Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

2001: restos a ler

LIVROS DO ANO

Deonísio da Silva (*)

O melhor lançamento editorial de 2001 foi obra de uma editora pública. A Imprensa Oficial de São Paulo publicou uma raridade bibliográfica: a coleção completa do Correio Braziliense, o primeiro jornal brasileiro, publicado em Londres por Hipólito José da Costa Furtado de Mendonça entre 1808 e 1822. São seis [de trinta e três] volumes indispensáveis a quem quer entender a nossa imprensa, a luta pela liberdade e o terrível discernimento que, faltando às vezes aos críticos, não faltou aos censores.

Aliás, também no período pós-1964, obras que iam passando despercebidas nos circuitos elegantes do livro, recebiam sinistra atenção dos censores do general Ernesto Geisel, então acumulando a presidência da República (1974-1978). E muita gente ilustre aprendeu com aquela "lista dos 508" que existiam ficcionistas duros e proféticos como Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão e Frei Betto.

O primeiro, com o livro Feliz Ano Novo, anunciava a violência urbana que veio a instaurar-se e consolidar-se nos anos seguintes, mas que era apenas ameaça e presságio nos anos de 1970. Contra o autor e seu livro profético mobilizou-se todo o aparato repressivo. Não fosse o escritor ter recorrido aos tribunais, por certo um manto de silêncio encobriria a dura verdade: que na luta do Estado contra a Sociedade, valia tudo, até mesmo transferir um juiz do Rio Grande do Sul para o Rio de Janeiro, com o fim de praticar um ato insólito em toda a jurisprudência mundial: em vez de julgar, acusar o autor que buscava remédios da Liberdade na Justiça.

O segundo, no romance Não Verás País Nenhum (título extraído de um verso ufanista de Olavo Bilac), manifestava seu desconcerto, revolta e perplexidade com a devastação ecológica, iniciada nos albores do Brasil, mas retomada em grande escala mo governo Médici. E em Zero mostrava que não havia países na América Latíndia (neologismo que criou) para acolher perseguidos políticos, já que as fronteiras ? "as cercas que separam quintais", no dizer de um verso de Raul Seixas, então compondo com Paulo Coelho ? apenas separam as ditaduras umas das outras, mas no conjunto todos os tiranos atuavam em parceria, como vieram a demonstrar anos depois as revelações da estratégia repressiva montada no Cone Sul [Operação Condor].

E o terceiro, que nasceu escritor e se tornou frade depois, mostrava com seus livros Batismo de Sangue e Cartas da Prisão os reais motivos que igualavam leigos e religiosos, ateus e crentes, no mesmo projeto de contestação, enquanto a cúpula religiosa e militar negociava pelas bordas sociais.

A melhor poesia

Pois bem, o discernimento censório parece que jamais falta na História do Brasil. A Coroa Portuguesa proibiu os escritos de Hipólito, o patrono dos jornalistas brasileiros. Getúlio Vargas proibiu, entre tantos outros, o romance de Ivan Pedro Martins, Fronteira Agreste. E ao findar de 2001 e começos de 2002 não são poucos os que fazem questão de esquecer que, por mais que se critique o presidente Fernando Henrique Cardoso, não se pode olvidar que faz grande diferença ser ele o presidente e não um daqueles que proibiram seus livros, lançando-os no índice dos livros censurados no período pós-64, que nos métodos de seleção imitava o famigerado Index librorum prohibitorum da Inquisição, repetido por obra de Armando Facão no ministério da Justiça, no governo Geisel. Distensão, estais lembrados? Ou abertura, de acordo com denominação do general que o sucedeu, João Figueiredo, por sorte o último presidente de quepe que tivemos no século.

A mídia andou esquecendo de outros livros importantes. Na poesia, esqueceu-se de Fabrício Carpinejar e sua Terceira Sede (São Paulo, Escrituras), um dos melhores livros de poesia de 2001, em forma de 10 elegias compostas quando o poeta está no esplendor dos 29 anos, mas imagina um memorial para o ano 2045. Filho de Carlos Nejar, não se pode vitimá-lo com o castigo que foi afligido ao grande contista Ricardo Ramos, que pagou caro por ser filho de Graciliano Ramos. Em outros países, Ricardo e Fabrício seriam celebrados ao lado dos pais, Carlos e Graciliano, mas nesses trópicos, se os pais são bons, como é que os filhos também podem ser, não é mesmo? Não podem. A mídia lança sobre eles as respectivas paternidades, transformando bênçãos em anátemas.

Terceira Sede veio saudado pelo escritor e jornalista Carlos Heitor Cony e teve apresentação de um ensaísta e professor, competente nos dois ofícios, Luís Augusto Fischer, da UFRGS. Olga Savary e Vicente Cecim foram dois outros poetas que fizeram por merecer, com livros novos, um espaço bem maior do que o que lhes concedido em migalhas. Outra que andou injustamente esquecida, mesmo com livro novo na praça, foi Neyde Archanjo.

Romance e ensaio

Na área do romance, Joyce Cavalcante, presença marcante da passagem da mulher de personagem à autora, ocorrida apenas no século passado, como se sabe, publicou um romance simplesmente delicioso que no dizer de José Nêumane é um texto que "morde com força e lambe com desvelo". O Cão Chupando Manga é meu candidato a um dos melhores romances de 2001, ao lado de O Pintor de Retratos, de Luiz Antônio de Assis Brasil (a frase do coronel morto sendo erguido no caixão para que o pintor possa completar o retrato é uma cena cinematográfica; é, não; certamente será) e dos romances vencedores do maior prêmio da literatura brasileira em 2001, os R$ 100 mil divididos entre Salim Miguel e Antônio Torres, respectivamente por Nur na Escuridão e Meu Querido Canibal, sendo relevante que tenha sido uma universidade e uma prefeitura municipal do interior do Brasil (Passo Fundo, RS) que tenham concedido o galardão.

Na mesma pequena cidade de Passo Fundo, que ganhou a imprensa nacional e internacional por suas "Jornadas de Literatura", foi publicado pequeno livro que dá mostras de que podem ser encontrados bons ensaios literários nos campi das universidades. Refiro-me a Literatura e História em Diálogo: um olhar sobre Canudos, de Ivânia Campigotto Aquino, um dos melhores livros sobre Euclides da Cunha depois das interpretações de gente que dá boas aulas e escreve bons ensaios, como Walnice Nogueira Galvão, em No Calor da Hora: a guerra de Canudos nos jornais, e Marco AntônioVilla em Canudos: o povo da terra. Sorte das universidades que podem contar com ela & ele para dar aulas e pesquisar como pesquisam, transformando depois suas prospecções em ensaios lidos com prazer por quem entende do riscado.

Gosto e pendor

Sem a pretensão de corrigir todos os esquecimentos, aproveito o espaço para destacar outros livros aos quais a mídia deu pouca atenção, mas que são primorosos. Um é o romance de Wilkie Collins, A Pedra da Lua, romancista inglês que influenciou seu colega no curso de direito, Charles Dickens, tendo os dois escrito um livro em parceria, em 1867. A Pedra da Lua, que chega ao Brasil por iniciativa editorial da Record, foi publicado em capítulos no ano de 1868, na revista All Year Round, dirigida pelo autor de David Copperfield.

A Martins Fontes publicou Os Anormais, reunião de cursos ministrados por Michel Foucault no Collège de France, entre 1974 e 1975. A voz de um dos maiores intelectuais europeus do século passado ecoa com saberes e sabores, gostos e odores nesse livro. Foucault dá grande importância aos sentidos nos seus ensaios e aulas. Irreprochável é também Cinema Falado, transcrição de cinco anos de seminários de cinema em Porto Alegre, publicação da Prefeitura Municipal de Porto Alegre em 2001.

No mais, em 2001 o escritor Roberto Drummond, depois de se transformar em lenda, com Hilda Furacão, vivida na telinha por Ana Paula Arósio, sentiu O Cheiro de Deus, deslumbrante romance que faz dele, mais que gênio, oxigênio para nossa literatura, mostrando que o real pode ser, como nos contos de fadas, acolhido com vigor na fantasia. Ou como diz Hilda Hist em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão com estes versos que mostram estar a obscena senhora no ponto mais alto de sua criatividade:


se refazer o tempo, a mim, me fosse dado

faria do meu rosto de parábola

rede de mel, ofício de magia.


E para coroar as boas lembranças de livros de 2001, cito As Lágrimas de Heráclito, do Padre Antônio Vieira, originalmente publicado em italiano, cuja edição brasileira foi fixada e anotada por Sonia N. Salomão. Imperdível por muitos motivos, sobretudo por fazer ressurgir o barroco dos sermões do grande pregador. Afinal, o barroco nos acompanha há séculos e talvez marque até mesmo o gosto e o pendor deste colunista que ora encerra suas atividades de 2001 neste lugar tão aprazível chamado Observatório da Imprensa.

Feliz 2002 a nossos queridos leitores, os personagens mais importantes para quem escreve.

(*) Escritor e professor da Universidade Federal de São Carlos, doutor em Letras pela USP. Seus livros mais recentes são o romance Os Guerreiros do Campo e De Onde Vêm as Palavras