerrilheiro e deputado José Genoíno (sobre a necessidade de a elite ceder, para evitar uma guerra social), da professora Lúcia Avelar (ainda é inevitável a aliança com a oligarquia para de fato se governar, no Brasil).

Aqui e ali, entretanto, Histórias do Poder apresenta equívocos que uma obra desse gênero não comporta, por desorientar leitores menos alertas. A causa principal está na decisão de manter, no livro, a fala gravada para a televisão. Nesses casos, preserva-se de fato o calor do depoimento, mas é indispensável ler atentamente as transcrições. Só assim evitam-se os lapsos de memória dos entrevistados e os enganos de quem, ao transcrever, não ouviu direito essa ou aquela palavra.

HISTÓRIAS DO PODER – 100 ANOS DE POLÍTICA NO BRASIL, organizado por Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomão. Editora 34, R$ 75,00 (vol. 1: Militares, Igreja e Sociedade Civil, 401 págs., vol. 2: Ecos do Parlamento, 405 págs., vol.3: Visões do Executivo, 407 págs.)"